A cidade pelo espelho retrovisor

out/2021

Conversei bastante com motoristas de aplicativo nestes últimos 12 dias quando tive que deixar meu carro para reparos numa oficina. Matei a saudade do velho hábito de conversar com taxistas, sempre indagava as  queixas que eles mais ouviam dos passageiros. Agora, repeti a dose com os motoristas de aplicativo. Queria saber sobre o dia a dia deles e sobre a cidade que veem pelo espelho retrovisor.   

Escutei expressões como passando uma chuva, quebra galho, frases resignadas como é meu ganha pão, percebi uma relação de ódio-amor em relação à empresa, a Uber. Sofrem muitíssimo  com a disparada do preço dos combustíveis, o que tem ameaçado a ocupação e muitos deles estão em vias de se afastar.  Já houve uma devolução em massa de carros, lotando os pátios das locadoras que amargam prejuízo com a dura reviravolta desse festejado mercado de aplicativos.

Os que não possuem automóvel, sofrem para cobrir o aluguel semanal que fica entre R$ 400,00 a R$ 500,00, por mês R$ 2.000,00. Os aumentos de combustível e outros insumos decretaram o fim do noivado com as locadoras e da promessa da tal empregabilidade. Se o motorista for dono do carro e tiver entre R$ 4.000,00 a R$ 5.000,00 para custear o equipamento de gás natural veicular, até poderá manter uma margem boa de lucro – e sobreviver.  

Outro mal-estar gerador de muito sofrimento entre os nativos da tribo dos aplicativos é o contraste brutal entre sua relação de trabalho do momento presente, ultra precarizada e inconsistente, com sua vinculação anterior, seu emprego de carteira assinada.

Quem saiu do emprego formal (como os milhares de ex-funcionários da Ford, em Camaçari, em 2020, por exemplo) e virou Uber recorda o poder de compra, das férias remuneradas, do plano de saúde, do 13.o salário, aposentadoria, ticket alimentação, etc. As sólidas compensações de antes da Modernidade Líquida.

Lembrei de um dos mecanismos de defesa do ego de Freud, a racionalização, quando ouvi um deles soltando clichês como “aqui sou dono de meu negócio”, “ninguém manda mais em mim” e “eu sou meu chefe”, numa luta contra o luto do que se perdeu. 

Nem todos, porém, idealizaram a época do emprego formal, com garantia. Recordam o quanto custou caro, o quanto foi duro, desumano, como eram hostis certos chefes, como sentiam injustiça e exploração, etc.  Mas era um sofrimento muito diferente. Não era como agora com tudo desregulamentado, sem contrato, sem direitos e sem garantia.

A era Uber parece ser uma clara representação do mundo neoliberal em que a simbiose do capital com as transformações digitais lava as mãos para os antigos direitos e conquistas dos trabalhadores e instala um modo de extrair maior produtividade e lucro dos empreendedores parceiros, como são chamados – cinicamente – os motoristas. Entramos na Sociedade do Cansaço na qual mais desempenho é extraído de mais sofrimento, como pontua o  filósofo Byung Chul-Han. A propósito, mais da metade dos motoristas com quem conversei me afirmou trabalhar mais de dez horas por jornada.  

É difícil para eles compreenderem que as transformações digitais que detonaram seus velhos postos de trabalho formal são as mesmas que dispõem das tecnologias onde eles agora labutam.

A violência urbana apareceu constantemente nos diálogos com eles. Com menor intensidade, a truculência no trânsito, uma ameaça diária no seu ofício. Mas o rosto mais amedrontador é de fato a violência que impede a circulação em bairros dominados pelo tráfico. Uma motorista com quem fiz longa corrida de Stella Maris ao Rio Vermelho (uns 24 km) e me fartou de informações sobre este tema. Ela mapeou a cidade de Salvador e seu diagnóstico sobre zonas perigosas coincidiu com o de outros colegas. Ela desenvolveu um linguajar próprio para se fazer entender com os agentes armados até os dentes, em comunidades onde prevalecem as facções criminais. 

Sua dica é se fazer humilde e subserviente e demonstrar que está disposta a obedecer. Andar com as luzes internas do carro acesas e os vidros rebaixados e, sobretudo, usar os jargões próprios da malandragem, tratando os caras como “comando”, “autoridade”, “chefia” e se referir a si própria na terceira pessoa: “a tia aqui” e “mãinha é aplicativo”. Sua tática fatal é convencê-los que também repudia a polícia. Quanto desgaste para se trabalhar num contexto assim.

Os líderes do comando estabelecem como os carros podem circular em áreas das comunidades. E desfazem dos cânones do Detran, pois o trajeto é reconfigurado. O carro precisa circular no lado em que as câmeras instaladas pelo comando registrem cada movimento. Por estas e outras é que há consenso entre os motoristas em relação ao cancelamento de chamadas. De acordo com a zona de origem do passageiro e do seu destino, não vão aceitar a corrida. Pode ser que se trate de uma laranjada, uma armadilha, no jargão deles.

Com feeling antropológico vislumbrei na voz dos motoristas como seu retrato da cidade coincide com o seu e o nosso estado de espírito, no momento presente. Parece que deixamos uma modalidade de sofrimento com algumas benesses e compensações para uma era de terra arrasada. Pela janela dos carros eu vi uma cidade desamparada, empobrecida, explorada e com serviços cada vez mais precarizados. As calçadas transbordando trabalho informal durante do dia e, à noite, dormitórios de uma crescente população de rua.   

Fica aqui o convite para vocês acionarem suas antenas & radares para ler além do texto o tecido social marcado pelo esgarçamento, violência urbana e sofrimento psíquico, retirando o manto de invisibilidade e ocultação do nosso entorno.  

Minha bela cidade de Salvador e sua baía de Todos os Cartões Postais, atlântica, solar, caliente, que transborda arte e possui legado histórico e arquitetônico, povo mestiço, vibrante, adepto da festa e das sagradas devoções não é exatamente a mesma quando contemplada pelo espelho retrovisor.

Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
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