>

Anos 70 na Bahia. E eu fazendo o que por aqui?

abr/2017

Falar dos anos 70 na Bahia, tema do livro coordenado pelo querido amigo Sérgio Siqueira e o escritor Afonso Costa, lançado este mês, não é conversa para menores e já vou aqui me desculpando por isso #SQN. Imagine você leitor se a obra fosse lançada naqueles idos onde uma mulher pelada na capa de uma revista masculina (Ele) era o suficiente para a censura mandar recolher todos os exemplares em bancas.

Pense ai o que ocorreria com o livro em questão onde o devaneio de mais de 200 autores com as mais íntimas revelações se perde entre a utopia e a poesia. Lembranças em torno de uma década marcada pela contestação, uma revolução de costumes que se deu através do ativismo político, da contracultura, ou, da simples loucura, deixa eu pirar que assim é melhor. Sem rasgar dinheiro, porque dinheiro não existia.

Sorte nossa que não estamos mais nos anos 70 e o livro pode ser lido sem culpa, embora eu faça questão de dizer de novo: não é conversa para menores. Mas se não existe mais a censura de farda e boné, temos que lidar com a burrice dos robôs do Facebook, tão ignorantes que não conhecem e não sabem apreciar a importância da bunda de Ney Matogrosso em Arembepe, nem os peitos de fora de Janis Joplin, no Rio Vermelho, motivos para tirar do ar os posts sobre o blog “Anos 70 na Bahia” que deu origem ao livro. Censura lá, censura cá, deixa isso que não nos compete.

E lá vou eu caindo do céu numa tarde ensolarada do dia 7 de setembro de 1973 na Bahia de Todos os Santos e Todos os Pecados, então com maior afinidade para a primeira, vivi em estado de graça e pureza absoluta até a minha reintegração na sociedade de consumo, já na década de 80 quando assumi a Bahia de Todos os Pecados dos quais não consigo me livrar por mais que me esforce. E não quero sua ajuda, já vou avisando. Como ia dizendo cai do céu nesta terra linda e maravilhosa sem imaginar que daqui mesmo um dia retornaria ao céu, entre trombetas e clarins de anjos, como nos afrescos de Michelangelo, espero que não tão cedo.

Na minha santa vivência dos anos 70 as lembranças se confundem e hoje transcorridos tantos anos de barulho, desde quando deixei as sandálias para usar sapatos e me vesti como gente e aparei as melenas como gente, não distingo mais o contexto quando um amigo, ou amiga, do passado, num desses reencontros da vida, diz ter me conhecido na Ilha, ou, em Arembepe. Se é homem penso logo e tenho a impressão de que eu peguei a mulher dele, ou, então ele pegou a minha; se é mulher acho que já transei com ela e se não me recordo dos detalhes é porque os devaneios do chá de cogumelos, ou, do chá de Datura não me permitiam, naqueles idos, ter um faro assim tão aguçado. Deixo o amigo, ou, amiga falarem e ficou catando as palavras, uma por uma, para ver se reencontro o contexto.

Mas, dureza mesmo, mais dramático do que decifrar o contexto é se olhar no espelho todos os dias e não ver mais o hippie de 20 anos com a áurea que a muitos encantava, com seu olhar sereno e a expectativa de reinventar a vida a partir das coisas simples, reencarnar ainda vivo como se isso fosse possível. Não o vejo mais no espelho, tenho saudades dele. Sinto apenas a sua cumplicidade comigo e nestes dias em que os Anos 70 voltam a mídia, num registro com a coautoria de 200 autores, torço para que o espelho me revele de uma vez por todas quem eu sou, quem sou eu. Enquanto chega minha hora de retornar ao céu.

Nelson Cadena

Nelson Cadena

Colunista

Escritor, jornalista e publicitário.

Mais artigos

Narcisos digitais

Nas últimas décadas a humanidade passou a conjugar o verbo conectar e compartilhar com outra semântica. Compartilhamos e nos conectamos todos os dias na internet, teia que se tornou a principal plataforma de relacionamento, de business, de comunicação, de aprendizagem...

ler mais

Uma historinha para cobrir a falta de assunto

Definitivamente estou sem assunto e isso me preocupa. Quando falta assunto é por que sobra preguiça, mas, para vocês não saírem por aí me imputando esse pecado capital, melhor eu contar uma historinha, juro que não é ficção, ou, mais de uma, por que não? Aconteceu em...

ler mais

Era dos haters

O termo hater, de origem inglesa, quer dizer os que odeiam ou odiadores, remete ao mundo da internet e é usado para classificar os truculentos cyber bullying, os ataques agressivos nas mídias sociais. O hater ataca sua vítima por meio de declarações hostis e por causa...

ler mais

Procuram-se clientes

Uma estátua de uma menina encarando um touro ou uma foto de um restaurante em chamas. A primeira foi a ideia da McCann Nova York para a State Street Global Advisor, uma empresa do mercado financeiro de Nova York. O que para muitos seria loucura, para a SSGA foi um...

ler mais

Protagonismo feminino na área social

Estamos vivendo uma era de mudanças. A diversidade é a pauta da vez e percebo como as mulheres estão se articulando em movimentos de representatividade. Claro que o protagonismo feminino não vem de hoje, e a Santa Casa da Bahia tem acompanhado e feito parte das...

ler mais

Maré de março

Tomara que as águas de março sejam mais alvissareiras para a propaganda brasileira do que o fatídico mês de fevereiro que nos legou três más notícias, algumas tiveram pouca repercussão por aqui. O Carnaval da Bahia se sobrepõe a qualquer fato, ou, evento. Vocês já...

ler mais

junte-se ao mercado