Entrevista: Camila Passos – Gerente de Marketing e Comunicação do Sebrae Bahia

out/2020

“O pequeno negócio é a razão de existir do Sebrae. Atuamos há mais de 40 anos junto aos empreendedores e já encaramos momentos diversos de prosperidade e também de adversidade. É importante reiterar que nosso papel é estar presente, seja qual for o momento. ”                                                                                                                                                                    

                                                                                                                                                                          

  

 

 

Os pequenos negócios são tão relevantes para a economia que têm, no Brasil, sua própria data. No dia 5 de outubro, celebra-se o Dia Nacional da Micro e Pequena Empresa, categoria que representa 99% das empresas registradas no Brasil e na Bahia, de acordo com o Sebrae.

No cenário de pandemia, são elas também que estão mais suscetíveis à falência. Por outro lado, por demandarem baixo investimento inicial, podem ser a porta da esperança para quem ficou desempregado, mais ainda se a porta for on-line. Mas dá pra ter propósito e lucro, vendendo pra vizinhança e pelo Whats app?

Em homenagem aos empreendedores das micro e pequenas empresas da Bahia, neste mês, a ABMP entrevista a gerente de marketing e comunicação do Sebrae, que fala sobre a adequação dos serviços prestados pela instituição desde o início da pandemia, bem como os desafios e potencialidade do e-commerce para estes comerciantes.

Com mais de 20 anos de experiência em comunicação, economia criativa e relações internacionais nos setores privado, governamental e terceiro setor, Camila é pós-graduada em Comunicação para o Desenvolvimento pela Universidade de Nova York (NYU). Trabalhou para a ONU, Petrobras, British Council, Southbank Centre (UK), Governo da Bahia, dentre outros. Atualmente desenvolve no Sebrae estratégias de comunicação para o fomento do empreendedorismo sustentável na Bahia.

 

 

ABMP: A pandemia impôs um cenário onde as pessoas passaram a ter que criar do zero ou injetar novos esforços e investimentos no próprio negócio, tendo as redes sociais como principal ferramenta de locução e venda. Como o Sebrae orienta esse empreendedor de primeira viagem, que não é especialista, a “se vender” melhor na internet? A que devemos estar atentos na hora de comunicar nas redes?

CP: O espírito de empreendedorismo está muito vivo no crescimento das redes sociais. Quem mergulhou comercialmente nessa, com ou sem planejamento, agora tem que saber nadar. A investida no comércio on-line requer desenvoltura, exige versatilidade e, muitas vezes, uma orientação profissional cai bem. Uma publicidade eficaz é ingrediente ativo para a sustentabilidade do negócio. Por escolha ou necessidade, os proprietários de pequenas empresas se revelaram muito promissores nas redes sociais, também durante esta pandemia.

O Sebrae caminha junto com os pequenos negócios nesse processo, potencializando estratégias e contribuindo para a melhoria da gestão. No dia a dia, interagimos trocando ideias e informações e nos relacionamos com um universo interessado de empresárias e empresários a frente de pequenos empreendimentos. Estamos aprendendo e avançando juntos.

O marketing digital permite maior interatividade e uma comunicação direta com os clientes. É preciso, porém, atentar às boas práticas que permeiam as redes sociais, evitar deslizes e manter-se antenado, buscar suas próprias referências e inspirações. A boa e velha promoção continua sendo grande atrativo.

É importante dedicar atenção especial para expor conteúdo relevante – e isso não significa apenas falar de seu produto ou serviço. Aliás, este é outro ponto importante a ser destacado: a internet encurta distâncias e amplifica vozes. Com um consumidor cada vez mais ativo, a rede potencializa acertos e qualidades, mas também as falhas de uma empresa, seja na sua atividade fim, seja em algum posicionamento específico.

ABMP: O que o Sebrae tem ofertado para o empreendedor que pretende trabalhar planejamento, construção e valorização de marca no campo digital?

CP: O pequeno negócio é a razão de existir do Sebrae. Atuamos há mais de 40 anos junto aos empreendedores e já encaramos momentos diversos de prosperidade e também de adversidade. É importante reiterar que nosso papel é estar presente, seja qual for o momento. Nesse período de pandemia, adaptamos todo o nosso atendimento para o on-line e reforçamos conteúdos necessários que pudessem auxiliar o empresário a enfrentar esse cenário conturbado.

No aspecto específico de construção e valorização de marca, uma das consultorias ofertadas é a do programa Sebraetec (https://sebraetec.com/). Trata-se de uma iniciativa que é subsidiada pelo Sebrae em até 85% do valor total do projeto e vem alcançando excelente receptividade ao ressaltar a necessidade de uma identidade visual e presença digital que transmita os valores da empresa de forma estratégica e competitiva.

As redes sociais têm permitido novas formas de negócio e de conexão com clientes, colaboradores e fornecedores. A interatividade em canais de atendimento digitais vem registrando sucessivos crescimentos. Além disso, tem sido muito utilizada como ferramenta para a construção de uma base de dados sobre os clientes e seus modos de consumo.

O Sebrae investe também em capacitações em marketing digital, finanças e vendas on-line, ocasião em que difunde orientações sobre como alavancar os negócios nas redes sociais, discutindo possibilidades e cenários e apresentando caminhos para construção e monitoramento de uma estratégia capaz de impulsionar os negócios. Informações adicionais sobre tais iniciativas podem ser encontradas no Portal do Sebrae (www.sebrae.com.br) ou ainda pela nossa Central de Relacionamento, no telefone 0800 570 0800, e nas redes sociais @sebraebahia no Instagram, Youtube, Linkedin, Facebook, Twitter e Telegram.

 

ABMP: No Brasil, de acordo com o Sebrae, 99% dos negócios são micro ou pequenas empresas. Muitas delas são geridas por uma espécie de faz tudo, desde planejamento à execução. Neste contexto, é possível cobrar propósito e posicionamento de uma marca conduzida geralmente por alguém que precisa dar conta de tantas atribuições ao mesmo tempo?

CP: Os donos de pequenos negócios no Brasil têm se superado e dado demonstrações de que é possível sim desenvolver uma marca com propósito, posicionamento e rentabilidade.

É importante lembrar que tudo começa pelo planejamento que, se bem definido, já prepara o caminho rumo à sobrevivência do negócio. Nesta batalha para viabilizar e assegurar a sustentação do negócio por tempo mais longo, a comunicação desempenha papel abrangente e crucial. É nessa construção que se forma também o valor da empresa e, é importante que se diga: a comunicação não cria, mas sim transmite valor. E hoje é possível realizar uma comunicação eficiente, um canal dialógico acessível e sem necessidade de grandes investimentos por meio das redes sociais, o que, certamente, se configura em um diferencial para a empresa que se apropria bem dessas ferramentas.

Mais que tendência de mercado, ter um posicionamento é praticamente uma exigência do consumidor de hoje.

 

ABMP: Você acha que o segmento de marketing e propaganda deve olhar com mais atenção para as micro e pequenas empresas? Qual é o momento ideal para o empreendedor entregar a marca para uma agência com profissionais especializados?

CP: Ao falarmos de micro e pequenas empresas não estamos falando de um setor à parte, mas sim a base de nossa economia. Aqui na Bahia, os pequenos negócios representam 99% das empresas registradas e são responsáveis ainda por 27% do PIB nacional. São os que mais geram emprego e renda nas comunidades onde estão inseridos.

E considerando a comunicação como área estratégica de qualquer negócio, é importante que o setor de marketing e propaganda olhe com atenção para as empresas de pequeno porte, diante de suas especificidades e necessidades.

Para o dono de um pequeno negócio, saber o que se quer e onde se quer chegar contribuem para decidir o momento de se buscar reforço profissional na área de comunicação. É crucial conhecer bem o seu cliente para saber como se comunicar. Compreender como seus consumidores o diferenciam dos concorrentes, além de ampliar as perspectivas e favorecer a conquista de um objetivo.

 

ABMP: Em relação às vendas, como equilibrar e-commerce com a retomada do comércio tradicional? O online é um caminho sem volta?

CP: Como falamos anteriormente, o on-line já era forte tendência e a pandemia acabou obrigando as empresas, que ainda não tinham presença digital forte, a acelerarem esse processo. Pesquisas realizadas pelo Sebrae nesses últimos meses mostram que a maioria dos donos de pequenos negócios no Brasil buscou formas de inovar e digitalizar suas empresas. Isso parte de uma demanda que vem da mudança de hábitos de consumo da população. Precisando ficar mais tempo em casa, as pessoas tornaram o consumo on-line parte de suas rotinas de forma mais consistente. Os especialistas avaliam que, diante da experiência, a tendência digital se fortaleceu. Negócios que surgem, a partir de agora, consideram, desde o início, a presença digital como parte estratégica de sua atividade. Isso não significa dizer que o comércio tradicional, com compras presenciais, deixará de existir. Reforço aqui a palavra “experiência”. Seja no on-line, seja no presencial, é importante atentar que os consumidores hoje, mais do que serviços e produtos, buscam uma boa experiência. Para além do preço, estão em busca de valor. A comunicação favorece um maior comprometimento com o consumo e a oferta de uma experiência positiva seja na relação presencial ou no ambiente digital.

 

ABMP: Em recente artigo publicado pelo próprio Sebrae, foi falado sobre a valorização do Locavorismo após a chegada do Covid-19, que nada mais é do que uma mudança no comportamento do consumidor, que passou a dar preferência aos pequenos negócios da região ao invés de estabelecimentos maiores. Como o micro e pequeno empreendedores podem se aproveitar disso?

CP: Os pequenos negócios estão presentes em todo lugar. E sempre haverá espaço para promover o potencial do comércio local, mesmo quando ele acontece por demanda on-line. Ao facilitar o diálogo, os meios digitais abrem novas perspectivas para o serviço local. São inúmeros os exemplos de empreendedores que apostaram numa comunicação eficiente e fizeram com que todos aqueles que se relacionam com a empresa, de fornecedores a consumidores, exaltassem não apenas seus produtos ou serviços, mas também o seu propósito.

A proximidade favorece a empatia e a confiança. Qual bairro que não possui uma pequena padaria, uma pequena lanchonete, hortifrútis e pequenos comércios de uma forma geral? Esses negócios estão inseridos nessas comunidades de forma muito mais próxima dos seus clientes. Existe essa relação que se estabelece de maneira mais pessoal. E foram justamente esses pequenos negócios os mais impactados pela pandemia. Com estruturas mais enxutas, sem dinheiro em caixa para se segurar durante tantos meses com atividades restritas ou mesmo suspensas, muitos empresários, infelizmente, precisaram fechar as portas. Aqueles que puderam continuar trabalhando, seja por fornecer produtos ou serviços essenciais, seja de maneira mais restrita, como os restaurantes que puderam atuar com delivery ou sistema de take away, precisam do apoio de seus clientes para superar esse momento.

Esse movimento de valorização dos negócios locais deve ser visto como uma forma de reconhecer a sua importância e o seu papel na comunidade. Atento a essa situação, o Sebrae, no primeiro mês da pandemia, retomou a campanha Valorize o Pequeno, e lançou uma plataforma  (www.valorizeopequenonegocio.com.br) para que os empresários pudessem anunciar seus produtos e serviços. Portanto, essa é uma relação que deve ser de acolhimento mútuo: de um lado o empreendedor, inserido naquela comunidade, parte daquele dia a dia, do outro o consumidor local, que reconhece a importância da manutenção daquela atividade para a sua comunidade. Comprar dos pequenos negócios de seu bairro é um grande negócio.

 

 

Crédito da foto: Michel Rey

 

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