Entrevista: Manuela Nery de Morais – CEO do Agrolly

nov/2020

“A solução visa preencher lacunas de informações para que os agricultores possam aprender uns com os outros, tomar decisões mais informadas, obter financiamento e melhorar seus resultados financeiros. ”                                                                                                                                                                    

                                                                                                                                                                          

 

 

 

Para auxiliar os pequenos produtores rurais de países emergentes com uma agricultura inteligente, baseada nos efeitos das mudanças climáticas, um grupo liderado pela engenheira química baiana, Manoela Nery de Morais, criou o aplicativo Agrolly. No mês passado, a ferramenta ficou em primeiro lugar no Call for code globe, desafio global lançado pela IBM, em busca de iniciativas que auxiliem a população com soluções para grandes problemas. O prêmio foi de US$200 mil. 

CEO do app, Manoela é formada em Engenharia Química pela Ufba e Hochschule Bremen, na Alemanha. Em 2018, visando traçar novos caminhos na carreira, mudou-se para os Estados Unidos, para cursar um mestrado em Gestão de Risco Financeiro na Pace University, onde conheceu, então, os outros cofundadores da Agrolly. São eles: Ajinkya (CTO, Índia), Chimka (MD Ásia, Mongólia) e Helen (Programadora, Taiwan).  

Palestrante confirmada para o Scream 2020 (aqui programa nova aba com link do scream), ela antecipa informações, como a concepção, funcionalidades e benefícios da plataforma aos pequenos agricultores ao redor do mundo. Com plano de cooperação para a Bahia para ser implantando em breve, atualmente, Agrolly está disponível de forma gratuita na loja do Google e funciona com IBM Cloud Object Storage, IBM Watson Studio e IBM Watson Assistant 

 

 

ABMP: Como surgiu e funciona o Agrolly?

MN: A Agrolly surgiu após uma pesquisa de campo realizada com pequenos agricultores familiares da Mongólia. Lá, identificou-se a necessidades do uso de tecnologias no combate às mudanças climáticas e também no aumento da produtividade.
Por isso, projetamos a Agrolly, para apoiar e conectar pequenos agricultores em todo o mundo, mas particularmente em países emergentes, onde esses produtores estão experimentando uma redução na produção, devido às mudanças climáticas.

ABMP: Como o aplicativo se adapta ao levar informações personalizadas para famílias que vivem do plantio em diferentes partes do mundo? Os bots atuam na captura e organização dos dados gerados também?

MN: Com a Agrolly, o agricultor, de forma intuitiva, tem uma ajuda no planejamento, identificando quando e onde plantar, verificando mês a mês os riscos com temperatura e chuva. Combinamos as previsões do tempo com histórico da NASA e requerimento de cada cultivo, calculados com base na Organização para Alimentos e Agricultura das Nações Unidas.

A plataforma fornece informações personalizadas para cada agricultor por localização, tipo de cultura e estágio de crescimento. A solução visa preencher lacunas de informações para que os agricultores possam aprender uns com os outros, tomar decisões mais informadas, obter financiamento e melhorar seus resultados financeiros.

 

ABMP: A Agrolly tornou-se um aplicativo importante para o pequeno agricultor, mas parte da razão da sua existência se deve também aos impactos do aquecimento global e outras questões climáticas. De que forma, sob seu ponto de vista, o ser humano, organizações e governos podem trabalhar amenizando ou até revertendo a gravidade desta dualidade entre agricultura e emissão de gases e poluentes gerados pela atividade? 

MN: Trabalhando no projeto código aberto da Agrolly, estamos recrutando voluntários, juntamente com a Linux Foundation. Acredito muito no potencial do alinhamento da tecnologia com as maiores dificuldades que estamos vivendo, focado nos que mais precisam. 

Grande parte dos agricultores da nossa pesquisa de campo nos pediu auxílio com aspectos simples, como previsão do tempo acessível no idioma local. Em muitos casos, não há necessidade de inventar algo para impactar vidas, mas apenas modificar o foco das tecnologias já existentes. 

ABMP: A Universidade de Göttingen, na Alemanha, publicou um estudo com um alerta: a produção de alimentos vai crescer 80% até fim do século. Com essa informação, vem o indício que não teremos comida suficiente para as mais de 7 bilhões de pessoas ao redor do mundo. Qual o papel e importância dos produtores rurais nesta questão?

MN: Já estamos correndo este risco atualmente, quando você analisa as estatísticas. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), 80% dos alimentos produzidos no mundo vêm da agricultura familiar. E, se pensarmos, esses agricultores são os que possuem menor tecnologia à disposição.

Nos países desenvolvidos, mesmo com toda tecnologia disponível, os agricultores chegam a perder quase 17% de rendimento, devido às mudanças climáticas.

Por isso, a Agrolly acredita que o futuro está na disponibilização de recursos e conhecimento para os pequenos agricultores. Nossa missão no futuro é possibilitar a esses agricultores menores taxas de financiamento, para melhor planejamento e gestão de riscos, provendo assim uma melhor condição de vida a estas famílias.

 

ABMP: Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: Educação 2019, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil ainda tem cerca de 11 milhões de analfabetos. A Agrolly atende produtores rurais que, infelizmente, estão nessa estatística. Como vocês estão tentando se conectar ao indivíduo que precisa da ferramenta, mas tem acesso limitado à tecnologia e dificuldades para interpretar as informações?

MN: A Agrolly visa criar um ecossistema de agricultores, conectando e ajudando nas suas necessidades de plantio e financiamento, realmente modificando o cenário econômicos desses agricultores. Identificamos na Mongólia agricultores com dificuldades de acesso à internet, e-mails ou conhecimento agrícola. Por isso, estamos visitando os pequenos agricultores e fazendo contato pessoal, em pequenos grupos ou em casa, quando esses não conseguem se locomover. Atualmente, temos recursos limitados de instrutores, mas visamos criar um pool de cooperação nos próximos meses e iniciar o mesmo trabalho aqui no Brasil com pilotos no Paraná e na Bahia.

 

ABMP: Teremos a honra da sua presença no Scream 2020, terceira edição do maior festival de criatividade do Nordeste. Já pode dar uma palhinha do que não vai faltar na sua palestra? 

MN: Estou muito feliz de estar participando desse evento tão importante para o nosso Nordeste. Sem dúvida, não vai faltar alegria, paixão e histórias. Umas das maiores dificuldades da população é, sem dúvida, a execução. O brasileiro é muito criativo e tem muitos sonhos, porém, o processo de colocar o sonho no papel é a transformação desta realidade.

 

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