Entrevista: Nizan Guanaes – Fundador do Grupo ABC

“O digital acaba com essa história de regional, local. Eu acho que o baiano é muito criativo. Nós temos isso a nosso favor, talvez fosse o caso de começar a fazer serviços nacionais, com remuneração nacional, localizados na Bahia, através do digital”.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               

Fundador do Grupo ABC e Embaixador da Boa Vontade da UNESCO, Nizan Guanaes foi nomeado um dos cinco brasileiros mais influentes do mundo pelo Financial Times e uma das 100 pessoas mais criativas nos negócios, segundo a revista Fast Company. Em 2013, foi apontado pela revista Exame como um dos 16 empreendedores brasileiros candidatos a fazer história. Em 2014, foi eleito pelo terceiro ano o publicitário de maior credibilidade do país, segundo a revista Seleções e o Ibope; apontado como Man of The Year, na categoria Liderança, pela publicação GQ e considerado um dos líderes de melhor reputação do Brasil pela Exame. Nos últimos dez anos, Guanaes lidera o ranking de publicitários mais admirados pelos anunciantes, de acordo com a pesquisa Agency Scope by Scopen.

 

ABMP: Você voltou para a DM9DDB em clima de renovação e inovação. Qual é a sua avaliação sobre o cenário atual da Publicidade e Propaganda em geral no Brasil? Hora de dar uma mexida também?

N.G: A DM9 teve um ano brilhante e um ano atípico. O mercado foi bem, não foi mal, melhorou. Vou salientar que,  das seis cotas do Grupo ABC do futebol global, cinco foram vendidas. São duas coisas diferentes: a DM9 teve uma performance muito boa, de um “turn around” enorme. Eu fiquei focado aqui dentro, chegando às oito da manhã, saindo tarde da noite, almoçando na empresa e tal. A outra coisa é o atual cenário da publicidade brasileira. O mercado também precisa, como a DM9, de uma boa chacoalhada. Aí tem duas variáveis importantes: uma é a crise que, agora, do ponto de vista econômico, já está ficando para trás. Temos uma crise política, a crise econômica já foi vencida. É preciso haver uma grande transformação, do ponto de vista da matriz, do modelo de negócio, uma mudança de tecnologia. Porque antes você tinha um mercado centrado nos veículos tradicionais que ainda são muito fortes hoje em dia.

O Brasil é um país televisivo e você tem o digital que é cada vez maior. Só que a remuneração dele (digital) não é uma remuneração madura. Os anunciantes falam muito que querem um digital, mas não estão dispostos a pagar por ele e não tem “free lance”. Só vamos conseguir  atrair gente boa para o digital na hora que você tiver dinheiro para remunerar essas pessoas. Eu acho o seguinte: no mundo inteiro, o mercado está em transformação. Eu sinto que a Publicidade e a Propaganda no Brasil ainda têm um grande caminho pela frente. Não é um caminho claro, porque no mundo os caminhos estão sendo questionados, são novos caminhos.

 

ABMP: Por quais caminhos enxerga mais oportunidades, mídias já consagradas ou as que estão surgindo e se consolidando?

N.G: Ambos. Eu acho que ainda tem muita coisa nova para se fazer em televisão, muita coisa na televisão, jornal, rádio, ortofon. Quer mídia mais antiga que mídia ortofon? E foi a mídia que mais cresceu porque ela se digitalizou. Então, eu acho que o digital vai trazer grandes oportunidades para todas as mídias. A única coisa é não ser tradicional nas mídias tradicionais. É só isso.

 

ABMP: Ano que vem,  otimista com as perspectivas de crescimento econômico no Brasil?

N.G: Crescimento econômico, sim. O que é preciso ter é um sopro novo do panorama político. O Brasil está exausto de crise, de más notícias, então, ele está precisando de uma brisa do ponto de vista de esperança.

 

ABMP: Agora falando da nossa terra, em artigo para a Folha de São Paulo, no início do ano, você elogiou o renascimento da Rua Chile, no Centro de Salvador, citando a reforma e investimento no Hotel Palace, atual Fera Palace. E diz “o que acontece em Salvador, não fica em Salvador” e que “o futuro da cidade está em seu passado”. Qual a sua opinião sobre os caminhos que a cidade está tomando?

N.G: 
Salvador tem dado um salto nos últimos anos com a atual administração municipal, que eu acho ser muito importante e está se solidificando com isso. Isso faz com que a cidade se reafirme como destino turístico. Nós precisamos, realmente, resolver os problemas do centro de convenções, mas eu acho que a gente vive um novo momento do cenário da cidade.

 

ABMP: Quanto ao mercado de Publicidade e Propaganda baiana atualmente, qual a sua percepção no páreo com outras grandes praças no país?

N.G: O mercado baiano nunca foi um grande mercado no ponto de vista de faturamento publicitário, nunca foi. Qualquer pessoa que lida sabe: é um mercado regional. A crise é nacional, mas a falta de verba é regional e, se a crise é dura, ela ainda é mais dura no mercado regional. Então, nós ainda estamos dentro desse cenário.

 

ABMP: O que o baiano tem a favor da reinvenção? Precisa de algo mais?

N.G: O digital acaba com essa história de regional, local. Eu acho que o baiano é muito criativo. Nós temos isso a nosso favor, talvez fosse o caso de começar a fazer serviços nacionais, com remuneração nacional, localizados na Bahia, através do digital.

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