Entrevista: Sérgio Gordilho – Copresidente e CCO da Africa

jul/2020

” Acredito que nunca a criatividade foi tão necessária, tanto para as marcas, quanto para as pessoas. Ninguém pode ficar em cima do muro, pois cada um de nós será cobrado quando tudo isso acabar. Mas para não ficar nessa posição, temos que saber o que falar, quando falar e como falar. Aí entra a publicidade, um dos pilares da criatividade”                                                                                                                                                                    

                                                                                                                                                                          

 

 

Um dos publicitários brasileiros mais premiados em todo o mundo e considerado pela Adweek um dos 13 líderes criativos globais mais importantes, Sergio Gordilho é a mente criativa por trás da Africa, uma das dez agências mais criativas do planeta, segundo a Contagious, bíblia mundial da criatividade e inovação. Neste bate-papo, o criativo relembra a trajetória, fala de campanhas, experiência na arquitetura, além de vislumbrar o futuro da publicidade e mercado de trabalho.

 

 

ABMP: Pra começar, um fato curioso que chama atenção é sua formação. Como um arquiteto chegou à publicidade?

SG: Se não tivesse estudado arquitetura, talvez não pudesse sonhar com o lugar que ainda quero chegar. Foi a arquitetura que me deu a régua e o compasso necessário para conseguir destaque na publicidade. Essa é a mais pura verdade.Sou filho e neto de arquitetos. Meu avô, inclusive, foi um dos fundadores e o primeiro diretor da faculdade de arquitetura da Bahia.

Praticamente, fui criado entre pranchetas e com as mãos sujas de nanquim. Tenho muito orgulho da descendência e da ascendência dessa maravilhosa profissão na minha formação. Arquitetura é uma das profissões mais completas e alinhadas com essa nova indústria criativa que já bate à nossa porta, pois o arquiteto tem os olhos curiosos, ouvidos atentos, cabeça nas nuvens, além de um apreço imenso pela estética e uma lábia respeitável. Ou seja, um bom arquiteto já é um grande publicitário por natureza. Ou você não acha que David Bastos, Ivan Smarcevscki, Fernando Peixoto, Nuno Rodrigues, Cássio Santana, Gabriela viveiros e Sydnei Quintela não seriam premiadíssimos publicitários se quisessem?

ABMP: Hoje você preside a Agência Africa, considerada uma das maiores do Brasil. Sabemos que alcançar esse status não é para qualquer um, não é? Ao que você atribui o sucesso e relevância do trabalho realizado? Quais os segredos dessa jornada?

SG: Não me apresentaram ainda outra fórmula para chegar ao sucesso que não passe por foco, suor, resiliência, sorte e uma certa quantidade de talento. Nem herdeiro, sem esses ingredientes, está tendo vida fácil. Agora, se você nasceu na Bahia e trabalha na indústria criativa, o assunto muda de dimensão.

Nossa terra é o berço da criatividade, está no nosso DNA, na água e no ar que respiramos. Criatividade aqui não depende de credo, gênero, raça ou se você é de Oxum. Criatividade na Bahia é um mindset, é uma força da natureza, e não é privilégio de quem vive no corredor da Vitória, nem nas ladeiras do Pelourinho, quando o baiano se permite ser criativo é fora da curva e ponto, pois a criatividade depende da permissividade que cada um se dá para exercê-la. Ser criativo é às vezes se vestir de bobo. A criatividade é o único antídoto para evitar a comoditização de muitos produtos e marcas. Acredite nela, você não vai se arrepender, pois, para se criar valor, tem que dar valor à criatividade. 

 

ABMP: Você é contemporâneo de uma geração baiana que marcou época na publicidade, como Duda Mendonça e Nizan Guanaes, pessoas que alavancaram o patamar do mercado publicitário na Bahia. Comente os aspectos e cases dessa turma que tanto influenciaram os profissionais mais novos que estão atuando. 

SG: Publicitário baiano no Brasil é que nem jogador de futebol brasileiro na Europa, vale ouro. A construção dessa reputação tem nome e sobrenome. Ou melhor, três: Nizan Guanaes, Duda Mendonça e incluo o Sérgio Amado nessa lista. São as figuras mais importantes da publicidade baiana de todos os tempos. E ponto.

Cada um na sua área e com seu talento, construíram a fama da publicidade que saiu da Bahia e conquistou o Brasil e o mundo. Todos os outros que vieram depois, inclusive eu, deitamos nessa cama.

Obvio que não dá para negar a importância do genial Fernando Barros, do visionário Rodrigo Sá Menezes, dos brilhantes Fernando Passos, Fernando Carvalho, Geraldo Walter e tantos outros, mas o mérito desse trio “Yes, We Can” foi ter levado a publicidade feita por baianos para não baianos, e até não brasileiros.

Antes deles, pensando no cenário da publicidade baiana como referência nacional e global, tudo era mato. Duda e Amado abriram o caminho, foram os percussores, os que primeiro botaram a cabeça para fora, que nos apresentaram Cannes, Washington Olivetto e um monte de gente boa e lugar bacana. Aí veio o Nizan, que não tem medo de nada, apenas da sua maravilhosa esposa Donata, e colocou a publicidade baiana como referência global.

Devemos a Nizan, a construção da nossa autoestima criativa. Simples assim. Depois por essa estrada passaram novos bandeirantes como Sérgio Valente, Ricardo Braga, Andrea Siqueira, Gustavo Sarquis, Mariana Sá, Moacyr Maciel, Marcelo Kertész, Claudio Carvalho, Gustavo Queiroz e tantos outros talentos que fincaram a bandeira baiana mundo a fora.

 

ABMP: Estamos em meados de 2020 e vivendo no meio de uma pandemia. Todos foram pegos de surpresa e estamos aprendendo a viver no “novo normal”. Como você lidou, profissionalmente e pessoalmente, com a chegada do vírus? Cite os aprendizados, as dificuldades e os maiores desafios que o novo coronavírus trouxe.

SG: O primeiro sentimento foi de negação. Negar que tudo isso poderia mexer profundamente com a minha vida e a minha agência. Fui buscar na meditação, no esporte e na religião um pouco de paz para essa caminhada, pois o tempo é o senhor da razão. E foi dando esse tempo que me adaptei à nova realidade.

O mundo pertence a quem melhor se adapta a suas mudanças, pois a natureza do mundo é mudar. E temos que mudar com ele. Muitos preconceitos que tinha sobre relações do trabalho e como manter a cultura forte à distância foram levados pela enxurrada. Não estávamos preparados para nada disso. Batemos muita cabeça e gastamos muita sola da nossa sandália.

Mas, enfim, estamos chegando a um resultado muito bom. Entendemos que o trabalho à distância veio para ficar. As reuniões por teams, zoom e outras plataformas otimizaram as nossas horas e a necessidade de protocolos é inevitável para criar o balanço entre tarefas domésticas e profissionais. O compromisso em apoiar os colaboradores é fundamental.

Estamos saindo mais fortes e menos vítimas.

 

ABMP: Focando na publicidade, como ficará o setor pós-pandemia? O que terá de ser ressignificado e qual tendência pode surgir nos próximos meses?

SG: Ainda é muito cedo para fazer previsões. Tanto para minha indústria, como para qualquer outra. Em um mundo com tantas fakes e poucas news, é obvio que um mar de dúvidas encoberte o sol das certezas. Então, coloco aqui o que ainda não sei, mas o que acredito:

Acredito que nunca a criatividade foi tão necessária, tanto para as marcas, quanto para as pessoas. Ninguém pode ficar em cima do muro, pois cada um de nós será cobrado quando tudo isso acabar. Mas para não ficar nessa posição, temos que saber o que falar, quando falar e como falar. Aí entra a publicidade, um dos pilares da criatividade.

Fazer o certo e só depois fazer o storytelling certo é publicidade pura. Aí, onde criamos nossa fama global, é exatamente onde podemos fazer a diferença.

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