Entrevista: Viviane Brito – CEO do Villa Campus de Educação

jun/2020

” O mundo vive uma realidade digital, e o uso da tecnologia deve servir ao desenvolvimento humano. Dominar as ferramentas tecnológicas significa a possibilidade de uso de soluções que facilitem as interações pessoais, comunicacionais e técnicas, além da aprendizagem contínua e autônoma.”                                                                                                                                                                    

                                                                                                                                                                          

 

 

Viviane Brito é CEO do Villa Campus de Educação, que completou 18 anos em 2020. Neste bate-papo, a gestora explica como o colégio vem conduzindo a gestão administrativa e acadêmica durante a pandemia do novo coronavírus, além de refletir sobre o uso da tecnologia no processo de ensino e os impactos da nova rotina na vida dos pais e alunos.

 

 

ABMP: A pandemia deu sinais de que chegaria no Brasil meses antes. Como todo o segmento escolar estava se preparando para esse cenário? Houve essa construção prévia?

VB: Desde fevereiro já havia sinais que o vírus estava em circulação, entretanto não houve nenhum comunicado efetivo, nada que alertasse as escolas para uma possível pandemia. Basta relembrarmos que os festejos do Carnaval transcorreram normalmente em todo o país, sem que as autoridades disparassem informações em torno de precauções ou prevenção. O fato é que após o feriado de Carnaval surgiu um primeiro caso no Brasil e, na sequência, as escolas privadas identificaram a contaminação de alunos que estiveram no exterior durante os festejos. Com o anúncio da pandemia pela OMS, mesmo antes das autoridades anunciarem medidas para suspensão das aulas nas redes públicas, os mantenedores de escolas privadas nas quais havia casos decidiram suspender as atividades presenciais. Ocorreu então o efeito dominó e, rapidamente, as instituições privadas suspenderam atividades.

Foi uma ruptura inesperada para todos. Nessas circunstâncias, as escolas que já possuíam recursos tecnológicos e os utilizavam habitualmente conseguiram, de forma rápida, iniciar as atividades remotas. No caso do Villa, toda a área da gestão administrativo-financeira e acadêmica já operava com uso dos recursos digitais e não sofreu problema efetivo, uma vez que, desde 2018, veio digitalizando e sistematizando seus planejamentos pedagógicos com o uso da tecnologia. Dessa forma, a construção das aulas, reuniões, formação dos colaboradores e planejamentos foram colocados a serviço da nova modalidade de ensino com presteza e segurança. Numa visão preditiva, a direção promoveu em 2019 mais uma semana de imersão para um alinhamento em tecnologia com os membros de sua equipe diretiva, visando ao aprimoramento da cultura digital. Para essa imersão, foram convidados profissionais da área do uso de tecnologias em educação. Assim, embora a situação tenha sido impactante, o Villa possuía as ferramentas e os recursos humanos para enfrentar a situação de modo focado, seguro e organizado. 

ABMP: O fechamento das escolas trouxe a necessidade quase que imediata de adaptar os métodos, conteúdos e calendário pedagógicos. Quais foram os maiores desafios nesse processo para o Villa?

VB: O fator preponderante para o enfrentamento da ruptura foi a mobilização rápida e sinérgica da alta direção na instalação de um gabinete de crise, gerando um plano estratégico e sistêmico com prioridades claras: atenção permanente ao estado emocional dos colaboradores – em especial dos professores,  das famílias e alunos; agilidade na tomada de decisões e na efetivação dos ajustes que se fizerem necessários aos novos planos e rotinas estabelecidas para este período; o apoio técnico aos professores, sem interrupção das sessões de formação em serviço e continuada, aliadas  aos atendimentos individuais e às ações motivacionais; comunicação clara, transparente e ininterrupta  com toda a comunidade educativa.

O nosso maior desafio foi lidar com a insegurança natural das famílias que se viram com os filhos em casa, diante de uma nova e desafiadora modalidade de ensino. A comunicação clara, os esclarecimentos contínuos e a interlocução permanente da escola com as famílias garantiram a gradativa confiança nas aulas mediadas pela tecnologia e na produtividade dos alunos. Hoje os pais são parceiros importantíssimos nesse trabalho colaborativo.

 

ABMP: Professores – pelo menos a maioria – não são youtubers, videomakers ou blogueiros acostumados com a câmera, mas muitos estão despontando com vídeos criativos e canais. Houve tempo hábil para capacitá-los para este mundo de conteúdos on-line?

VB: Certamente há distintas habilidades dos profissionais frente aos desafios da diversidade das mídias. Entretanto, o comprometimento dos professores foi fundamental para que superassem a inibição e a insegurança natural diante da nova situação. Apoiados pela Direção, fortalecidos com a supervisão da equipe técnica e desafiados a apresentar aulas de qualidade com o uso da tecnologia, esses profissionais superaram os primeiros momentos que, sem dúvida, foram os mais difíceis. Há outro fator nessa superação que é preciso destacar: nossos professores possuem repertório competente de técnicas pedagógicas para garantir intervenções didáticas eficazes e, nem todas dependentes do enfrentamento da aula síncrona on-line. Ou seja, o manejo das aulas não dependeu de uma solução apenas, mas serviu-se de várias possibilidades que o professor utilizou, de acordo com os objetivos da aula e suas habilidades pessoais. Foi um momento privilegiado, para que os nossos docentes colocassem à prova “seus instrumentos de bordo”, como afirma Perrenoud. As fronteiras da escola foram abertas e a sala de aula foi para a casa de todos os alunos. Essa geração de profissionais vive um novo ciclo da educação, talvez tão impactante quanto o momento em que as escolas se disseminaram para alfabetizar o povo, para formar trabalhadores letrados na revolução industrial.

 

ABMP: Por que é necessário manter a rotina de atividades em casa se as escolas vão repor depois e as crianças, praticamente, não terão férias ou feriados?

VB: Primeiramente, é importante manter o vínculo afetivo e social com as crianças e jovens. A escola é muito mais do que o locus onde se dissemina o conhecimento factual, conceitual, fórmulas e datas. A escola é o lugar onde os alunos tornam seus pensamentos visíveis ao produzirem seus trabalhos; é o lugar onde se reconhecem como pessoas pelo exercício da alteridade, empatia e do trabalho colaborativo. Por ser mais que um lugar de erudição acadêmica, a escola veicula valores, propõe reflexões, desenvolve competências e habilidades. A escola é mais do que um lugar físico, é um processo de autodesenvolvimento, mediado pelos professores, que agrega os interesses e os combinados de suas salas de aula. Além disso, ela é um espaço de pertencimento a ser preservado, até para que a volta às aulas presenciais seja produtiva.

Neste período, foram exaradas diversas normativas nos âmbitos federal, estadual e municipal com recomendações e orientações quanto à modalidade não presencial para as diferentes redes de ensino, que optaram com liberdade pelo formato das aulas, de acordo com os recursos disponíveis. Em permanente diagnóstico dos resultados dos alunos, cada escola fará seu plano de retorno à modalidade presencial quando iniciar a reposição de conteúdos, se necessário. Aquelas que conseguirem atingir processos eficientes no desenvolvimento curricular e elaborarem registros competentes de seus resultados terão as atividades escolares validadas. As escolas que cumprirem efetivamente o número de horas necessárias para as atividades escolares farão seus arranjos de calendário e determinarão também o período de férias. Portanto, flexibilidade de datas e mudança de modalidade das aulas não significam menor exigência ou exclusão de conteúdos acadêmicos importantes.

A equipe pedagógica e diretiva do Villa tem em andamento o plano de volta às aulas com estratégias para diagnóstico das eventuais necessidades da reorganização curricular e o retorno tranquilo às aulas presenciais. Estão em foco também os cuidados necessários que irão garantir a segurança sanitária e a previsão de técnicas de acolhimento para criar um ambiente feliz no retorno.

 

ABMP: A gente vê muito meme sobre home schooling, pois houve relatos hilários de pais desesperados com os filhos em casa. Como tem sido a aceitação das famílias e alunos neste momento de ajustes?

VB: Certamente todos os educadores compreendem as dificuldades que os pais estão enfrentando e são solidários com as famílias de seus alunos. É compreensível o desafio no acompanhamento de tarefas, na manutenção das rotinas da casa, na necessidade de dividir os tempos de atendimento aos filhos com o desempenho de tarefas profissionais, muitas vezes em espaços que não privilegiam a privacidade necessária. Há outro desafio, porém, que é o manejo das tecnologias na perspectiva das tarefas escolares e o desconhecimento das práticas pedagógicas envolvidas nesse percurso. Os pais, em sua maioria, não são professores e a mediação das atividades passa não só pelo domínio das ferramentas, como também por outras habilidades de intervenção didática. Além dessa questão, pesa o fato de que algumas famílias não conhecem a efetividade das aulas remotas, considerando-as como de menor qualidade, seja porque culturalmente reconhecem valor nas presenciais que fazem parte de seus próprios repertórios, seja porque as identificam como experiências de cursos profissionalizantes de pouca qualidade.

Entretanto, felizmente, passados os momentos iniciais de insegurança e surpresa, os pais foram se associando ao trabalho, por entenderem, com ajuda da escola, a sua tarefa mediadora e insubstituível. Atualmente, desenvolve-se um trabalho colaborativo, constantemente subsidiado pelos professores, no sentido de garantir aos alunos um percurso tranquilo de aprendizagem. Por outro lado, o desenvolvimento do currículo é realizado com transparência e monitorado pela equipe pedagógica que supre, quando necessário, as eventuais necessidades de revisão de conteúdos, com atividades complementares e/ou diversificação de abordagens. Os pais acompanham as propostas realizadas nas aulas e dão feedback para que os professores aprimorem, ajustem ou retomem questões do planejamento.  

 

ABMP: Na sua opinião, as aulas on-line podem ser incorporadas à grade de ensino das escolas nos próximos anos? Um aluno que ficar em casa por doença, por exemplo, poderá ter acesso depois às aulas passadas?

VB: Atualmente há instituições que, independentemente da pandemia, garantem aos alunos com problemas de saúde, por exemplo, processos dessa natureza. Desde classes hospitalares até aplicação de provas em domicílio para estudantes acamados são assegurados, desde que cumpridos os protocolos necessários. O que temos de diferente, na atual situação, é que as escolas podem agilizar recursos de tecnologia para cumprir essa e outras finalidades. De qualquer forma, com certeza, as escolas no Brasil e nos outros países irão agregar o uso das tecnologias aos processos de ensino, aproveitando a experiência deste período.

O mundo vive uma realidade digital, e o uso da tecnologia deve servir ao desenvolvimento humano. Dominar as ferramentas tecnológicas significa a possibilidade de uso de soluções que facilitem as interações pessoais, comunicacionais e técnicas, além da aprendizagem contínua e autônoma. Este período trouxe a oportunidade para que os alunos exercitassem a autonomia, a curiosidade intelectual na exploração das ferramentas, o desenvolvimento da fluência digital e a manutenção de uma disciplina de trabalho em condições inesperadas, ou seja, um desafio para a resiliência junto com os pais. Finalmente, o futuro próximo, ainda incerto, pode requisitar durante um bom tempo o uso intenso dos recursos digitais e, nesse sentido, precisamos estar preparados para o enfrentamento necessário de desafios ainda não previstos.

 

ABMP: Qual é o lado positivo e negativo para as crianças? Com o que os pais devem ficar mais atentos?

VB: Um dos aspectos positivos do uso das aulas mediadas pela tecnologia é o desenvolvimento da autonomia. Os alunos precisam buscar, ajustar e analisar os caminhos e soluções que encontram para resolver as propostas dos professores. E isso é feito com ferramentas usadas, anteriormente, só para comunicação e entretenimento. Ou seja, os alunos aprenderam a usar a tecnologia como ferramenta do trabalho escolar. Os pais podem reforçar esse uso e sua importância, mostrando que esses procedimentos de trabalho são os usados no mundo do trabalho. Outro fator significativo é que o uso das tecnologias coloca os alunos em contato com a diversidade das mídias, o que sabemos ser importante.

O cuidado dos pais é com o reforço do uso ético e seguro, orientado pela escola e que é objeto, também, de programas e trabalhos de instituições no Brasil e no exterior. O Villa pauta e embasa suas ações, portanto, em estudos e experiências valiosas que norteiam recomendações e planos de trabalho de instituições educacionais reconhecidas internacionalmente, nutridas pelas Ciências da Educação e da Tecnologia.

 

ABMP: Como controlar o tempo de eletrônicos das crianças? Antes as mães viviam tentando controlar, agora, elas são obrigadas a usar para estudar. Como manter o equilíbrio?

VB: Trata-se de clareza e disciplina num processo dialógico. Os pais precisam passar para os filhos que há contingências neste momento e que é necessário nos adaptarmos para reconduzir nossas vidas e atividades produtivas. E um dos recursos é a tecnologia. O tempo saudável de atividades escolares mediadas por tecnologia e seu tempo de uso para entretenimento devem estar sob a supervisão das famílias, dosando conforme a faixa etária e mesclando com atividades físicas e recreativas de outra natureza.

A sobrevivência depende da adaptação e, neste momento, somos chamados a assumir diferentes modos de agir, produzir e orientar nossos percursos. Portanto, clareza e disciplina são necessárias para percorrermos esse trajeto. Não há receitas. Há o cuidado da família com a individualidade dos filhos. Há expertise da escola para gerir a diversidade dos alunos, empregando um olhar diferenciado para as características de cada faixa etária. Mas, sobretudo, há compreensão de que este é um momento divisor de águas para a humanidade no qual todos têm que aprender muitas coisas novas. Talvez as palavras de superação, neste momento, sejam solidariedade, compreensão e perseverança somadas à lucidez de um brasileiro genial: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem!” (Guimarães Rosa).

 

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