Era dos haters

mar/2018

O termo hater, de origem inglesa, quer dizer os que odeiam ou odiadores, remete ao mundo da internet e é usado para classificar os truculentos cyber bullying, os ataques agressivos nas mídias sociais. O hater ataca sua vítima por meio de declarações hostis e por causa de seus pontos de vista contrários. De nada adianta argumentar: o militante do ódio despreza a razão, o processamento lógico das ideias, a argumentação. Seus pareceres já vêm prontos e ele parte para o ataque cheio de certezas, crenças e emoções.

Identificado seu alvo, o passo seguinte é a rotulação. Entra em campo um velho mecanismo psicológico de generalização: o sujeito alvejado passa a ser tratado como todas as pessoas do universo que defendem tais pontos de vista e são, portanto, potenciais ameaças ao seu grupo de referência e, alternativa 1, ou aceitam a catequese e se convertem ou, alternativa 2, são desmascarados e destruídos. Quanto mais odeiam e atacam os de fora de sua patota, mais sucumbem a uma ilusão de homogeneidade e coesão entre os integrantes de seu grupo de crença, recorda a Psicologia Social. Os haters de repente passam a compartilhar da certeza de que, por terem todos os mesmos alvos, são unidos e coesos.

Os ataques podem ficar mais graves, os haters podem vir a ameaçar publicar notícias desabonadoras sobre a vítima, ainda mais se esta tem presença na mídia, expor sua imagem em situações comprometedoras, lançar calúnias e prejudicar sua reputação e gerar perda de prestígio social.

A mídia na era global escancarou o amplo espaço das ágoras digitais onde se multiplicam os velhos ódios dos haters e onde se praticam tais ataques movidos pelos sentimentos tóxicos misturados com crenças e fanatismos.

Cidadãos romanos, há dois mil anos, costumavam distinguir fanos de templum. Templum era um lugar de culto coletivo e práticas religiosas oficiais, onde se celebravam ritos e liturgias, que respeitavam as etapas do cerimonial.  Ao contrário, nos cultos em fanos se cultivava os excessos e se disseminava o desprezo à razão. Suas celebrações eram movidas pelo consumo de substâncias estimulantes e se apostava no prazer da catarse psicológica. Nos rituais profanos os devotos se excediam e eram arrebatados pelos efeitos do vinho e outras substâncias – e perdiam a razão. O problema era quando os fiéis de fanos – os fanáticos – perturbavam os rituais dos templos com sua ação de profanação. Ridicularizar a ordem e a estrutura dos ritos sagrados dos templos, impor sua crença nos locais onde os outros celebram seus rituais nos remetem aos  haters de hoje e ao desprezo ao diálogo e à razão.

Os haters, enquanto fundamentalistas e radicais, reproduzem a velha prática do proselitismo religioso com seu empenho de tentar converter uma ou várias pessoas em prol de sua causa, ideologia, crença religiosa ou Messias de plantão. Há sites e grupos ideológicos que atraem e seduzem novos prosélitos ou seguidores para sua ideologia, religião, doutrina, filosofia ou grupo dissidente de uma associação científica sem apelar para as técnicas de persuasão antiéticas e  agressivas. Mas não é assim que se dissemina no universo dos haters. O que mais se constata na web são formas de catequese e proselitismo que usam da mentira acompanhada de um corrosivo kit de discriminação.

O fanatismo dos haters encontrou um terreno profícuo no ambiente das mídias digitais. Seu alvo predileto é a profanação do diálogo, do debate, da conversa, das discussões, da possibilidade de existência de comunicação na divergência. Intolerância é sua impressão digital.

Invadem as postagens com uma inexplicável missão religiosa de catequese e conversão. Derrubar a crença alheia, demonstrar que seu deus, doutrina, crença, cultura, valores, etc., são manifestações absolutas da verdade verdadeira –  e que tudo o mais vá para o inferno.

hater fanático deixa um rastro fácil de reconhecer. Sua limitação intelectual e um espectro estreito de ideias que se resumem em ou isto ou aquilo. E não contextualizam nada. E, principalmente, é um cego leal ao núcleo do fundamento de uma crença que o obriga a abominar a qualquer interpretação. Em nome do fundamento, os fanáticos e radicais não aceitam matizes e interpretação. Profanam a arte do diálogo e da argumentação, nada escutam do outro e não levam a alteridade em consideração.

hater fundamentalista, militante do ódio de plantão, é fiel ao texto sagrado da cartilha de seu partido e grupo e somente reverencia presunçosamente a palavra do seu Messias. Cultua o pé da letra, paralisa o sentido da palavra e não permite que ela possa saltar, transcender e dançar. Em síntese, qualquer hermenêutica o atordoa. Pelo amor ao pé da letra hostiliza suas vítimas na web com uma mente similar aos dos outros que explodem bombas nas praças, derrubam aviões, massacram hospitais e executam lideranças políticas com tiros no coração.

Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.

Mais artigos

O toque de Midas

Midas, o rei da Frígia, foi um monarca que gozava da fama de ser então o homem mais rico do mundo. No salão dos tesouros do seu palácio acumulava arcas e arcas empanturradas de moedas e barras de ouro, prata, joias e pedras preciosas. Talvez Walt Disney tenha se...

ler mais

Próximo de propósito

Cada vez mais a conexão emocional às marcas tem emergido nas pesquisas como um elemento determinante no processo decisório. Se antigamente a identidade das marcas era basicamente construída a partir de uma mensagem emitida ao consumidor, hoje uma marca precisa se...

ler mais

A infantilização da fé e do sagrado

Nos anos 70, muitos jovens frequentavam o Mosteiro de São Bento da Bahia, um espaço privilegiado de espiritualidade cristã e intensa experiência cultural. Lembro de uma surpreendente jornada de cinema de arte promovida por Dom Bernardo, um monge beneditino com mente...

ler mais

Três aniversariantes

É hora de ascender as velhinhas e comemorar. Três importantes veículos de comunicação da terra comemoram este ano marcos cronológicos de sua fundação: Correio *, TV Aratu e Tribuna da Bahia. O Correio* que nasceu Correio da Bahia, em 15/01/1979, já festeja os seus 40...

ler mais

Comemorações Institucionais: 470 anos a serviço do bem

De acordo com dados do Sebrae divulgados no fim do ano passado, o percentual de sobrevivência de empresas no Brasil é preocupante. A cada quatro abertas, uma fecha antes de completar dois anos de existência no mercado. Estes 25% representam não apenas o momento atual,...

ler mais

Janeiro, fevereiro e março

Janeiro foi um mês consagrado ao Deus Janus, daí a sua denominação, divindade das portas e dos portões, é clara a simbologia da porta que abre um novo ciclo. A sua representação iconográfica era curiosa: um Deus olhando para frente e para trás, para o futuro (o ano...

ler mais

junte-se ao mercado