Espiritualidade e competição no mundo corporativo

fev/2019

Recentemente, no centro espírita, vivi experiências que me levaram a refletir sobre como nossos espaços vão sendo estabelecidos na dinâmica das relações do mundo corporativo.

Aos que não sabem, é práxis, ao fim da doutrinária, a distribuição de copinhos d’água fluidificados aos participantes. É um momento importante para todos os que buscam ajuda ali.

Cena1

Algumas pessoas afoitas perseguem seus copinhos, receosas de não serem em números suficientes e não os receberem.

“Cada um por si e Deus por todos” – olhos competitivos confessam.

Observo a cena e lembro-me que semanas antes era eu a fazer mirabolantes projeções matemáticas, tentando antever se os copinhos seriam suficientes. Depois de algumas idas e de ver que os copinhos chegavam para todos, me convenço que bastaria esperar e que a minha vez chegaria.

“O que é do homem o bicho não come” – pragmaticamente, entendi.

Fazendo uma analogia simples com o mundo do trabalho, hoje entendo que gastar energia contando copinhos é o mesmo que acreditar que seremos “o escolhido” em uma vaga muito disputada, se ao invés de 100 tivermos 70 concorrentes. Obviamente não serão esses “menos 30” que mudarão o resultado. Contar copinhos é desperdiçar preciosa energia e nos desviar do essencial: o nosso preparo.

 

Cena2

Vejo o salão muito cheio e volto a me inquietar diante da possibilidade de ficar sem a água.

“Calma. Tudo chega na hora certa”, penso.

E me acautelo: “Se estivermos preparados no momento em que a hora chegar” – e volto assim à concentração.

Como em muitos momentos na vida, sentir-se preparado é fruto de uma atitude perante a vida contínua e perpassa por valer-se do melhor em nós – o que exige clareza de desígnios, dedicação e um tanto de crença de que da vida obtêm-se o merecido. Se sentir assim, traz uma serenidade e confiança que muitos chamariam de “paz de espírito”. Eu chamo também de consciência em paz – o que muito me ajudou em todas às vezes na vida em que fui a escolhida e, principalmente, nas quais não fui.

 

Cena3

Do fundo do salão vejo a bandeja se aproximar com 3 copinhos, mas somos 4 pessoas a esperarem sua vez. Em algum outro momento da vida, talvez me adiantasse para garantir o meu. Mas instintivamente recuo, de modo que a equação insolúvel não causasse constrangimentos.

“Não era para ser meu.” – penso.

Em seguida, me ocorre também que provavelmente aquelas pessoas necessitavam mais do que eu daquela água e que o acontecimento teve o seu fluxo correto.

“Deus sabe o que faz” – confio absolutamente tranquila e convencida.

E me preparo para voltar para casa, constatando que o que tanto já tinha me preocupado, naquele momento, já não tinha a menor importância. Estava inteira, íntegra e certa de que não é “o outro” que nos dá ou tira nada. Nem a paz, nem a vaga, muito menos o cliente.

 

Cena4

“Espera! Vimos que ficou sem água.” – alguém grita lá de dentro quando já estava para sair do salão.

“Não tem problema”, respondo.

“Temos garrafas separadas aos médiuns. Gostaríamos que levasse uma. É uma água especial.”

“Mas não sou médium”, digo.

“Mas é merecedora.” – retruca.

Segura do meu espaço no mundo e do quanto esse espaço está relacionado às minhas próprias atitudes, me retiro fortalecida e um tanto emocionada. Finalmente entendo que a real entrega à verdade que carregamos dentro de nós e ao que nos propomos fazer, aliada à verdade dos nossos propósitos definem nosso lugar ao sol. É um pacto da gente, com o melhor da gente e nada tem a ver com disputar com as outras pessoas.

Ainda que no mercado de trabalho a competição de pessoas por vagas e de empresas por clientes, sempre esteja em jogo, não será fazendo do outro um rival que conquistaremos o nosso espaço. Isso não constrói carreiras, muito menos reputação. É na lapidação do humano, acolhendo e enxergando generosamente as pessoas e trabalhando duro pelo nosso melhor que o mercado naturalmente nos enxergará e buscará.

 

Karin Koshima
karin@recomendapesquisas.com.br
(Adaptação do artigo originalmente publicado no Jornal A Tarde)

 

Karin Koshima

Karin Koshima

Colunista

Diretora Executiva da Recomenda Pesquisas & Consultoria – especialista no comportamento do consumidor, eleitor e posicionamento de marcas. Às informações derivadas das pesquisas, agrega consultoria em planejamento, estratégia e marketing.

Se formou em psicologia na UFBA, é psicanalista com especialização em Psicologia pela USP (São Paulo), também Mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia.

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