Fazer o luto, fazer a luta

jul/2020

O enterro de meu irmão mais velho, vítima de Covid, me levou a viver de perto a triste faceta da lógica de regressão e desumanização que está em curso em nosso país, em tempos de pandemia.  

Já no hospital, onde ele ficara isolado por duas semanas, ao identificar seu corpo, já senti o drama: um morto por Covid. O mesmo no cartório e ao telefone com a agência funerária e também no cemitério: todos se referiam a ele como um corpo com COVID. A agência funerária especificou as regras: urna lacrada, nada de velório, ritos e flores e a presença restrita a poucos familiares.  

Nos trâmites de contratação, na Administração do cemitério, ouvi dos funcionários – todos com máscaras, luvas e protetores faciais – uma conversa sobre seu cansaço, a alta demanda de serviços e o número elevado de mortos e sepultamentos por Covid. Um deles me esclareceu que o salão de velório reservado para vítimas da Covid permanece fechado e sua porta só seria   aberta na hora de se transladar o corpo para o sepultamento.  

Manifestei que estávamos ali somente em seis familiares e queríamos muito expressar nossos sentimentos, fazer uma oração e celebrar o luto. Foi quando alguém mencionou que o diácono zelador da capela do cemitério poderia talvez fazer uma oração, contanto que fosse de cinco a dez minutos, ao ar livre, no átrio da igreja, a caminho do sepultamento. Aceitei.  

Uma espécie de carrinho de golfe estacionou na porta da sala trancada onde jazia a urna e dois funcionários paramentados com trajes especiais, dos pés à cabeça, entraram e carregaram o caixão com o “corpo com Covid”. Seguimos a pé, em silêncio, e paramos à frente da capela onde o jovem religioso nos acolheu, fez uma oração e pronunciou enfim algumas palavras e o nome do meu irmão.

Bastaram breves dez minutos ali, sob as árvores, e as palavras foram devolvendo ao corpo um  nome, uma história e uma dignidade. É como se ele estivesse sendo credenciado para fazer parte de uma rede de pessoas amadas que já haviam partido e passasse a fazer parte de um sistema simbólico de transmissão entre os que já morreram e nós, também mortais, que teimamos em denegar nossa condição vulnerável.  

O rito e as palavras serviram como um dispositivo integrador, um momento de costura afetiva entre passado, presente e futuro. O trabalho de luto começa com impacto da perda pessoal, mas transcende e extrapola, vai na direção dos outros, é preciso compartilhar a falta no coletivo.  Então prosseguimos, mais fortes.   

Celebrar o luto é como amassar as uvas com os pés, extrair o vinho com um trabalho cuidadoso de compressão e compactação de memórias da vida de quem partiu, retirar as substâncias afetivas, filtrar as que valem a pena levar, comprimir os afetos e sentimentos até eles virarem pequenos bonsais, burilar a pedra bruta para que aos poucos vire uma pedrinha preciosa que se leve no bolso, cristal de saudade.  

A pandemia também foi pródiga em outras mortes e cortes, as perdas foram múltiplas e tantas, houve rupturas implacáveis no mercado, perdas de patrimônio, projetos amputados, conquistas adiadas, sem mencionar a amarga decepção com pessoas queridas. São muitas as epifanias da morte e elas demandam operações de luto com maturidade emocional.

No mundo do trabalho e nos mercados a pandemia puxou o tapete de muita gente, em todas as áreas. Causou a ruína de empreendimentos e uma devastação nos empregos, espalhando sofrimento e amargura entre os sócios e gestores. É bem verdade que acelerou mudanças: antigas resistências com a tecnologia foram superadas e muitos setores aceitaram se contorcer para sobreviver. O marketing associou enfaticamente as marcas de mercado às ações de solidariedade nas comunidades, tomara que se trate de uma virada honesta, afinal de contas pode haver mercado sem respeito ao social? Resumo da ópera: o verbo da moda passou a ser reinventar-se.

E reinventar-se implica em aceitar os fatos e suas contingências. E o fato é que precisamos fazer o luto desse Brasil despedaçado. Os cinco estágios do luto tipificados pela conceituada pesquisa da psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross, a médica que registrou as reações psíquicas de milhares de pacientes em estado terminal sobre sua finitude são: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.

Os dois primeiros, negação e raiva, refletem bem a alma social do país, no instante presente. Negacionismo dos fatos – uma espécie de amor apaixonado pela ignorância -, associado à disseminação de ódio pelas fakenews e pela violência cotidiana, não estariam revelando medo e pavor de uma sociedade incapaz de chorar pelas quase 80 mil mortes (julho de 2020) de concidadãos com mais empatia e indignação? 

Hora de fazer o luto e fazer a luta.

Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
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