Gutenberg e sua startup no século 15

jun/2019

Estou fascinado com a história de Johannes zum Gutenberg (1396-1468), o célebre inventor da imprensa, ele encarna um case de inovação disruptiva em pleno século 15. O inquieto metalúrgico de Mainz, Alemanha, tinha garra de empreendedor e contava com um empréstimo para transformar seus insights em ideias e projetos. Habilidoso no manejo de metais, chegou a ser ourives, sem abandonar o trabalho com ligas metálicas com as quais fazia molduras de espelhos que, naquela época, valiam muito. 

Era obcecado pela reprodução de gravuras e xilogravuras nos moldes orientais, muito em voga na Europa daquele século, mas a mecânica chinesa de impressão se baseava em madeira e Gutenberg queria trocar madeira por tipos de metais e, avançar mais ainda, com a impressão de textos. Criou uma liga flexível à base de chumbo e estanho e outros metais com a qual manufaturou os tipos moldáveis de letras e, no ano de 1450, conseguiu imprimir cópias de um poema em alemão, marcando historicamente a descontinuidade com os processos anteriores.  

Sua ambição era imprimir toda a Bíblia, o Livro dos Livros. Para tanto, montou uma startup com 25 parceiros, conseguiu apoio de um investidor da cidade e enfrentou três anos infernais de incerteza, frustração e conflitos, num percurso bastante familiar aos empreendedores de hoje em dia. Finalmente, em 1453, concluiu a denominada Bíblia de Gutenberg que rompeu com o ciclo das cópias feitas manualmente pelas mãos de monges. Foram impressas 180 Bíblias e comercializadas a peso de ouro. Tornaram-se um item exclusivo para nobres e poderosos de sua época e um negócio promissor que gerou um lucro exorbitante. E começou a rodar sua startup

Logo novas gráficas se espalharam numa velocidade exponencial e disseminaram cópias da Bíblia, livros de literatura e obras científicas por toda a Europa. Não tardou para Gutemberg começar a numerar as páginas, facilitando a impressão de trechos, o que facilitou a difusão da medicina, por exemplo, com as trocas de material impresso entre pesquisadores. 

Se antes uma cópia ornada com iluminuras do Evangelho exigia o sacrifício de anos a fio de monges nos claustros, a tecnologia emergente de Gutenberg se descolava do antigo processo e design e passava a entregar os livros numa velocidade inédita e exponencial. 

Na mesma velocidade exponencial as teses reformadoras do cristianismo do frei Martinho Lutero se disseminaram pelos quatro cantos da Europa, lançando as bases do protestantismo. Sim, Lutero hackeou Gutenberg e foi graças a sua tecnologia emergente e inovadora que concretizou seu propósito. Hackear é um neologismo do universo cultural das startups e significa inventar um caminho novo para chegar em algum lugar. Não tem nada de ilegal, nada de invasivo quando dizemos que Lutero hackeou Gutenberg. Tem a ver com mapear direito um problema e pensar numa solução para resolvê-lo.  Todo dia é dia da gente se hackear. 

Sem a nova tecnologia, a Reforma Protestante não se espalharia pela Europa nem os livros de autores como Martinho Lutero e Erasmo de Roterdam se tornariam best-sellers e alcançariam centenas de milhares de pessoas na época de seu lançamento, instigando corações e mentes. 

A inovação de Gutenberg serviu de lastro para a difusão da Reforma e se desdobrou em outras explosões culturais e sociais. Todas elas nos permitem compreender o que vem a ser o fenômeno da aceleração exponencial dos nossos tempos.  Em 1620, o filósofo inglês Francis Bacon chegou a afirmar que a impressão tipográfica tinha mudado o rosto e estado de coisas em todo o mundo, associando-a ao trio imprensa-pólvora-bússola.

No espaço de cinquenta anos, desde sua primeira impressão, a Bíblia de Gutenberg havia ultrapassado a quantidade de material que os monges produziram antes, ao longo de séculos de cópias manuais. 

Com a quantidade de livros disponibilizada no mercado – e em diversas línguas – impulsionou-se mais mudanças na cultura: o aumento de bibliotecas e o crescimento do número de pessoas desejosas de saber ler e escrever.

A tecnologia de Gutemberg decretou muitas descontinuidades. A disseminação dos livros favoreceu a propagação de ideias e a crescente relativização dos valores hegemônicos da Igreja da época. O antropocentrismo hackeou espaços do teocentrismo e a população de alguns países da Europa se hackeou numa bela Renascença. 

Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
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