Irmã Dulce e as metamorfoses da compaixão

out/2019

Admirar a foto de Irmã Dulce flamulando na Basílica de São Pedro, no Vaticano, não tem preço. Escutar seu nome na cerimônia de canonização aqueceu nossos “brasileiros, brasileiros corações” com a certeza de que o reconhecimento é uma recompensa. A cerimônia trouxe os dois lados da sensação de pertença: pertence à elite espiritual da Igreja e nos pertence. Ao menos um de nós alcançou a posição simbólica e ela é gente da gente.

 

Sim, veio da Bahia nossa primeira santa, da Roma Negra do Brasil, terra do sagrado sincretizado com o profano, das misturas de crenças e do cristianismo mestiço com deuses dançantes, transes e êxtases, de rituais com incenso e o toque dos sinos misturado com o dos atabaques, anjos barrocos e meninos erês, juntos. Irmã Dulce saiu daqui e tirou a nota máxima na ética do Evangelho e dobrou os implacáveis advogados do diabo, ávidos por descobrir pecados e máculas no nosso Anjo Bom. Aonde? Se saiam, tomem tenência.

 

Desde cedo, seu coração dilatou e começou sua trilha assistencial com as marcas da época, sob o paradigma da esmola, da caridade com improvisos, sem as noções da sustentabilidade atuais e sem metodologia de redução de pobreza. Já nas décadas de 40 e 50, ainda Salvador era chamada de Bahia, cidade mergulhada na mais absurda assimetria social, miséria dantesca, insalubridade alta, decadência econômica, tirania política e já se tinha imagens fotográficas da freira esquálida de hábito branco, como um anjo bom, levitando entre as palafitas na terrível invasão de Alagados, onde flutuavam milhares de cidadãos da triste Bahia, tão dessemelhante.

 

A freira franzina acolhia os enfermos, gente doente de fome, corpos disformes, catava recém-nascidos no lixo, desprezados porque paralíticos, cegos, descapacitados, dava dignidade aos moribundos e abandonados, recolhia cadáveres para enterro digno, etc. Era um tempo em que o amor ao próximo era impulsionado pela culpa, com práticas imediatistas e de curto prazo, de se distribuir o peixe sem ensinar a pescar.

 

Aos poucos, entretanto, chegaram profissionais competentes, cativados por seu despojamento franciscano e carisma, pessoas de diferentes credos, mentalidades e profissões passaram a conjugar com ela os verbos servir e compartilhar. Como uma enzima catalizadora, aberta a quem quisesse ajudar, agregou um grande número de voluntários vindos de todas as partes, kardecistas, agnósticos, candomblecistas, evangélicos, ateus, além de fiéis católicos, etc., todos a abraçaram, contribuindo com os olhares profissionais da medicina, da enfermagem, da psicologia, da gestão, da contabilidade, da educação, do serviço social, etc., estruturando processos, amadurecendo relações e alertando para os riscos da ingenuidade em relação à benevolência, a irmã gêmea do orgulho.  

 

Desde o início, ela surpreendeu a todos com sua coragem, revelou que seu senso de misericórdia era maior que sua disposição à submissão, mesmo em hierarquia eclesiástica patriarcal, rigorosa e vertical, a mulher frágil que prometeu obediência nos votos foi possuída de uma vigorosa coragem e determinação que a fez colocar seu propósito maior à frente do ego do Cardeal da Bahia. Que dizer de uma compaixão quando ela paga o preço da insurgência e da desobediência? Em sequência, ela foi “saída” de sua congregação religiosa, tornou-se mal vista pelo clero e pela opinião pública.

 

Inúmeras vezes foi repreendida pelos representantes da Lei e da Ordem por invadir casarões abandonados, transformando-os em hospedarias de pobres sem teto. Estigmatizada por uns, manipulada por coronéis da política populista e empreiteiros espertos, hábeis na arte de usar a pobreza como máquina de produzir dinheiro e voto.  

 

O Evangelho de Santa Dulce é zás trás: Deus é Amor e o Verbo se faz carne pela compaixão. Quem pratica a misericórdia, segundo Jesus diz no registro de São Mateus, é bom e merece entrar no Reino. Quem não tem compaixão, se saia, em bom baianês, tire o corpo.  “Tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo porque eu tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes, nu e me vestistes, enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim. (…) ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? (…) todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes. ”  

 

É uma trilha ética cuja exegese é clara e prática, um cristianismo de script nu e cru: exalta a compaixão, esta potência do respeito para com a tragédia pessoal do outro, acompanhado de um desejo e uma intenção de minorá-la. É o oposto do sentimento de indiferença radical que não participa de sua dor nem tem o intuito de dividi-la com o sofredor. A ética cristã trouxe outra palavra forte: a misericórdia. Aprendi de um abade amoroso de São Bento que ela significa dar o coração ao miserável (misere + cor + dare), marca indelével do Papa Francisco que mandou instalar sanitários com duchas e máquinas de lavar roupa para o uso da população de rua, nas cercanias do Vaticano.  

 

Ave, Santa Dulce, que nos fez ver que a compaixão com responsabilidade gera respeito. Amém.

Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
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