Mudança, um jargão surrado e vazio

nov/2019

O conceito de mudança está presente em toda campanha eleitoral. Candidato de oposição é sempre o candidato da mudança; candidato da situação foi o candidato da mudança um dia. A mesma “mudança” que o elegeu é a que o ameaça na eleição seguinte. Só que, ao pesquisarmos a percepção do eleitor, vamos sempre ouvir que nada mudou e que nada nunca muda, na verdade. É por isso que, contraditoriamente, o conceito se repete, alimentando uma falsa expectativa e levando sempre às mesmas frustrações. O cerne do problema está no fato de que para a massa de eleitores, mudança se mantém ligada à questões operacionais, apenas. Perguntado sobre o que significa mudança, o eleitor mais simples responderá que é “parar de roubar” e “olhar para os mais necessitados”. Convenhamos que, para uma república que vai completar 130 anos, é incrível que a expectativa se mantenha tão rasa, associada apenas às consequências e não às causas das distorções sociopolíticas. As razões dessa pobreza de avaliação são diversas mas duas parecem ser as mais evidentes: as repetidas más experiências do eleitor com as candidaturas vitoriosas e a sua absoluta falta de cultura geral, que impede que ele perceba a ideia de mudança atrelada a contextos históricos, geográficos e filosóficos e que compreenda que as transformações são bem mais do que produtos de resultados de eleições, mas de uma mobilização social permanente guiada pelo conhecimento. Essa ignorância a respeito do encadeamento dos fatos no tempo e no espaço acaba justificando uma baixa qualidade na oferta de candidaturas. Se o padrão de exigência do eleitor repousa numa objetividade simplória, serão raríssimos os candidatos preocupados com uma formação que sustente um discurso consistente, responsável e crível. A maioria dos políticos simplesmente não sente falta dela, preferindo repetir a ladainha de sempre. Infelizmente, sustentar o discurso de campanha num ideário de qualidade e que guiará uma gestão eficaz, ainda parece utopia para os padrões eleitorais e de governança pública no Brasil. Um sopro de esperança, no entanto, vem do movimento de algumas lideranças da sociedade, focado na criação de ambientes voltados para a formação de quadros capazes de promover uma renovação política. Uma iniciativa louvável, sem dúvida, e que já tem seus representes no Congresso e em alguns cargos executivos. Mas que não vai funcionar se não for acompanhada de um investimento pesado na Educação do povo brasileiro. É a capacitação intelectual do eleitor para o exercício de escolhas criteriosas o que vai promover uma verdadeira mudança no país. E permitir que se enterre de uma vez esse jargão eleitoreiro surrado, que trata de uma mudança que nunca mudou nada.

 

Karin Koshima
karin@recomendapesquisas.com.br

 

 

Karin Koshima

Karin Koshima

Colunista

Diretora Executiva da Recomenda Pesquisas & Consultoria – especialista no comportamento do consumidor, eleitor e posicionamento de marcas. Às informações derivadas das pesquisas, agrega consultoria em planejamento, estratégia e marketing.

Se formou em psicologia na UFBA, é psicanalista com especialização em Psicologia pela USP (São Paulo), também Mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia.

Mais artigos

Irmã Dulce e as metamorfoses da compaixão

Admirar a foto de Irmã Dulce flamulando na Basílica de São Pedro, no Vaticano, não tem preço. Escutar seu nome na cerimônia de canonização aqueceu nossos “brasileiros, brasileiros corações” com a certeza de que o reconhecimento é uma recompensa. A cerimônia trouxe os...

ler mais

O rosto autoritário do poder no Brasil

Outro dia, conversando sobre cultura e poder num workshop de lideranças com jovens executivos, comentei sobre as Capitanias Hereditárias e seus capitães donatários, um cargo administrativo do feudalismo tardio português atribuído a membros da nobreza que, por meio de...

ler mais

Brasil: como sair do labirinto?

Por raivas antigas, Minos, rei de Creta, resolveu castigar Atenas e seu povo com uma pena absurda e perversa: o envio por todos os anos de sete moças e sete rapazes para aplacar a fome do Minotauro, uma criatura com cabeça de touro e corpo humano, que residia num...

ler mais

O tsunami, os elefantes e o futuro do trabalho

Moradores de zonas afetadas recordam que, dias antes da calamidade dos tsunamis na Tailândia, observaram as aves mais inquietas, voando em círculos, cães nervosos, latindo e correndo estranhamente de um lado a outro e o sumiço dos gatos de estimação. O que estaria...

ler mais

Gutenberg e sua startup no século 15

Estou fascinado com a história de Johannes zum Gutenberg (1396-1468), o célebre inventor da imprensa, ele encarna um case de inovação disruptiva em pleno século 15. O inquieto metalúrgico de Mainz, Alemanha, tinha garra de empreendedor e contava com um empréstimo para...

ler mais

Cultura Uber: a ascensão do trabalhador por portfólio

Motoristas de aplicativo, podem reparar, falam pelos cotovelos. Ficam à espreita de algum sinal do freguês para iniciar um papo e, quando acontece, soltam o verbo. São treinados e permanecem calados até que o usuário resolva puxar conversa. Eu sou muito curioso sobre...

ler mais

junte-se ao mercado