Não se iludam, o povo está infeliz

jan/2020

O papel do profissional de pesquisa qualitativa é parecido com aquele da mulher que responde a uma observação sobre o marido, dizendo “não é bem assim, eu durmo com ele, conheço bem”.  No nosso caso, esse “dormir junto” é uma conversa honesta, em que o entrevistado não é um número para compor alguma estatística, mas alguém que, durante pelo menos duas horas, expressa sentimentos genuínos que, inclusive, se alternam ao longo do diálogo. Mesmo quando se fala de política, mais do que ideologias ou partidos, o que vigora é um estado psicológico e suas manifestações. Por isso, como a mulher que conhece bem o marido, muitas vezes ficamos surpresos, ao nos depararmos com a difusão de certas informações desalinhadas com o sentimento real das pessoas. Claro que hoje, no Brasil, existe uma guerra de informação muito mais de cunho, digamos, “publicitário” do que noticioso. O governo apregoa vitórias em temas sensíveis à população, como a economia e a moralidade administrativa, por exemplo. Por outro lado, a oposição empenha-se em desmentir o sucesso da situação, apontando perdas em termos de cultura e direitos humanos. Esse embate encarniçado que mantém uma efervescência artificial nas redes sociais e obriga articulistas de todas as áreas a repetidas análises sobre no quê se pode acreditar ou não, começou na campanha de 2018 e caminha para um desafio importante em 2020. Até que ponto essa convicção de que a comunicação direta com as pessoas, através dos aplicativos, está sendo suficiente? As pesquisa qualitativas servem para demonstrar a vida como ela é e não como agentes da informação gostariam que fosse. Pode ser uma amarga surpresa para muitos a informação da pesquisa do Instituto Datafolha divulgada em 8 de dezembro de 2019 de que quase a metade das pessoas acham que “a corrupção continua como sempre”, em que pese a Lavajato. Quem trabalha com pesquisa qualitativa, no entanto, ouve isso o tempo todo. Bem como ouve que “esse governo não mudou nada”, que “os serviços estão precários”, que “há um retrocesso na economia”, que as pessoas estão “muito preocupadas com desemprego, insegurança e corrupção” . Sim, parece que estacionamos em 2016. Só que agora piora um pouco porque, além de tudo, há uma profunda desilusão com a aposta que foi feita. O que leva a um tremendo vazio no horizonte dos eleitores.

A percepção de uma chamada “nova política”, teoria logo abraçada, se desfaz, diante de ações típicas da “velha política”. O desemprego vivido na prática cega para o aceno de números “menos ruins”. Aos poucos, cresce a sensação de que, para todos os efeitos, o discurso político só mudou a forma – ficou mais intenso, agudo, agressivo, convicto, popularesco -, mas, no fundo apenas tenta dar um tom revolucionário a um conteúdo desacreditado na raiz. Enfim, é hora de tirar um pouco os olhos das ferramentas e prestar mais atenção nas pessoas.

Karin Koshima
karin@recomendapesquisas.com.br

Karin Koshima

Karin Koshima

Colunista

Diretora Executiva da Recomenda Pesquisas & Consultoria – especialista no comportamento do consumidor, eleitor e posicionamento de marcas. Às informações derivadas das pesquisas, agrega consultoria em planejamento, estratégia e marketing.

Se formou em psicologia na UFBA, é psicanalista com especialização em Psicologia pela USP (São Paulo), também Mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia.

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