O que querem os negacionistas?

out/2020

Roque de Itaparica foi o primeiro negacionista com que me deparei em minha vida. Nativo da ilha de Itaparica, era um simpático aguadeiro que ganhava a vida descendo e subindo as ruas calçadas de paralelepípedos da pequena cidade praieira, ainda isenta de carros. Ia de porta em porta, mercando barris cheios de água da Fonte da Bica, água para beber, cozinhar, água de gasto, carregados no lombo do seu burro de carga.

Era o ano de 1970, eu tinha 15 anos e me recordo da data porque, no ano anterior, Neil Armstrong e parceiros do módulo Columbia haviam pisado no solo lunar, o acontecimento mais badalado naqueles anos de corrida espacial.  

O negacionista Roque, presepeiro e engraçado, tirava onda comigo e minha mãe porque nós acreditávamos na missão da NASA. E enquanto enchia de água os porrões de barro, debochava de nossa ingenuidade: – Como é que os senhores acreditam em lorota de gringo?   

Minha mãe dava ouvido às histórias de pessoas simples, sua regra era não julgar como ignorância o que poderia conter graça e poesia. Mas o negacionismo de Roque me incomodava porque, naquela idade, fim do ginásio, já andava fascinado com o diário de   viagem de Charles Darwin, com os experimentos científicos e o valor dos questionamentos.   

Nesta mesma década, em plena ditadura militar, comecei a me incomodar com a censura e travava discussões calorosas com meu pai, um conservador simpatizante da ARENA, sobre as denúncias de tortura, que ele negava enfaticamente.

As décadas de 70 e 80 foram pródigas de modismos from Califórnia, uma espécie de portal de entrada de modas alternativas. Conhecidos adotavam a ioga, a astrologia, a dieta macrobiótica, o reiki, a acupuntura, a meditação, a medicina natural enquanto outros não via naquilo eficácia alguma, mas como era um universo liberal nos costumes, não vingavam obscurantismo e intolerância.  

A cabeça das pessoas era outra e era impossível se levar a sério um papo negacionista naquele contexto. Ninguém comprava briga com quem apostasse em tratamento homeopático, florais de Bach, emplastro Sabiá ou visse discos voadores.  Era cada na sua.  

Bem diferente de hoje em dia em que os negacionismos se multiplicam, amplificados pelos tribunais digitais. Começam discretos, plantando abobrinhas terraplanistas e se contrapondo à teoria da evolução com design inteligente, adentram no revisionismo histórico, pondo em questão genocídio indígena, escravidão, opressão política da ditadura brasileira, holocausto nazista e por aí vai.  

Em 1998, o médico britânico Andrew Wakefield  publicou artigo na The Lancet, a revista de ciência médica mais conceituada, relacionando a vacina tríplice viral, que previne a caxumba, o sarampo e a rubéola, ao autismo.  A notícia provocou pânico em todo o planeta. O médico picareta estava envolvido com advogados que queriam lucrar a partir de processos contra fabricantes de vacinas. Seu artigo era fake, utilizou dados falsos e alterou informações sobre os pacientes, como afirma a microbiologista Natália Pasternak.  Em paralelo, uma famosa atriz norte americana, mãe de autista, apostou na tese e impulsionou a mentira e todas as vacinas passaram a ser ameaçadoras e doenças já erradicadas voltaram a causar sofrimento e morte em crianças.

No balaio negacionista, o importante é instalar a desconfiança e debochar do método científico. Fenômenos como o efeito estufa, o aquecimento global e a destruição da floresta amazônica por queimadas detectadas por satélites, viram alvo de campanhas conspiratórias. Durante a pandemia vimos como essa usina de mentiras alcançou seu ápice, aumentando o número das vítimas da COVID.

O que quer um negacionista?

Implodir o presente, desconstruir a modernidade e seus valores, reimplantar um tempo mítico com representações simbólicas de antes da modernidade, dando ênfase à hierarquia, à família e seus privilégios. Restaurar uma velha ordem baseada no controle, ainda que sem política, sem democracia e sem liberdade, como afirma Rubens Glezer, pesquisador da FGV.   

Desejam promover a desestruturação da autoridade da Ciência e da Política, na afirmação precisa do físico Marcelo Gleiser, como estratégia para a retomada do tempo social arcaico e imaginário, “destruído pela modernidade, pelo materialismo e pelo globalismo”, conforme se lê em documentos do Itamaraty, com a grife do atual chanceler.

Assim, o negacionista contém o autoritário, o obscurantista e sobretudo o intolerante, resume Rubens Glezer. Aspira pela ordem ainda que em detrimento da liberdade. O importante é Deus no comando, mesmo que para isso tenha que se apagar as luzes da Razão e calar os pressupostos filosóficos engendrados a partir do Iluminismo.   

Quando parecia que a Modernidade já estava posta, que era um dado irreversível, que o espírito da democracia estava entranhado na vida social, eis que de repente emergem das franjas mais obscuras da vida social as vozes autoritárias, anacrônicas e intolerantes se adensando na caverna secreta do WhatsApp, o labirinto dos bots do ódio.

A partir dali colocam em cheque as conquistas do Estado democrático de direito, a  Constituição, a Política, a Ciência, os ideais pactuados como a liberdade, a igualdade e a fraternidade, os direitos democráticos, a questão ambiental, o respeito e inclusão das diferenças e a tolerância religiosa pelo princípio da laicidade da República.  

Por onde andará Roque, o aguadeiro de Itaparica?

Minha mãe alimentava as conversas com ele, achando muita graça em suas tiradas negacionistas e seu deboche com as façanhas da NASA. Dava boas risadas, escutando o moço  descrever com detalhes o coice que o cavalo de São Jorge, senhor da Lua, daria nos astronautas insolentes, espatifando o foguete mequetrefe…É bem provável que ela tenha contado esse caso para um vizinho ilustre nosso na ilha, colecionador apaixonado de histórias fantásticas de nome João Ubaldo.   

Sinto falta da tolerância e da fraternidade. Sinto saudade de um tempo em que podia se dizer Viva o Povo Brasileiro!

Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
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