O raso e o profundo

jan/2022

Causou frisson na turma quando o professor doutor José Itzigsohn anunciou que a avaliação final de sua disciplina seria um exame oral. Todos ficamos surpresos com aquela novidade, afinal as avaliações eram sempre seminários e resenhas.

Ele era um catedrático de Psicologia da Universidade Hebraica de Jerusalém, professor convidado em nossa universidade, em Salamanca, Espanha. Sua disciplina – Terapias Breves – não era a preferida dos alunos, mas ele, além de experiente e veterano psicólogo, um humanista e erudito, era mais que tudo um judeu argentino falando castelhano com acento de Astor Piazolla e muito bem humorado.

Trazia humor às aulas e um agudo senso crítico. Ganhou a simpatia da turma. Foi um dos tantos profissionais vítimas da sórdida ditadura argentina, perseguidos e forçados a saírem do país para outros destinos como Israel, Brasil, Espanha.   

Estávamos no começo dos anos de 1990 e as Terapias Breves eram encaradas com desconfiança. Professor Itzigsohn, entretanto, trabalhava no serviço público de saúde, em Israel, e deixava claro que, por lá, o Estado só cobria terapias grupais ou, se fossem individuais, se fossem com poucas sessões e numa abordagem focada na solução de problemas.  

Suas aulas tratavam do amplo leque de experimentos em diversos lugares do mundo e com abordagens variadas – dinâmicas, condutistas e cognitivistas. Descrevia também os passos do movimento da psiquiatria comunitária e a aplicação de meios terapêuticos e profiláticos para setores cada vez mais amplos da população.  

Eu era o único latino-americano em uma turma exclusivamente de espanhóis. Uma coincidência, eu tinha sido analisando, em Salvador, de um conterrâneo seu: o psicanalista Emílio Rodrigué, da mesma geração dos migrantes à força. Estas convergências logo nos aproximaram e, em alguns cafezinhos na cantina trocamos tango e samba, Mercedes Sosa e Gal Costa, Maradona e Pelé. Com mais confiança, pude demonstrar minha impressão sobre a pouca profundidade e complexidade das terapias breves.   

Prof. Itzigsohn escutava as críticas com serenidade, mas defendia o processo breve com pragmatismo. Eram as contingências do contexto local, as políticas de Saúde Pública, a exigência de um tratamento mais célere e acessível, a tensão social naquele período e daquela sociedade. Como acelerar a adaptação de um contingente imenso de migrantes vindos da extensa diáspora?

Enfim, eis o dia do exame oral. Eu havia esquematizado um roteiro e tomei um susto quando ele interrompeu minha exposição, se desculpando e me garantindo aprovação. Mas preferia escutar o que eu queria dizer com a falta de profundidade, complexidade. Mal comecei a trazer os argumentos, ele pediu licença e começou a contar o caso de uma pescaria em sua juventude, em Buenos Aires, muitos anos antes.  

Mi caro Carlos de Bahía, eu gosto muito de pescar. A primeira vez que fui pescar nas pedras do cais da avenida Costanera, em frente ao Aeroparque Internacional José Newbery, levei comigo o que tinha de melhor em termos de artigos de pesca: caniço, molinete, profusão de anzóis, iscas fartas, carreteis com linhas de nylon reforçadas, etc. Casi todo regalo de cumpleaños. Me instalei num lugar alto e dei início ao processo, arremessando o anzol bem longe. Esperava fisgada, um sinal de peixe, mas não havia, recolhi a linha, dei novo impulso e atirei a isca para ainda mais longe. Troquei de lugar, jogando a linha muitos metros à frente. E nada do peixe morder. Fiquei mais de meia hora nessa frustração, fazia um calor infernal, e eu já estava irritado. Pertinho de mim, um sujeito com uma vara de bambu simplória e uma linha curta puxava um peixe atrás do outro. Fiquei intrigado, me dirigi a ele, reparei o cesto no chão recheado de peixes.   

Ele foi receptivo, mas não parava de fazer o que estava fazendo. Conversou comigo com uma isca entre os lábios e enquanto falava, ajeitava o anzol e sua varinha de bambu. Em um momento me olhou com ar de pena e perguntou:

– Rapaz, você não sabe que ali adiante é raso e não tem nem um metro de profundidade? Ali é um banco de areia. Profundidade é aqui, rapaz. – disse,  apontando para o canal a dois metros à frente.

– A correnteza do rio cavou um canal de mais de cinco metros de profundidade aqui, perto das pedras. É aqui que os peixes gostam de ficar. É melhor você vir para cá.

Faz tantos anos e eu nunca me esqueci desse dia, em Salamanca, em que o professor me fisgou com essa história. Ele saiu da pescaria com o balaio cheio e selou amizade com o parceiro gente boa. Eu tirei nota máxima no exame e desde então estou convicto de que profundidade é quando tem peixe.

Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
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