Procuram-se clientes

mar/2018

Uma estátua de uma menina encarando um touro ou uma foto de um restaurante em chamas. A primeira foi a ideia da McCann Nova York para a State Street Global Advisor, uma empresa do mercado financeiro de Nova York. O que para muitos seria loucura, para a SSGA foi um tiro certeiro. A ação Fearless Girl foi pauta ao redor do mundo, com mais de 745 milhões de impressões no Instagram, além de conquistar 4 Grand Prix e 18 leões no Festival de Cannes. A segunda é uma campanha também vencedora de Grand Prix em Cannes na qual o Burger King mostra três lojas que pegaram fogo, em alusão ao fato de que seus hambúrgueres são grelhados no fogo de verdade.

Esses cases trazem a pergunta sobre quantos clientes no mundo, hoje, teriam coragem de aprovar ideias como essas?

As agências de publicidade estão hoje enjauladas pelos próprios clientes.

Começa pelo briefing, que quase sempre vem acompanhado de uma enxurrada de policies que já travam a agência. Isso sem falar de quando não chegam junto com ele caminhos chancelados por consultorias que em 90 dias fizeram um trabalho “profundo” sobre a marca do cliente.

Depois do briefing, vem a criação, que – mesmo com todas as regras – se desdobra para fazer algo criativo que seja relevante e eficiente. Durante esse processo, centenas de ideias boas, médias e ruins são vistas e jogadas fora, até que se encontra uma big ideia realmente forte. Só que, em vez de curtir a onda, é aí que começa a frustração.

Custo, prazo, guide, adequação, tom de voz, mensagem, layout e muitos outros obstáculos são erguidos para matar uma ideia. Tudo vira motivo para transformar as campanhas em menos criativas e mais “corretas”.

Acontece que o mais “correto” não constrói marca no longo prazo. O mais correto apenas mascara o medo que o anunciante tem de ousar. E esse medo é o que também impede as marcas de irem além. Um estudo recente da McKinsey & Company analisou a correlação entre campanhas premiadas e performance das empresas. Curiosamente, os resultados transcenderam os efeitos de valorização das marcas e acabaram afetando positivamente a performance das empresas em termos de volume de negócios e rentabilidade.

As marcas que valorizam a criatividade e o poder das grandes ideias, como Apple, Google, Volkswagen, Coca-Cola, Johnnie Walker, Visa, sempre estão no topo das listas de empresas inovadoras do mundo. Não é coincidência que as agências dessas marcas também cresceram e se modernizaram, mesmo com a revolução digital de plataformas.  Motivadas pelos clientes, que elevam a barra a cada job, as agências buscam se superar e entender como a big idea pode trabalhar a serviço da marca, independentemente da plataforma, sem perder criatividade e relevância.

Nada é mais gostoso para uma agência do que emplacar uma boa ideia real. Por que aprovar uma boa ideia não pode ser gostoso também?

 

Vitor Barros

Vitor Barros

Convidado

Formado em Administração de Empresas pela UNIFACS – Universidade Salvador e com cursos de especialização em Estratégia Digital pela NYU – New York University e Marketing Digital pela ESPM – Escola Superior de Marketing e Propaganda. Foi co-fundador do Grupo PPG – Holding que reúne as agências Propeg, Menta, Revolution Brasil, Invent Live Marketing e InFavela. Já participou como jurado de prêmios como El Ojo de Iberoamerica, Prêmio Lusos e Bahia Recall. Também está na ficha técnica de peças premiadas diversos festivais nacionais e internacionais como Cannes, El Ojo, Festival ABP, CCBA, Colunistas, Bahia Recall. Em 2014 e 2017 foi escolhido Profissional de Propaganda do ano pelo Prêmio Colunistas Norte/Nordeste.

Mais artigos

Mudança, um jargão surrado e vazio

O conceito de mudança está presente em toda campanha eleitoral. Candidato de oposição é sempre o candidato da mudança; candidato da situação foi o candidato da mudança um dia. A mesma “mudança” que o elegeu é a que o ameaça na eleição seguinte. Só que, ao pesquisarmos...

ler mais

Irmã Dulce e as metamorfoses da compaixão

Admirar a foto de Irmã Dulce flamulando na Basílica de São Pedro, no Vaticano, não tem preço. Escutar seu nome na cerimônia de canonização aqueceu nossos “brasileiros, brasileiros corações” com a certeza de que o reconhecimento é uma recompensa. A cerimônia trouxe os...

ler mais

Inovar também é para você.

Quando, há quase 10 anos, vi uma Impressora 3D em funcionamento, tive clareza de que o futuro profissional passaria pela inovação. Acreditei que aquela nova máquina tinha, de uma só vez, conseguido derrubar múltiplas barreiras de proteção à indústria: tecnológicas e...

ler mais

O rosto autoritário do poder no Brasil

Outro dia, conversando sobre cultura e poder num workshop de lideranças com jovens executivos, comentei sobre as Capitanias Hereditárias e seus capitães donatários, um cargo administrativo do feudalismo tardio português atribuído a membros da nobreza que, por meio de...

ler mais

A modernização de empresas tradicionais é possível?

Já inicio o texto com a resposta a esta inquietante provocação: Não só é possível, como é necessária. No segundo mandato à frente da Santa Casa da Bahia, com 470 anos de história, posso lhes dizer que modernizar processos,  imagem, tecnologias e pensamentos, são...

ler mais

UM RESUMO DO ADTECH & DATA 2019

No último dia 27, aconteceu em São Paulo a edição de 2019 do AdTech & Data, o maior evento nacional sobre a área, e que é promovido pelo IAB Brasil. Na edição deste ano, chamou a atenção a participação de palestrantes internacionais, o que demonstra o...

ler mais

junte-se ao mercado