Quando isolamento rima com amadurecimento

ago/2020

Foi uma bela surpresa para os produtores e artistas do filme O Náufrago, de Robert Zemeckis, de 2000, estrelado por Tom Hanks, passado quase inteiramente na praia de uma ilha deserta, conseguir alcançar um estrondoso sucesso de bilheteria e crítica. O filme tinha de tudo para ser enfadonho e monótono e se desconfiava que a história de Chuck Noland, com sua luta árdua para conseguir sobreviver naquela ilha agreste, ao longo de 1500 dias, não geraria tamanha empatia. E aconteceu justamente o contrário.

No enredo, Chuck Noland/Tom Hanks, funcionário exemplar da FEDEX, o Correio norte-americano, após sobreviver a um trágico acidente aéreo, se agarra a um bote salva-vidas, perde a consciência e flutua a noite toda até chegar sozinho numa ilha desabitada.

Solitário, passa aprender a se adaptar às condições inóspitas e arrancar forças para lidar com o novo mundo desconhecido.
O filme acendeu o sinal de alerta de Holywood e a indústria queria entender a razão da empatia das plateias com Chuck Noland, na magnífica interpretação de Tom Hanks. Viu que o público se identificou desde o início quando o personagem, a duras penas, aprende a fazer fogo com gravetos, pescar com arpão improvisado e a comer peixe cru até passar a controlar o ambiente e se ajustar melhor naquele mundo hostil. A empatia das plateias se fez com um sujeito decidido a encarar a realidade concreta, sem suscitar pena de ninguém, capaz de modificar a natureza e se modificar com ela. Sem autocompaixão, ele amadureceu no isolamento.

Para fazer uma ponte entre o isolamento do náufrago do filme e as aprendizagens que conquistamos na quarentena, pedi ajuda a Hanna Arendt, a célebre filósofa que refletiu e vivenciou intensamente sobre a solidão e o isolamento seja como fugitiva do nazismo, detenta da Gestapo, pária social, presa política e imigrante. Ela encarou e refletiu sobre os três rostos da solidão.

 

A solidão como isolamento e trauma

 

A quarentena chegou como uma lâmina de corte e abruptamente nos arrancou da convivência ao lado de pessoas próximas, decretando um estado de exceção. Em lugar de abraços e toques, as rotinas ficaram cheias de medo, incertezas e precauções. Desde março de 2020, os ponteiros de nossos relógios desaceleraram e o ritmo de vida se alterou. Alguns pararam e tiveram que ficar em casa, isolados. Compromissos cancelados, viagens suspensas, reuniões de estudo e trabalho doravante somente pelas plataformas digitais. A vida entrou em ritmo câmera lenta e foi aberta a temporada de estranhamentos e mal-estar.

A pandemia atrapalhou os planos, puxou tapetes, desfez os sonhos, provocou danos e perdas, adiou oportunidades, promoveu desemprego e enxugamento de salários, afastou uns e reaproximou outros, pôs às claras as violências domésticas e, espantosamente, escancarou a desigualdade social. E matou gente, gerou lutos e traumas e ainda produz vítimas.

O isolamento, para Arendt, golpeia nossa função relacional e política, nossa capacidade de nos organizar em redes, captar sinergias, formar equipes e criar grupos. Em suas palavras, a isolation é uma condição de solidão na qual todos os contatos entre os indivíduos são rompidos e as capacidades de ação, frustradas. A partir daí se abrem dois caminhos: a solidão ruim (loneliness), como desenraizamento e desertificação e a solitude, uma solidão que preserva a força propulsora da invenção e o colóquio com o próprio pensamento.

 

Quando é ruim estar só

 

A loneliness não é uma solidão propriamente, mas uma percepção do próprio vazio em situação de isolamento. É uma incompetência em se fazer companhia, uma inabilidade em refletir e um espanto em se perceber sem conteúdo, como que desertificado por dentro. E já não há com quem conversar porque por dentro não há eco. Arendt descreve como um tipo de desenraizamento de não ter um lugar reconhecido e garantido pelos outros. Uma sensação de ser supérfluo e de não se sentir parte do mundo.

Na solidão ruim, a loneliness, diz a autora, a dor decorre da anulação dos vínculos e dos significados com prejuízo para as malhas da racionalidade. A tônica dessa condição é a sensação de não estar mais pertencendo a algo ou alguém – e de perda de referências. Essas reflexões da pensadora integram sua obra As origens do totalitarismo. É possível se deduzir o quanto toda essa manipulação subjetiva vem a beneficiar os governos tiranos pelo enfraquecimento da conectividade.

 

A boa solidão: solitude

 

Enquanto na loneliness impera um sentimento ruim de ter sido abandonado por toda a companhia humana e não ter a capacidade de fazer companhia a si mesmo em um colóquio íntimo que mantém entre si e consigo, na solitude o sujeito em isolamento passa a se reencontrar e retoma, diz ela, o diálogo da solitude que é quando estou comigo mesmo e, por isso, dois em um (two-in-one).

A marca da solitude é a potência da invenção e a criação. Mesmo no isolamento, é preciso continuar trabalhando, projetando, afinal o mundo, do qual ele está isolado, permanece sempre no seu horizonte, precisamente por meio do seu fazer e realizar.

Se o mundo é artifício humano, Chuck, o náufrago, em sua solitude carente de presença humana, pode inventar um jeito de aplacar sua solidão, humanizando uma bola de vôlei, o antológico Wilson. É seu espelho e seu modo de recompor o humano. Mesmo isolado, pode regatar um outro, um tipo ideal, e fazê-lo extensão de si, alvo de sua afetividade e raiva, alguém por quem chora arrependido por ofender e até, numa explosão de cólera, lança ao mar e, em seguida, amarga de culpa e se arrepende, reconhecendo sua irresponsabilidade. Traços humanos.

Arendt diria que é quando ele volta a falar consigo mesmo de modo que o mundo e os seus semelhantes voltem a povoar o seu eu como referências possíveis, embora não presentes.

No mais, ainda na quarentena, deixo meu abraço e estímulo, à gente ousada que admiro porque cria seus mundos e inventa artes. Gente talentosa, artistas da culinária, do artesanato, da música, na jardinagem, no marketing, nas lives, nos tutoriais, campanhas de solidariedade, etc.
Gente que nos faz apostar que isolamento pode rimar com amadurecimento.

Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
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