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Quociente espiritual: o terceiro quociente humano

dez/2018

Em estudos mercadológicos e diagnósticos organizacionais que realizei nos últimos anos, venho observando “algo especial” permeando o discurso de lideranças de grandes empresas.

Até início do século XX, o QI (quociente de inteligência) era a referência para mensuração da inteligência. Em meados da década de 90 o conceito de Quociente Emocional (QE) sinaliza para a importância de saber lidar com as emoções, introduzindo nova e determinante medida na compreensão das habilidades humanas e seus impactos.

Sempre me pareceu natural os mais bem sucedidos terem também as referidas habilidades (Quociente Emocional). No entanto, me inquietava notar que indicadores que não se ajustavam aos critérios do QI e do QE e escapavam, assim, aos diagnósticos organizacionais, impactavam decisivamente a performance destes líderes. Estes líderes já anunciavam um novo padrão através de tomadas de decisões balizadas em propósitos “amplos”, questionamentos existenciais e na busca por um sentido profundo para suas ações.

A ciência começou o milênio com descobertas que apontam para um terceiro quociente: o espiritual (QS). Foi identificado nos lobos temporais, um ponto que aciona a necessidade humana de busca do “sentido da vida”, denominado “O Ponto de Deus”. Segundo a física e filósofa Dana Zohar “ter alto QS implica ser capaz de usar o espiritual para ter uma vida com mais sentido, adequando senso de finalidade e direção pessoal”. Para ela, o Quociente Emocional permitiria avaliarmos holisticamente uma situação e a nos comportarmos dentro dos seus limites. O Quociente Espiritual, nos leva a perguntarmos intimamente se desejamos estar na situação particular.

Embora já conhecesse o conceito de Quociente Espiritual, confesso que nunca havia me aprofundado neste conceito. E estou encantada por encontrar uma proposta que dá consistência a uma série de pensamentos que até então me pareciam abstratos. Aquilo que “sentia” como um diferencial na postura de alguns líderes e tanto impactava no resultado dos diagnósticos, hoje relaciono a desenvolvida inteligência espiritual destes.

O modelo que vem sendo adotado no mundo dos negócios, baseado apenas na remuneração do capital, gerou uma cultura corporativa desconectada da espiritualidade, em que pessoas trabalham com o propósito de consumir. Esse modelo impacta no arrefecimento de resultados e tem reflexo tanto na exploração predatória dos recursos naturais, quanto em desequilíbrios físicos e psicológicos nos indivíduos.

Positivo é que, se antes esse conceito era encarado como pertencente ao terreno do misticismo, incompatível, portanto, com a objetividade da atividade empresarial, hoje vários setores começam a se interessar pelo desenvolvimento dessa nova medida da inteligência. Compreendem que, ao ajudarem os colaboradores a encontrarem em suas tarefas profissionais um significado existencial, a produtividade aumentará. Pessoas com Quociente Espiritual elevado querem fazer não só por si, mas pela empresa, seus semelhantes e pelo mundo em que vivem. Acho que aqui pode estar a chave para uma nova era no mundo dos negócios.

 

Karin Koshima
karin@recomendapesquisas.com.br
(Publicado originalmente no Jornal A Tarde)

 

Karin Koshima

Karin Koshima

Colunista

Diretora Executiva da Recomenda Pesquisas & Consultoria – especialista no comportamento do consumidor, eleitor e posicionamento de marcas. Às informações derivadas das pesquisas, agrega consultoria em planejamento, estratégia e marketing.

Se formou em psicologia na UFBA, é psicanalista com especialização em Psicologia pela USP (São Paulo), também Mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia.

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