Segredos inspiradores do Natal

dez/2018

Pouca gente escapa da pegada da ansiedade nas festas de final de ano. São muitas as ansiedades nesta época: fechar o semestre, passar direto, fazer balanço e prestar contas, planejamento do ano novo, decidir o destino do 13.o, comprar lembranças baratinhas de amigos secretos, se esquivar de tantas confraternizações e dos calóricos comes e bebes, arquitetar férias e encaminhar os filhos em recesso das aulas para alguma diversão. Tem até quem se preocupe com a cor da roupa íntima no Réveillon!

 

Já não há tanta força no apelo espiritual do Natal. O marketing abduziu os símbolos cristãos e trocou por Papai Noel que tem levado imensa vantagem sobre a figura de Jesus. A manjedoura e bela poesia franciscana contemplada nos presépios não seduz como a iluminação feérica das decorações de shoppings.

 

Como a Páscoa, o Natal é um dos clímax da revelação divina para os cristãos, um tema central da fé que tristemente vai se reduzindo a mero adereço infantil. Hoje, pouca gente se recorda de que estamos no tempo do Advento com seus quatro domingos e que eles antecedem a Noite Feliz. É como a expectação de Maria, grávida de esperança.

 

É como se houvesse um Natal sem mais necessidade de enraizamento na espiritualidade cristã. Será que ele vai se sustentar sem o reconhecimento do seu lastro maior, genuíno, o mistério da Encarnação? Como dar de costas à reflexão sobre a frase de abertura do Evangelho de São João: o Verbo se fez carne e habitou entre nós”? O que a escritura quer revelar com a afirmação de que a Palavra se transformou em “carne”? Como decifrar este mistério que marcou a história do Ocidente?

 

Estamos perdendo o sentido profundo, místico e simbólico da festa. Os conteúdos espirituais da data litúrgica evaporaram ao sabor das diversas sentenças de morte de Deus, da cultura secularizada, materialista e da tendência de customização da imagem de Deus, uma imagem de acordo com as demandas de cada um. Na prática, os significados da festa desapareceram na voragem do marketing e do consumismo excessivo e a data ficou oca, artificial e híbrida, feito um chester na mesa da ceia, aquela ave produzida em laboratório, inflada artificialmente para impressionar.

 

Para os dois evangelistas, Mateus e Lucas, o nascimento do menino Jesus foi testemunhado por pobres pastores e por desconhecidos estrangeiros vindos do Oriente, os ditos reis magos. Eles compõem a metáfora do presépio dando protagonismo a uma criança nascida na pobreza de uma manjedoura, com pais migrantes e carentes. É uma narrativa do nascimento de uma divindade muito distante da ênfase no poder.

 

Como repaginar as formas de celebração da festa cristã na era digital e tecnológica? Como parar para refletir sobre as dimensões espirituais numa existência ansiosa e marcada pela velocidade? Parece que a festa de Natal sofreu de uma obsolescência programada e já deu o que tinha que dar. Certamente, se formos olhar pelo ângulo da cultura do excesso e do consumo compulsivo, das compras das baratas tontas de shopping center, precisando de carregadores de sacolas para ajudar a levar o peso das compras aos carros, ele atende e muito bem ao comércio e à indústria. Mas nada de mensagem profética e constrangedora. É preciso domesticar os presépios.

 

E se o Natal fosse mais uma parada para a meditação e a reflexão? Tem muito nutriente inspirador na festa, mas eles não combinam com a superficialidade das cabeças e a compulsão por conectividade e introspecção. Que tal dar uma trégua ao culto na igreja da Santíssima Trindade das Mídias Digitais, a saber, Facebook, Instagram e WhatsApp?

 

Coleciono presépios e sempre me emociona a figura dos incríveis Três Reis Magos e seus camelos. Estes homens míticos e legendários seguiram a estrela de Belém e adivinharam um sentido e uma direção, lendo as estrelas. Levavam consigo oferendas para o Menino Jesus: ouro, incenso e mirra, símbolos mistagógicos de um cristianismo nascente.

 

O que você pediria aos Três Reis?

 

Eu pediria a eles disposição para lidar com mudanças inevitáveis e a preciosa resiliência para operar as metamorfoses da vida. Pediria para me manter com integridade na constante adaptação a cenários imprevisíveis. Pediria flexibilidade para lidar com a incerteza e coragem para transitar na turbulência.

 

Parece que escuto os magos me dizerem baixinho: tomar decisões num contexto ambíguo é um ato de coragem e, por que não, também de fé. O aprendizado vem da ação e, por isso, é importante estar aberto a cometer erros. E refazer as rotas.

 

Feliz Natal!

Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.

Mais artigos

O toque de Midas

Midas, o rei da Frígia, foi um monarca que gozava da fama de ser então o homem mais rico do mundo. No salão dos tesouros do seu palácio acumulava arcas e arcas empanturradas de moedas e barras de ouro, prata, joias e pedras preciosas. Talvez Walt Disney tenha se...

ler mais

A infantilização da fé e do sagrado

Nos anos 70, muitos jovens frequentavam o Mosteiro de São Bento da Bahia, um espaço privilegiado de espiritualidade cristã e intensa experiência cultural. Lembro de uma surpreendente jornada de cinema de arte promovida por Dom Bernardo, um monge beneditino com mente...

ler mais

Brasil 2019: entre Cassandra e Poliana

Pobre Cassandra, ninguém lhe dá ouvidos, ninguém mais acredita em suas profecias, parece que ela só sabe criticar e torcer contra. Por mais que grite e demonstre com firmeza o que está por vir, ninguém aposta uma ficha sequer em  sua clarividência. Ainda que ela...

ler mais

O que você quer ser quando envelhecer?

As conquistas da ciência e da tecnologia alteraram os ciclos da vida humana. As estatísticas comprovam exaustivamente como, ao longo do século 20, décadas de vida foram agregadas a nossa existência. A finitude foi deslocada para a frente: estamos em plena revolução da...

ler mais

Como criar uma seita em oito passos

Há quase trinta anos que trabalho com grupos em organizações pelo Brasil. Uso os óculos teóricos da psicologia do trabalho e da antropologia para compreender e decifrar os problemas de relacionamento internos das tribos empresariais. Tenho observado uma atmosfera...

ler mais

Mentira, fake news e pós-verdrags

A manipulação de sofismas e falácias desafiou o mundo de Sofia, desde os primórdios. Grandes mentes conseguiram decifrar os vestígios do blefe e os truques da mentira. Sócrates, o gigante de Atenas, preferiu sorver o cálice da verdade enquanto os sofistas, artistas da...

ler mais

junte-se ao mercado