Sobre Valores e Valores

nov/2020

Entre as décadas de 80 e 90, uma empresa chamada Talent estava entre as 15 maiores agências de propaganda do país. Para quem não sabe, a Talent foi responsável por criar, durante os anos 80, o clássico “Bonita Camisa Fernandinho” para a marca de Camisas US Top e a campanha memorável “Não é assim nenhuma Brastemp” que mesmo depois de tanto tempo, volta e meia recebe uma nova roupagem.

Apesar do seu mérito criativo, a Talent se destacava realmente por ser uma das melhores agências de Planejamento do mundo. Devia isso ao talento incontestável do seu sócio fundador, Júlio Ribeiro que, além de ser um planejador incrível tinha convicções muito sólidas. Ao fundar a Talent, Júlio prometeu que jamais faria propaganda para empresas de cigarro, bebidas alcoólicas ou governos. Costumava dizer que todos esses faziam muito mal as pessoas. Foi fiel aos seus valores até o final da sua vida, mesmo reconhecendo ter perdido muito dinheiro com essa sua decisão.

Os anos passaram e a Propaganda Brasileira se firmou entre as melhores do mundo. Foi responsável por construir marcas memoráveis e grandes impérios. Como acontece em todas as partes do mundo, é também associada ao estímulo de hábitos consumistas que torna rapidamente obsoleto quase tudo o que compramos, fomentando o desequilíbrio social e ambiental, dizem os mais críticos. Há tempos a propaganda sente necessidade de se reinventar.

Eis que o futuro chega, surge a pandemia e Deus, que na bíblia do Kotler recebe o nome de Forças Macroambientais, resolve sacudir a poeira e acelerar vários processos, especialmente os tecnológicos, ecológicos e sociais. As questões que envolvem sustentabilidade têm sido debatidas constantemente em todo o mundo. Todos observamos a resposta do planeta ao turismo predatório ou as queimadas na Amazônia e Pantanal. As pautas da diversidade nunca foram tão imperativas.

Neste novo mundo não pode haver espaço para o racismo, machismo, homobofia e todas as formas de preconceitos que estruturaram a nossa sociedade desde que o mundo é mundo. Está na hora do reset. A SEMESP propôs resetarmos a educação em seu último congresso. O movimento Imperative 21, grupo formado por grandes empresas globalizadas, está propondo resetar o próprio capitalismo. E onde está você? Onde estamos nós publicitários neste contexto de reviravoltas e transformações? 

A que tipo de negócios você como profissional e/ou empresário da propaganda deseja associar o seu saber, o seu tempo e a sua energia de agora em diante? Não seria a hora de aproveitar a nuvem de poeira para espanar tudo o que nos faz mal e também aos outros? Não seria a hora de entrar mesmo na caverna não apenas para nos autoavaliarmos enquanto indivíduos, mas avaliarmos as configurações mais profundas das atividades profissionais e os seus impactos em todo o ecossistema? Eu acredito verdadeiramente que a propaganda, por meio das escolhas e capacidade consultora que possui, tenha força suficiente para fazer a roda econômica e social girar em outra direção. Pode me chamar de Poliana. Ou melhor, de Júlio Ribeiro.

Alessandra Calheira

Alessandra Calheira

Colunista

Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas, na linha de Cibercultura, pela UFBA; Especialista em Marketing pela ESPM e Publicitária pela UCSal. É sócia fundadora da Proxima e consultora para Gestão Educacional e Empregabilidade da Rede FTC. É ainda professora da Pós-Graduação da UNIFACS e colunista do Bahia Notícias. Atuou como criativa e redatora publicitária quando foi laureada com um Leão no Festival Internacional de Cannes, com uma medalha no Clube de Criação de São Paulo, Top de Marketing da ADVB, entre outros.
Mais artigos

Existe manual de sobrevivência?

Você se sente preparado para o dia de amanhã? Se a resposta é sim, onde estão as orientações? Se a resposta é não, você acredita que há tempo para se preparar? Faço o convite para direcionarmos nossas reflexões ao mercado profissional. Tomo a liberdade de afirmar que...

ler mais

O que querem os negacionistas?

Roque de Itaparica foi o primeiro negacionista com que me deparei em minha vida. Nativo da ilha de Itaparica, era um simpático aguadeiro que ganhava a vida descendo e subindo as ruas calçadas de paralelepípedos da pequena cidade praieira, ainda isenta de carros. Ia de...

ler mais

Home office: hóspede da casa, intruso no lar

A crise precipitada pelo novo coronavírus forçou as empresas a redesenhar suas operações e reinventar a forma como suas equipes trabalham. Por conta das novas regras de distanciamento e isolamento social, muitas organizações tiveram de admitir o home office e o...

ler mais

Quando isolamento rima com amadurecimento

Foi uma bela surpresa para os produtores e artistas do filme O Náufrago, de Robert Zemeckis, de 2000, estrelado por Tom Hanks, passado quase inteiramente na praia de uma ilha deserta, conseguir alcançar um estrondoso sucesso de bilheteria e crítica. O filme tinha de...

ler mais

Fazer o luto, fazer a luta

O enterro de meu irmão mais velho, vítima de Covid, me levou a viver de perto a triste faceta da lógica de regressão e desumanização que está em curso em nosso país, em tempos de pandemia.   Já no hospital, onde ele ficara isolado por duas semanas, ao identificar seu...

ler mais

junte-se ao mercado