Quantos Carros Vermelhos Você Viu Nesta Semana?

ago/2025

Pare por um instante e tente se lembrar: quantos carros vermelhos você viu na rua nos últimos dias? Consegue visualizar? Provavelmente não. A não ser que você seja um entusiasta de carros vermelhos, esse detalhe passou completamente despercebido na sua rotina corrida. É uma pena, porque a nossa capacidade de ignorar o que não nos interessa é a mesma que nos faz perder oportunidades preciosas.

Nós, publicitários, sabemos o quanto a atenção é um ativo escasso. Vivemos em um mercado saturado, onde cada marca, cada campanha, luta por um milésimo de segundo no olhar do consumidor. O carro vermelho, nessa metáfora, é o seu anúncio, a sua mensagem. Ele passa, mas o público, sobrecarregado por boletos, metas e a vida em geral, simplesmente não o registra. A questão é: como fazer com que o carro vermelho seja a única coisa que as pessoas veem na avenida?

O Algoritmo Interno: O Sistema SARA

Na neurociência, a resposta para essa pergunta reside no Sistema de Ativação Reticular Ascendente (SARA). Pense nele como o nosso algoritmo interno, uma espécie de porteiro do nosso cérebro. Localizado no tronco cerebral, o SARA é o filtro que decide quais informações sensoriais – os sons, as cores, os cheiros – são importantes o suficiente para passar para as áreas mais nobres do cérebro, onde a consciência e o processamento de decisão acontecem.

O SARA não é neutro; ele é programado pelo nosso foco. Ele é o nosso algoritmo interno. Aquilo que pensamos, que buscamos, que consideramos relevante, é o que ele “permite” que vejamos. É por isso que, quando você decide comprar um carro de um modelo específico, de repente começa a ver esse carro em todo lugar. Eles sempre estiveram lá, mas o seu SARA, agora calibrado para o seu interesse, finalmente os filtrou e os trouxe para a sua percepção consciente.

Do Carro Vermelho ao Sistema 2: A Jornada da Decisão

O nosso cérebro opera em dois grandes sistemas de pensamento, segundo o neurocientista Daniel Kahneman:

  • Sistema 1: rápido, intuitivo e emocional. É o responsável por decisões automáticas, como desviar de um obstáculo ou reconhecer uma marca conhecida. Ele processa a maioria dos anúncios que vemos.
  • Sistema 2: lento, deliberativo e lógico. Ele é ativado para resolver problemas complexos, analisar prós e contras e tomar decisões importantes, como comprar um carro ou um imóvel.

 

As nossas decisões são invariavelmente influenciadas por fatores emocionais. Basicamente, tomamos a decisão no Sistema 1 e a justificamos no Sistema 2. Pois antes de decidir ou pensar, a gente sente

O nosso objetivo, como profissionais de marketing, é fazer com que a nossa mensagem “passe” pelo Sistema 1, ativando o SARA do público, para que, no momento certo, a decisão seja validada pelo Sistema 2. Como fazemos isso?

  1. Crie Relevância: sua campanha precisa falar diretamente com o que o consumidor está procurando. Entenda seus desejos, seus medos e suas aspirações. Um anúncio que mostra um problema que o consumidor tem e oferece uma solução imediata (ativando o SARA) tem mais chances de ser efetivo.
  2. Use Gatilhos Visuais e Emocionais: as emoções são o combustível do Sistema 1. Uma imagem impactante, uma trilha sonora memorável ou uma história que cria uma conexão emocional ativam o SARA e garantem que a mensagem seja percebida. O carro vermelho, em vez de ser só um objeto, pode ser o símbolo de liberdade, status ou família.
  3. Seja Consistentemente Visível: lembre-se do nosso exemplo do carro. A repetição cria familiaridade e sinaliza para o SARA que a informação é relevante. Estar presente em múltiplos canais, com uma identidade visual forte, reforça a mensagem e aumenta a chance de que ela seja, de fato, internalizada.

De Carona Com Você

Quantos carros vermelhos você, profissional de comunicação, têm deixado passar na sua própria vida?

A ironia é que, assim como o público dos nossos clientes, nós também estamos sobrecarregados. Vivemos no eterno ciclo de apagar incêndios, cumprindo prazos, atendendo a demandas urgentes e nos perdendo nos detalhes operacionais. Somos produtivos, sim, mas será que estamos realmente crescendo? Não é justo ter estudado tanto e trabalhado tanto apenas para “se manter respirando na superfície”, entregando o básico.

Crescer com oxigenação e clareza exige uma pausa. É preciso delegar, pedir ajuda e, mais importante, entender os vieses que conduzem as suas tomadas de decisão e as dos seus clientes. A neuroestratégia não é apenas uma ferramenta para entender o consumidor; ela é o detector que você e sua agência precisam para identificar os carros vermelhos que estão passando na sua frente. Ela oferece a ciência por trás do comportamento humano, permitindo construir estratégias que além de vender, geram conexões autênticas e verdadeiramente eficazes. Ao aplicar a neuroestratégia, você não só cria campanhas melhores, mas também ganha clareza para a sua própria jornada profissional.

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O conteúdo e opinião publicados neste artigo são de inteira responsabilidade do autor ou autora.

Olivia Berni

Olivia Berni

Colunista

Neuroestrategista de comunicação e CEO do Neuro Insights News e da Plenamind

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