Seja bem-vinda Madonna, e volte mais vezes.
Sou educado, mas não me julgue, pois não assisti ao show ou me empolguei com a artista no Brasil. Motivo – não gosto muito desse tipo de evento miraculoso, que envolve mais encenação do que recursos e talentos em si. Todavia, isso não invalida a minha noção de que a artista teve, tem e possivelmente terá um impacto enorme no cenário pop mundial e isso não é um feito de se desprezar, na verdade, é para pouquíssimos.
E não gostar do show, não significa ser incapaz de reconhecer a envergadura da artista em pautar assuntos relevantes social e culturalmente ao longo de toda sua carreira. Ela, definitivamente, foi uma provocadora cultural, pois balizou discussões na área de performance de gênero, grupos minorizados, sexualidade como expressão individual, direito das mulheres e sobre saúde quando tratou e continua tratando de maneira séria o HIV. Além disso, é uma mulher que ocupou e ocupa diferentes lugares em sua profissão e vida pessoal – ela é mãe e mãe por adoção. Por fim, a performance e o sucesso dela é um tapa na cora dos etaristas, que insistem em julgar as pessoas por sua idade.
Lembro de um dos shows da Madonna no Brasil, que foi no Pacaembu (lá se vão anos que prefiro não contar), meus amigos compraram ingressos com antecedência e se prostaram na fila horas antes (horas antes mesmo) do estádio ser aberto. Já na época eu tinha um pouco de preguiça desse tipo de muvuca, porém, eles ficaram maravilhados com a apresentação. Saíram mais fãs do que já eram.
Tenho certeza de que as milhares de pessoas que foram à Copacabana estão pouco se lixando com minha falta de apreço pela Madonna, e dou todo crédito a eles, não têm mesmo que se importar com meu gosto musical ou para eventos.
E o artigo é mais sobre o impacto da marca pessoal dela no cenário mundial, do que minha falta de motivação para ficar horas em pé em qualquer show.
Madonna é um fenômeno mundial, todos sabemos disso. Ela trouxe inovação para a forma de fazer eventos, para os seus conteúdos musicais, para a maneira como tratava cada lançamento, com produtos relacionados, bem como o jeito como alinhava coerentemente a lógica de sua persona à temática do momento. Ela, por si só, é todo um curso de personal branding (curso de longa duração, que fique bem claro).
Os números atuais aproximados demonstram que o show dela gerou mais de 300 milhões de reais na economia do Rio de Janeiro. Uau! Promoveu renda para grandes negócios (hotéis), pequenos negócios (pousadas, hostels, restaurantes, lanchonetes) e para muitos profissionais autônomos em diversas áreas na cidade maravilhosa. Além disso, demonstrou novamente que o Brasil é, por unanimidade, o grande palco mundial para eventos gigantescos, porque temos uma população que veste a camisa, que pula e canta com o artista, e isso sem contar os profissionais competentíssimos para realizá-los.
Por fim, escutei dois comentários em sala de aula (também sou professor universitário) que me fizeram ver o quanto a Madonna ainda é necessária, mesmo que eu não goste muito (ou independente de gostar ou não). Os comentários foram de alunos expressando como seus pais se sentiram horrorizados com a performance da artista no palco, beijando uma mulher trans, simulando sexo oral entre outras coisas.
É, minha gente, estamos em plena segunda década do séc XXI e ainda tem pessoas se chocando com a individualidade alheia, querendo encaixotá-la em normas ultrapassadas. Enfim, eu não gosto, mas que a Madonna traz um respiro de liberdade e de possibilidades de performance, em um mundo dicotimizado por extremos, isso ela traz.
Ainda bem!
Seja bem vinda Madonna e volte mais vezes.
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O conteúdo e opinião publicados neste artigo são de inteira responsabilidade do autor ou autora.

Fábio Caim
Colunista
Branding Creative Thinker
baitech.agency | Branding Dinâmico
Pós-doc, Dr em Comunicação e Semiótica, Publicitário, Psicanalista e Prof. Universitário
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