ENTRE NIETZSCHE E NISKIER. Uma breve reflexão sobre A ALMA IMORAL.

mar/2026

Recentemente, assisti, pela quinta ou sexta vez (não lembro ao certo), a peça A ALMA IMORAL, que, em vias de completar 20 anos, se consolida como uma das peças mais icônicas do teatro brasileiro. E o que impressiona, ainda mais, é o fato de se tratar de monólogo… Pensando bem, nem sei se está correto considerá-la um monólogo, diante dos incríveis diálogos que Clarice Niskier estabelece genialmente com seu público e que constituem – registre-se – parte fundamental da peça. 

Já faz algum tempo que venho buscando conhecer um pouco mais sobre a obra de Friedrich Nietzsche, esse filósofo alemão do século XIX. Nietzsche não é para todos. Suas ideias são, muitas vezes, cruentas. É preciso – como se diz popularmente – ter estômago… E, mesmo assim, nem sempre é possível digeri-las (mas, aqui falo exclusivamente por mim). Apenas para ilustrar o que digo, destaco que, depois de afirmar, em O Anticristo, que “a concepção cristã de Deus (…) é uma das concepções mais corruptas que jamais apareceram no mundo”, Nietzsche assevera que “o homem de fé, o crente de toda espécie, é necessariamente dependente – tal homem é incapaz de colocar- se a si mesmo como objetivo, e tampouco é capaz determinar ele próprio seus objetivos”

Pois bem. Mas, então, o que Nietzsche tem em comum com Niskier (a Clarice)? O que Nietzsche tem em comum com A ALMA IMORAL?

Para quem, eventualmente, ainda não conhece, essa peça teatral foi criada pela Clarice Niskier, a partir do livro de mesmo nome escrito por um rabino… É isso mesmo, Nilton Bonder é um rabino, o que, por si só, sempre me pareceu absolutamente disruptivo. 

Sim, nos quadrantes dos meus paradigmas, o propósito de um rabino – assim como o de outros líderes religiosos em geral, sejam eles ligados ao judaísmo, ao catolicismo ao candomblé, pouco importa… – consiste em promover, essencialmente, a perpetração das tradições.  

Por isso é que Nilton Bonder, ao escrever A ALMA IMORAL, destrói os contornos dos meus paradigmas, o que enseja, de minha parte, os mais sinceros agradecimentos, pelo fato de que essa destruição expande a minha visão de mundo. Bonder nos mostra, da forma mais elegante possível, que um rabino não está necessariamente preso às tradições. Ele pode também provocar reflexões… e essas reflexões podem, até mesmo, culminar com uma transgressão.

Ele muito bem observa que “a luta milenar entre a letra da lei e o espírito da lei são campo de batalha entre duas percepções humanas plenamente legítimas. A letra da lei responde pelo corpo; o espírito da lei, pela alma. A última visa a provar que a desobediência da lei muitas vezes é uma opção mais próxima da lei do que a própria lei”. E prossegue: “Toda lei só se legitima se encerrar um interesse que não seja o de manter a si mesma, a seu corpo, intacto; mas o de expressar declaradamente a preferência por desobedecer (se isso vier a significar respeito) em detrimento de obedecer (se isso representar desrespeito)”.

Não foi à toa, portanto, que, na entrevista que gravei com a Clarice, em meu canal do Youtube, quando perguntei o que mais lhe havia impactado, ao ler o livro, a ponto de imaginar adaptá-lo para o teatro, ela foi claríssima a responder: “a sagrada desobediência”.

Sucede, no entanto, que essa “sagrada desobediência” somente se revela possível, após um momento de reflexão a respeito do seu cabimento. O que me ocorre aqui, portanto, é que mais importante do que essa desobediência sagrada é a reflexão que a sua potencial implementação enseja. A reflexão, portanto, é sempre necessária; a desobediência, por sua vez, mesmo se revelando sagrada, é um subproduto da reflexão.  

Que sejamos, portanto, mais provocados a refletir! Sobre tudo… Que não estejamos tão fechados naquilo que apenas damos como sabido.

É isso. Agora (só agora!), respondo a pergunta proposta linhas acima, propondo que a capacidade de provocar reflexões é o denominador comum entre Nietzsche e Niskier. E, claro, do próprio Bonder…

A ALMA IMORAL é, essencialmente, provocativa; Nietzsche também o é. Não por acaso, ele coloca em xeque os principais ídolos da sociedade de sua época, tomando por “ídolos” não apenas pessoas, como também paradigmas e crenças que se lhes revelavam ultrapassadas e decadentes. 

Em seu Crepúsculo dos Ídolos, reconhecendo que “há mais ídolos do que realidades no mundo”, revela que o seu intuito, com o livro, consiste em provocar reflexão. Em suas palavras, “fazer aqui perguntas com o martelo e ouvir como resposta esse famoso som oco que fala de entranhas inchadas”.

Em suma, é preciso que tenhamos uma atitude mais filosófica perante a vida. Refletir mais; se apegar menos… esta é a proposta.

_______________
O conteúdo e opinião publicados neste artigo são de inteira responsabilidade do autor ou autora.

Bruno Ferreira

Bruno Ferreira

Colunista

Advogado. Mestre em Direito do Estado (PUC-SP). Fundador do Instituto Adupé de Desenvolvimento Humano.

YOUTUBE: @bosferreira
INSTAGRAM: @bosferreira78

Mais artigos

O que a Copa nos lembra sobre marcas que querem pertencer

A cada grande competição esportiva acontece algo fascinante: pessoas mudam suas rotinas, reorganizam agendas, vestem cores específicas, atravessam cidades, acordam mais cedo ou dormem mais tarde apenas para acompanhar um jogo. Do ponto de vista racional, isso nem...

ler mais

Jogada Ensaiada

Faltam apenas 20 dias para o início da Copa do Mundo. No entanto, quem caminha pelas ruas nota um cenário visivelmente mais acanhado do que em mundiais passados. Onde está aquela empolgação avassaladora de outrora?   Nos últimos anos, a tradicional camisa amarela...

ler mais

O Ritmo dos Dias e a Arte do Não

Ontem mesmo estávamos limpando o glitter do Carnaval, prometendo que o ano finalmente começaria. Piscou, e o cheiro de milho assado e fumaça de fogueira já anunciava o São João. Mais um piscar de olhos e as bandeirinhas mudam de cor, a Copa do Mundo bate à porta e a...

ler mais

Eficiência virou argumento, mas ainda é estratégia?

Nos últimos dias, uma palavra voltou a ganhar força no discurso corporativo: EFICIÊNCIA. Ela aparece em anúncios de reestruturação, em movimentos de redução de equipes, em revisões de operação. Surge como justificativa técnica, quase neutra, como se fosse uma decisão...

ler mais

junte-se ao mercado