Investimento para a vida
Uma vez, numa reunião de consultoria de imagem, dessas em que falamos de postura, presença e narrativa, eu fiz algo que costumo fazer: abri um pouco a janela da minha própria história.
Gosto de lembrar que nenhuma imagem se sustenta sem alma. E a alma é feita de travessias.
Falei das minhas mudanças, dos países, das escolhas que não cabem em currículos. Falei do desejo quase infantil de continuar atravessando fronteiras. Ao final, aquela pessoa me olhou com uma serenidade que só quem enxerga além das aparências possui e disse:
“Essa viagem que você está fazendo não é só uma experiência profissional. Não é apenas uma mudança de país. É um investimento para a vida.”
Naquele instante, a frase pousou em mim como quem pousa uma semente na terra. Silenciosa. Pequena. Mas viva.
Hoje, depois de dias vividos no interior da França, em um templo ISKON, entendo que algumas sementes precisam de silêncio para germinar. Assim como a preparação do jardim para o plantio das rosas que florescem na mágica primavera que há lá.
Havia o frio da manhã tocando o rosto. Havia o som de cânticos que eu não compreendia totalmente, mas que me atravessavam. Havia o cheiro de incenso misturado ao pão simples. Havia o desconforto de não dominar o ritmo, os códigos, os rituais.
E havia, sobretudo, o estranhamento.
O estranhamento é uma forma de acordar.
Quando tudo ao redor nos é familiar, dormimos acordados. Repetimos gestos, opiniões, certezas. Mas quando nos tornamos estrangeiros, de crença, de cultura, de lógica, algo dentro de nós desperta. Os olhos se tornam mais atentos. O corpo escuta. O pensamento desacelera.
Viver uma experiência multicultural é aceitar ser aprendiz outra vez.
É perceber que o mundo não gira apenas na cadência que aprendemos. Que o tempo pode ser mais lento. Que o silêncio pode ser mais longo. Que o sagrado pode habitar gestos simples.
Para quem trabalha com criatividade, isso é alimento.
A criatividade não nasce de fórmulas. Nasce do espanto. E o espanto é filho do encontro com o diferente.
Cada cultura é uma forma distinta de organizar a vida: a maneira de sentar à mesa, de cumprimentar, de rezar, de discordar, de amar. Ao tocar esses modos diversos de existir, ampliamos nosso repertório invisível. E esse repertório, silenciosamente, começa a conversar dentro de nós.
Ideias são encontros.
Encontros entre memórias, imagens, sons, cheiros, palavras. Quanto mais vasto o mundo que habita em nós, mais vastas se tornam as combinações possíveis.
Mas há algo ainda mais profundo do que a criatividade profissional.
Abrir-se ao novo é um exercício de humildade. É admitir que nossas certezas são pequenas diante da vastidão do mundo. É reconhecer que há sabedoria onde antes víamos apenas diferença. É permitir que o outro nos ensine, mesmo quando não fala nossa língua.
Essa abertura nos torna mais humanos.
Mais sensíveis. Mais cuidadosos. Mais conscientes de que nossa forma de viver não é a única.
Talvez seja isso que aquela frase queria dizer.
Investir na vida não é acumular experiências como quem coleciona selos. É permitir que cada experiência nos transforme. É aceitar que, ao atravessar fronteiras geográficas, também atravessamos fronteiras internas.
No templo, entre cantos e silêncios, percebi que estava aprendendo algo que nenhuma estratégia de mercado ensina: a arte de desacelerar para enxergar.
E quando enxergamos mais, criamos melhor. Quando sentimos mais, comunicamos com mais verdade. Quando vivemos mais mundos, imaginamos mais possibilidades.
Hoje, compreendo que aquela frase não era sobre carreira internacional. Era sobre expansão da alma.
Há viagens que nos levam a outros lugares. E há viagens que nos levam a outros modos de ser.
As primeiras mudam o endereço. As segundas mudam o olhar.
E mudar o olhar é, talvez, o mais precioso investimento que alguém pode fazer para a vida inteira.
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O conteúdo e opinião publicados neste artigo são de inteira responsabilidade do autor ou autora.
Emanuel Bizerra
Colunista
Comunicólogo e ecologista, especialista em consumo, marcas e comunicação. Observador da vida cotidiana e amante da natureza, escrevo quando pede o coração.
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