Antes alguém dizia. Hoje, você escolhe.
Assisti a The Devil Wears Prada quando morava fora do Brasil e, naquele momento, eu não imaginava o quanto o mundo — e o consumo — mudariam dali pra frente. Já ali, de alguma forma, existia uma provocação silenciosa sobre adaptação. E, olhando hoje, fica claro: adaptar-se deixou de ser uma escolha e passou a ser uma condição.
No primeiro filme, a moda era quase uma hierarquia. Poucas vozes definiam o que era tendência, e veículos tradicionais tinham o poder de legitimar desejos. Revistas como a Runway não apenas comunicavam — elas determinavam. O consumidor observava, aspirava e, quando possível, reproduzia. Existia uma distância entre quem criava e quem consumia. E talvez justamente essa distância sustentasse o desejo.
Consumir, naquele contexto, era querer pertencer a um universo mais sofisticado, mais inacessível. A lógica era vertical: poucos influenciavam, muitos seguiam.
Agora, ao olhar para o contexto atual — e para o que um possível The Devil Wears Prada 2 representa — esse cenário se transforma completamente. A centralidade da mídia tradicional se dissolve. O poder se fragmenta. As redes sociais colocam o consumidor no centro: ele não apenas consome, mas cria, valida e distribui tendências.
O tempo acelera. O ciclo do “novo” encurta. O que ontem era tendência, hoje já parece ultrapassado. A inspiração deixa de ser distante e passa a ser imediata, acessível, replicável.
Mas existe um ponto importante — e talvez desconfortável: com mais acesso, não necessariamente temos mais consciência. A abundância de referências pode gerar ruído, ansiedade e um consumo menos refletido.
Se antes a pergunta era “o que está na moda?”, hoje ela precisa ser outra: “o que faz sentido pra mim?”
E é aqui que a adaptação ganha um novo significado. Não se trata de seguir tudo. Mas de entender o contexto, filtrar excessos e fazer escolhas mais intencionais.
Porque, no fim, a maior mudança não está na moda, nem na mídia.
Está na forma como cada um de nós se posiciona diante do que consome.
Antes, alguém dizia o que usar.
Hoje, a responsabilidade — e a escolha — são nossas.
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Diego Oliveira
Colunista
Diego Oliveira é pensador em marketing, professor e coordenador acadêmico da ESPM, além de doutorando em Comportamento do Consumidor. Colunista do Meio & Mensagem, Let’s Go e ABMP, e palestrante na ETD, pesquisa e debate temas como Brasil Plural, protagonismo digital e comunicação em tempos de incerteza.
Criador dos movimentos Isokan e Qual é o seu Plano A?, além do projeto #DiegoQueDisse, acredita nos múltiplos Brasis — diversos, potentes e em movimento — e conecta inovação, diversidade e impacto social para transformar dados em cultura, decisões mais humanas e caminhos de futuro.
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