Deixe de ser útil pra quem só deseja sua utilidade

fev/2025

Quanto tempo você necessita para perceber que alguém não nutre sentimentos verdadeiros por você, e está só interessado na sua utilidade?

Não é algo fácil de identificar… porque ficamos presos às nossas projeções do que gostaríamos que a relação fosse. Inventamos a relação, criamos o significado do outro…muito baseado na nossa idealização do que queríamos com aquela relação. Afinal, muitas relações que estabelecemos são fruto do nosso desejo do que sonhávamos ter na vida, e moldamos, muitas vezes tão animados, esses laços, sem enxergarmos o que vem do outro, o que recebemos da outra parte, o quanto de investimento nesse vínculo está sendo recíproco, ou não. Então, para evitar encarar a realidade, abraçamos nosso desejo em torno dela, arrastando o que vem do outro, num rastro do que projetamos que essa relação seria.

E isto não é só sobre relação de amor. Aliás, é sim! É sobre relação de amor, porque as relações devem ser construídas a partir de um sentimento amoroso, genuíno, sobre a oportunidade do vínculo; é sobre relação a 2, porque as relações envolvem você e um outro; mas, o que eu estou querendo dizer aqui, é que este texto deve ser um estímulo a você refletir sobre todas as suas relações: conjugais, de trabalho, de amizade, de coleguismo, de vizinhança, de fratria, e de parentalidade, também.

Já pensaram quantos vínculos existem dentro da sua própria família? E no condomínio em que você mora, ou no lugar no qual trabalha, quantos vínculos se formam?
Deixar de ser útil para quem só quer sua utilidade é uma forma de reconhecer o seu valor e não se colocar como um objeto de uso.
Pessoas são ingratas conosco porque projetamos uma expectativa de gratidão e de trocas nas relações que nutrimos. Mas, fique atento, porque desejar não criar expectativas já é uma expectativa!

O melhor é você pensar no que é confortável, para você, oferecer; no que você tem condições emocionais e financeiras de dar; no que, realmente, você consegue dispor ao outro nessa relação, sendo algo que você faz porque é da sua natureza fazer, e que, se não fizesse, não seria você! Você não se reconheceria se fizesse diferente do que está fazendo!

Essa é uma medida inteligente e respeitosa nas relações: ser e dar o que você se maltrataria, se não oferecesse; dar POR VOCÊ, antes de tudo, e não, PELO OUTRO antes de você.

Quantas coisas você já fez pelo outro, se machucando, se ferindo, ultrapassando seus próprios limites, financeiros e/ou emocionais, para não o frustrar? E, em troca, recebeu a frustração de não receber a gratidão do outro porque ELE iria se ferir, caso desse. Compreendeu? SE ferir!
A gente tem o costume de esperar pela gentileza, sem priorizarmos sermos gentis conosco.
Fique alerta quanto ao excesso de generosidade nas relações! A pessoa pode se acostumar a esperar o que você já oferece, passando a contar com aquilo, por antecipação, se achando no direito de ter o que você fornece, que pode se transformar num vício do qual a pessoa não consegue mais se imaginar sem, e, se a situação te leva à percepção de que não está existindo reciprocidade, e você, por acaso, decide parar, o que você vai receber em troca é ressentimento. A pessoa passa a se sentir injustiçada, por ter se acostumado a receber, de você, o que recebia, podendo se revoltar contra você, que negou-se a nutri-la do que ela acreditava que merecia de ti.

Então, reconheça, a todo tempo, o seu limite de DAR, porque, muitas vezes, as pessoas não têm limites para o RECEBER.

O equilíbrio das trocas, entre o DAR e o RECEBER, é que deve definir, na verdade, a profundidade e a durabilidade das relações.
Com base na confiança, por vigilância, fiscalize a percepção de valor do outro sobre o que você oferece, para não cair na armadilha da desvalorização. Afinal, afeto sem reciprocidade é, de fato, na verdade, auto-sabotagem. Invista em quem te valoriza e te respeita. Não espere validação. Somos nós que ensinamos aos outros a maneira que merecemos ser tratados. Cuide bem de você! Reconheça seu valor.

Não se coloque como objeto de uso.

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O conteúdo e opinião publicados neste artigo são de inteira responsabilidade do autor ou autora.

Sinara Dantas Neves

Sinara Dantas Neves

Colunista

@acuradoraferida
Doutora e pós doutoranda em Família na Sociedade Contemporânea (UCSaL-BR/ ICS- Universidade de Lisboa – PT);
Mestre em Psicologia (USP); Psicoterapeuta sistêmica (ABRATEF 206-BA); Professora universitária há 23 anos;
Pesquisadora da Conjugalidade; Escritora; Palestrante;

Mãe, amante da sua profissão e apaixonada por gente!

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