Eu, também, não ganhei na megasena da virada
Se você, assim como eu, não teve a sorte de ser dono de uma das 5 apostas premiadas (117 milhões para cada uma), seja bem vindo ao clube e exercitemos juntos nosso direito momentâneo à lamentação e à reflexão sobre o que isso pode dizer a respeito da nossa sociedade.
Segundo informações da Agência Gov de 31/12/23, A 15ª edição da Mega da Virada registrou mais de 485,25 milhões de apostas em todo o país, totalizando mais de R$ 2,42 bilhões em arrecadação, 23,9% a mais do que no ano passado.
Realmente, impressionante. Não há disponível, pelo menos na pesquisa simples que fiz, informações sobre a média de apostadores para esse evento. E não é possível fazer a conta de um para um, já que um mesmo apostador pode realizar incontáveis apostas, além disso, o país não tem 485 milhões de pessoas.
Ainda assim, vamos “chutar” que estejamos pensando na casa de milhões de apostadores. Bem provável que o “chute” seja certeiro.
E o que isso significa?
Há milhões de pessoas desesperadas com suas situações econômicas? Há milhões de pessoas insatisfeitas com suas condições? Há milhões de pessoas infelizes e necessitando de ajuda?
Pobreza No Brasil
Segundo dados publicados pela CNN em 06/12/2023, com base no IBGE, o Brasil tem um contingente de 67,8 milhões de pessoas vivendo na pobreza, ou seja, sobrevivendo com algo em torno de R$ 21,23/dia. Os que vivem na extrema pobreza são 12,7 milhões e sobrevivem com R$ 6,67/dia.
Isso significa que dos 207,7 milhões de brasileiros (IBGE), 38,7% vivem em situação precária. Não deixe o percentual frio lhe afastar da verdade do número, são mais de 80 milhões de pessoas nesse contexto. Comparativamente, seria necessário somar os três estados mais populosos do Brasil (SP, MG e RJ) com mais algumas pessoas para chegar aos 80 milhões.
Voltando aos dados da Agência Gov, o país tem mais ou menos 10 milhões de pessoas que não sabem ler e/ou escrever, isso não contabilizando as pessoas com formação precária e baixa competência nesse campo.
O último PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), que foi de 2022, não demonstrou avanços em relação à última aplicação feita em 2018 (antes da pandemia). O que por si só não é nada bom, já que os dados são ruins. De forma geral, em um ranking composto por 81 países, o Brasil se encontra em 65º lugar em Matemática; 61º lugar em Ciências e 53º lugar em Leitura.
Pobreza e Consumo
O Brasil tem avançado muito na proteção dos direitos do consumidor, desde o Código de Defesa do Consumidor criado em 11/09/1990, pela Lei nº 8.078 até a criação dos Procons e outros órgãos. Todavia, a grande defesa efetiva é a educação. Pessoas com maior nível de instrução tendem a optar e exigir melhores serviços e produtos, inclusive, por terem acesso e conhecimento sobre seus direitos.
Desta forma, para 2024 eu gostaria muito de ver um avanço nas políticas educacionais que formam cidadãos e não apenas consumidores, apesar desses dois papeis não mais se desassociarem.
Nestor Garcia Canclini afirma – a luta pela cidadania passa pelo acesso à condição de consumidor (livro – Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globalização), portanto, para além da demanda por uma cidadania mais plena, atravessada e suportada pelo acesso ao voto e pela atuação correta das instituições democráticas, é preciso que o mercado e seus diversos players compreendam suas responsabilidades na formação dos cidadãos e não apenas dos consumidores.
A cidadania deveria permear todos que vivem em nosso país, por outro lado, o consumo é privilégio somente daqueles que têm poder aquisitivo para realizá-lo.
Empresas e marcas possuem obrigações para com os cidadãos da nação e não somente para com os consumidores. Essa responsabilidade empresarial e marcária deveria passar pela lógica: se ganho com eles (consumidores e cidadãos), eles também devem ganhar comigo. Essa estrutura básica ajudaria a tornar a sociedade mais digna para todos.
Precisamos de um país onde o objetivo coletivo e individual seja conquistar a plena cidadania, com o direito a uma educação de qualidade e não ser premiado pela sorte.
Sendo assim, o que desejo para 2024 é que a megasena da virada tenha pouquíssimas apostas.
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O conteúdo e opinião publicados neste artigo são de inteira responsabilidade do autor ou autora.

Fábio Caim
Colunista
Branding Creative Thinker
baitech.agency | Branding Dinâmico
Pós-doc, Dr em Comunicação e Semiótica, Publicitário, Psicanalista e Prof. Universitário
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