O Ritmo dos Dias e a Arte do Não
Ontem mesmo estávamos limpando o glitter do Carnaval, prometendo que o ano finalmente começaria. Piscou, e o cheiro de milho assado e fumaça de fogueira já anunciava o São João. Mais um piscar de olhos e as bandeirinhas mudam de cor, a Copa do Mundo bate à porta e a gente se pega olhando para o calendário com uma mistura de incredulidade e leve desespero. Para onde foi o primeiro semestre? Quem soltou o freio de mão do mundo?
A sensação de que o tempo está correndo em velocidade máxima não é delírio coletivo. É o compasso da vida moderna, onde os dias parecem ter menos de vinte e quatro horas e os meses passam como posts num feed infinito. Diante dessa pressa que ninguém contratou, mas todo mundo cumpre, fica o eco de uma pergunta essencial: o que você está fazendo com o seu tempo?
Não me refiro aqui àquela cobrança corporativa e sufocante por produtividade. Não se trata de bater metas, acordar às cinco da manhã ou acumular diplomas. A questão é muito mais íntima e profunda. É sobre presença. Em meio a esse turbilhão, o que estamos, de fato, escolhendo viver?
O tempo não para, mas a gente não precisa correr na velocidade dele apenas por inércia.
Quando tudo é urgente, nada é prioridade. E nessa ciranda de dias atropelados, vale o questionamento: para quem estamos dizendo “sim”? Muitas vezes, engolimos sapos e aceitamos convites por pura obrigação social, enquanto os nossos próprios desejos ficam guardados na gaveta dos planos adiados.
O acúmulo não é apenas de objetos, mas de pesos emocionais. O que estamos insistindo em carregar que já não faz o menor sentido? Relações mornas, mágoas antigas, expectativas alheias, culpas que já deveriam ter caducado. A verdade é que a vida vai ficando curta demais para carregar malas pesadas. O que já não cabe mais na sua rotina, na sua casa, na sua alma?
O tempo voa, é verdade, mas o piloto ainda somos nós.
Tenho aprendido, a duras penas e com alguma maturidade, a dizer sim para mim. E esse sim não é egoísmo; é sobrevivência. Significa escolher a calmaria em vez do caos, a conversa sincera em vez do evento badalado, o descanso sem culpa. E, ao mesmo tempo, tenho compreendido que tudo e todos que não fazem sentido na minha jornada também merecem um não. Um não firme, gentil e definitivo. Afinal, abrir mão do que nos desgasta é a única forma de abrir espaço para o que nos preenche.
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Diego Oliveira
Colunista
Diego Oliveira é pensador em marketing, professor e coordenador acadêmico da ESPM, além de doutorando em Comportamento do Consumidor. Colunista do Meio & Mensagem, Let’s Go e ABMP, e palestrante na ETD, pesquisa e debate temas como Brasil Plural, protagonismo digital e comunicação em tempos de incerteza.
Criador dos movimentos Isokan e Qual é o seu Plano A?, além do projeto #DiegoQueDisse, acredita nos múltiplos Brasis — diversos, potentes e em movimento — e conecta inovação, diversidade e impacto social para transformar dados em cultura, decisões mais humanas e caminhos de futuro.
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