Covid, finitude e velhice: o retorno das perguntas radicais

jun/2021

Não se envelhece para morrer, mas para saciar nossos corações de vida, diz o cardeal e poeta português dom José Tolentino de Mendonça em artigo que questiona a obsessão secular da humanidade em busca da juventude eterna. A pandemia escancarou ainda mais o drama da velhice em nosso tempo. O alvo preferencial do vírus na Europa, no começo da pandemia, foram os asilos de idosos onde centenas de idosos foram vítimas da Covid. Sobre os sofrimentos do distanciamento social ele diz: A solidão queima-nos e o grau de resistência das pessoas à solidão tem que ser repensado. Se os idosos são frágeis, são também resilientes.”

Homero já dizia na Antiguidade que a velhice era um tempo repugnante e Alexandre, o Grande, no século IV a.C., procurava por toda a Grécia um rio encantado que revertesse o seu envelhecimento.

Um milênio e meio depois estas águas milagrosas vão ressurgir no imaginário europeu e o Velho Mundo será arrebatado pelos relatos fantásticos sobre misteriosa fonte escondida nas florestas das terras selvagens americanas – que mais tarde será chamada Flórida. A descoberta da fonte foi atribuída ao espanhol Ponce de León e suas águas mágicas possuíam o poder de restaurar vigor do corpo, renovar a memória e curar enfermidades. O fascínio pela juventude contrasta com o desprezo à velhice e o medo da finitude.

Na mitologia grega os deuses permaneciam eternamente jovens, jamais perdiam vigor e beleza corporais nem eram subjugados ao tempo, às rugas e à deterioração.

Ao final da Segunda Guerra mundial, em 1945, morria-se aos 45 anos. Somente em lugares recônditos, como algumas ilhas do Japão e vilas às margens do Mar Mediterrâneo, havia registro de octogenários ou mais velhos.  A longevidade só aconteceu por conta do saneamento básico, o progresso da pesquisa epidemiológica e a disseminação das vacinas, alvo das campanhas obscurantistas atuais. Sem vacinas não haveria a faixa bônus de mais de 30 anos em média que alcançamos, a partir do final do século XX.

No antigo Egito, os faraós queriam ir mais além da manutenção da juventude, almejavam a imortalidade. E investiram tesouros na pesquisa sobre a arte da mumificação. Sem falar nas antológicas pirâmides às margens do Nilo, a mansão onde eles acreditavam que iriam viver por saecula seculorum, junto aos seus serviçais.

De volta aos mitos greco-romanos, a ardilosa sibila de Cumas ousou pedir a Apolo viver mil anos por cada grão de areia que lhe mostrasse. Apolo concedeu-lhe o dom da imortalidade e ela ficou reluzente de felicidade. Esqueceu-se, contudo, de pedir ao deus a eterna juventude e começou a envelhecer, virando uma figura decrépita, disforme, sem poder morrer jamais. Passou a viver presa numa gaiola na caverna de Cumas, na Itália, onde os visitantes escutam seus gritos desesperados: – Quero morrer!

A moral da história é que, depois de um tempo, precisamos desaparecer. E a finitude é um bálsamo.  Basta ver o rosto melancólico dos vampiros, sentenciados à imortalidade, implorando por sangue e pela morte. Todos, desde Nosferatu e Drácula, passando pelo trio de galãs bonitões de Hollywood – Tom Cruise, Brad Pitt e Antonio Banderas – estrelas de Entrevista com o vampiro (1994), se arrastam pelos séculos tristes, infelizes, taciturnos, desolados, sorumbáticos, deprimidos, desgostosos e amargurados – porque não gozam da bem-aventurança da finitude.

Anos depois, em 2011, uma nova geração de vampiros teens vai imperar nas telas com a saga Crepúsculo e Amanhecer. Ávidos de sangue, ainda que jovens e encantadores, repetem a mesma  melancolia kármica dos seus antecessores.

O genial escritor Oscar Wilde em sua obra O retrato de Dorian Gray joga com esta obsessão pela juventude e o horror ao envelhecimento. A história de Dorian, um dândi inglês, narcisista e presunçoso, apavorado com o envelhecimento futuro, aceita vender sua alma em um pacto sombrio para que permaneça jovem para sempre e, em seu lugar, um retrato fique com as marcas da velhice.

Talvez seja Peter Pan, personagem do romance de J. M. Barrie, lançado em 1911, quem matou a charada e melhor explique o repúdio ao amadurecimento com uma solução ingênua para o problema: escapar para a Terra Do Nunca, um lugar mágico para onde as crianças que não querem crescer possam viver aventuras com piratas, crocodilos, fadas, playstation, games e vídeos do tiktok, forever.

Quem não acredita nisso só tem um jeito: apelar para a toxina botúlica da vaca, vulgo Botox, ou o bisturi das velhas cirurgias plásticas, com cuidado para não deixar o rosto ficar parecido com uma empada de padaria, como alfineta a atriz Cássia Kiss.

Esse giro de drone histórico-antropológico sobre vampiros, faraós, sibilas e Botox serve para relembrar algumas representações culturais de nossa condição de animais medrosos em relação à morte e ao morrer e ter noção do pânico diante da fugacidade da vida e da impermanência. Não é fácil se deparar com o prazo de validade de nosso corpo, seus limites e sua inexorável finitude.

Se a maré já não era boa para os mais velhos, atualmente, na onipresente cultura digital dos três AA – automação, algoritmos e inteligência artificial – parece que as coisas pioraram.  Exceto para quem tiver a audácia de encarar a velhice como envelhescência, inserindo uma atitude de aprendizagem, cuidado de si e se esforçando para se tornar ageless.  Os mais velhos ainda sustentam os três EE: empatia, emoção e ética, provavelmente valores cringe.

O cardeal poeta português Dom Tolentino acredita que, com o exílio doméstico provocado pela pandemia, algumas perguntas filosóficas retornaram. O ritmo menos acelerado da vida, os constantes lutos e perdas, as incertezas e o exercício diário de resiliência e relativizações nos forçaram a refletir sobre velhas questões sobre o sentido da vida, suas prioridades, o que queremos e o que tememos. Aposta que houve uma melhora na qualidade das perguntas, pois o valor da vida retomou sua prioridade.

Difícil acreditar nisso numa sociedade de desempenho e cansaço, na qual só tem valor quem produz e quem consome, própria para jovens. Ele toma emprestado um verso de James Hilmann para inverter a lógica de exclusão da velhice: “Envelhecendo eu revelo o meu carácter, não a minha morte. ”

 

 

(1) https://dasculturas.com/2020/04/29/honra-os-teus-velhos-cardeal-jose-tolentino-de-mendonca-in-jornal-expresso/

(2) https://www.centroloyola.org.br/revista/em-cena/um-livro/1415-elogio-da-sede

(3) https://www.youtube.com/watch?v=K_Pl1weJbBE

 

 

Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
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