Vinte e nove horas de silêncio: em vez de medo, orgulho…

jun/2022

A leitura dos “silêncios” e o que eles revelam: por que precisamos quebrar o silêncio?

 

“O óbvio precisa ser dito”. Este é o tom de mais um mês em que, ainda, precisamos reafirmar a dignidade das pessoas dissidentes da cis heteronormatividade estruturalmente imposta. Não é como se a cada ano comemorássemos avanços, mas precisamos repetir a reivindicação de direitos básicos. Deveria ser um mês celebrativo, mas ainda tem viés de denúncia; ainda precisa pesar. Em tons jocosos, cita-se a letra “gay também é gente” (da música de Mamonas Assassinas), mas em campos de discussões que se propõem a ser sérias, esse ainda é o tipo de argumento que precisa ser usado. “Somos humanos, temos direitos”. Não é óbvio? Deveria ser… mas o óbvio precisa ser dito! Precisamos quebrar o silêncio!

Então, digamos… e sejamos diretos: o Brasil ainda é o país que mais mata pessoas LGBTQIA+ no mundo – uma a cada 29 horas, segundo dados de levantamento anual feito pelo Grupo Gay da Bahia (GGB). No já “tradicional” Mês do Orgulho LGBTQIA+, costumamos nos deparar com os mesmos questionamentos que só reforçam os porquês de ainda ser tão necessário termos datas que deem visibilidade às questões ligadas a diversidade sexual e de gênero. Algumas pessoas insistem em uma falsa simetria, pautando, por exemplo, o “Dia do Orgulho Hétero”, que chegou a virar projeto de lei em cidades como Rio de janeiro, São Paulo e Paraíba, aprovado, em primeiro turno, pela Câmara de Cuiabá. O orgulho é o sentimento que se opõe ao medo… então, quem pode reivindicar o orgulho? Quem tem medo? A resposta: quem está em perigo. Precisamos quebrar o silêncio!

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), levantou números inéditos sobre a população LGB (sim, apenas Lésbicas, Gays e Bissexuais, sem contemplar outras letras da sigla) no Brasil. Emblematicamente, às vésperas do Mês do Orgulho, os dados foram divulgados e repercutiram, gerando uma série de discussões a respeito de sua representação e representatividade. Além do que se pode afirmar sobre os resultados quantitativos da pesquisa, existe muito que se pode dizer, também, sobre as entrelinhas e subjetividades. Essa é a leitura que realmente importa e precisamos quebrar o silêncio!

Segundo o IBGE, 1,9%, (2,9 milhões de pessoas), declaram-se como homossexual ou bissexual no Brasil. Considerando que essa coleta foi feita em 2019, logo após a alçada do conservadorismo, é possível apontar para os motivos pelos quais, de acordo com a mesma pesquisa, 3,4% da população (5,3 milhões de pessoas) não souberam e/ou não quiseram responder. Os números do IBGE parecem, pelo menos, inverossímeis, se observarmos, por exemplo, que, somente a Parada LGBT de São Paulo (a maior do mundo), que aconteceu em 19 de junho de 2022, reuniu, segundo a organização do evento, o público recorde de 4 milhões de pessoas. Um levantamento feito pelo Observatório de Turismo e Eventos, da São Paulo Turismo (SPTuris), durante a Parada, aponta que 19,1% (764 mil pessoas) do público presente se declarara heterossexual, enquanto 81% (3,2 milhões) se identifica como homossexual, bissexual, pansexual e ainda com outras orientações. Será que todas as pessoas LGBTQIA+ do Brasil estavam presentes na Parada de São Paulo? A quem interessa fazer crer que a população LGBTQIA+ é uma minoria quantitativa no Brasil? Nós precisamos quebrar o silêncio!

A Geografia (e correlatos) é outro dado importante a ser lido. A pesquisa do IBGE dá conta de que a região Sudeste registra o maior percentual (2,1%) de homossexuais ou bissexuais, enquanto o Nordeste tem a menor porcentagem (1,5%). Se cruzarmos esses números com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das regiões (que observa aspectos de escolaridade, renda e saúde), também fornecidos pelo IBGE, os menores IDH do Brasil se concentram justamente nas regiões Norte e Nordeste. E o que isso tem a ver com a sexualidade das pessoas? Basta analisar os seguintes dados da pesquisa recente: a população de homossexuais ou bissexuais é maior entre os que têm nível superior (3,2%), maior renda (3,5%) e idade entre 18 e 29 anos (4,8%). A vulnerabilidade da população LGBTQIA+ é um projeto que se associa na interseccionalidade de outras lutas minoritárias; existe uma intrínseca relação entre todas essas litas e desassociá-las (e enfraquecê-las) só interessa a quem possui o status de dominação e privilégios. Precisamos quebrar o silêncio!

Em 2021, pelo menos 300 pessoas LGBTQIA+ foram silenciadas de forma violenta no Brasil. Uma a cada 29 horas… vítima de crime de ódio apenas por serem LGBTI. Essa informação, subnotifcada, choca. Choca e alerta: “existe ‘pena de morte’, sim, para LGBTIs no Brasil”. Depois de erguerem a voz, pelo menos 300 pessoas foram silenciadas… e na, também subnotificada, pesquisa do IBGE, pelo menos 5,3 milhões de pessoas também silenciaram. O que esses silêncios revelam? Que o Brasil não é seguro para esta população. Que o medo ainda é o sentimento que move pessoas LGBTQIA+ neste país. Que, se o orgulho é o sentimento que se opõe ao medo, precisamos trabalhar arduamente para que essa população consiga superar o medo, se orgulhar, erguer a voz. “Quem cala consente”, dizem. Diante do que os silêncios revelam, qual o seu posicionamento? Precisamos quebrar o silêncio!

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O conteúdo e opinião publicados neste artigo são de inteira responsabilidade do autor ou autora.

Alan di Assis

Alan di Assis

Colunista Convidado

Comunicólogo/jornalista, MBA em Marketing Estratégico, gestor de comunidade, produtor e consultor em Diversidade

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