Atenção: o novo ouro do marketing (e o novo caos da mente)

out/2025

Você já percebeu que a nossa atenção está desaparecendo em câmera lenta?
A cada scroll, um pedaço do nosso foco se dissolve em meio a uma avalanche de estímulos. Vivemos na era da hiperconectividade e, também na era da hiperdistração. E o mais curioso é que, enquanto lutamos para manter um mínimo de presença mental, marcas, influenciadores, algoritmos e até colegas de trabalho competem pelo mesmo bem escasso: a nossa atenção.

No marketing, a atenção sempre foi o ponto de partida — mas agora ela se tornou o próprio produto. É vendida, comprada, medida em segundos de permanência e milissegundos de visualização. A economia da atenção transformou cliques em moeda, engajamento em status e o tempo humano em capital de dados. Mas, em meio a tanto ruído, talvez tenhamos esquecido de algo essencial: atenção não é apenas foco, é afeto.

A neurociência nos lembra que a mente humana não foi projetada para processar tamanha sobrecarga. Nosso cérebro adora novidade, mas precisa de pausa para consolidar sentido. Quando exposto a estímulos constantes — notificações, vídeos curtos, múltiplas abas abertas — ele entra em modo de sobrevivência cognitiva. Perdemos profundidade, empatia e capacidade de discernimento. A dopamina que sentimos ao receber um “like” é prazer rápido, mas também combustível para um ciclo de exaustão e ansiedade.

O paradoxo é cruel: nunca tivemos tanto acesso à informação, e nunca estivemos tão desatentos. O marketing, que deveria traduzir o comportamento humano, acabou refletindo o pior da pressa contemporânea. Passamos a produzir campanhas que disputam espaço em timelines saturadas, com slogans que prometem o mundo em 6 segundos — e que desaparecem na próxima rolagem. A comunicação se tornou um jogo de sobrevivência entre estímulos, e não mais um espaço de construção de significado.

Mas há uma boa notícia: estamos começando a nos cansar disso. O consumidor — ou melhor, o ser humano que existe antes do consumo — está buscando o silêncio, a pausa e a autenticidade. Ele não quer mais marcas que gritam, mas aquelas que conversam. Não busca apenas produtos, mas experiências que façam sentido. Quer menos “push” e mais propósito, menos interrupção e mais intenção.

É curioso observar como o marketing, ao longo da história, sempre acompanhou os ciclos de desejo humano. Já tivemos a era do status, da performance, da personalização. Agora, talvez estejamos entrando na era do cuidado — não aquele cuidado “fofinho” das campanhas de autoajuda corporativa, mas o cuidado genuíno com o tempo, com o emocional e com o mental do outro. Cuidar da atenção do outro será, em breve, o novo luxo da comunicação.
As marcas que entenderem isso sairão na frente, não porque dominaram o algoritmo, mas porque respeitaram a mente. Criar estratégias que diminuam o ruído — e não o ampliem — será o verdadeiro diferencial competitivo. A criatividade que humaniza vale mais do que a que viraliza.

Para os profissionais de marketing, comunicação e negócios, o desafio é reaprender a criar com consciência. Antes de lançar uma nova campanha, vale a pergunta: estamos inspirando ou apenas interrompendo? Estamos oferecendo valor ou drenando energia? Estamos despertando atenção ou sequestrando foco?

Em tempos de excesso, a simplicidade se torna revolucionária. Uma mensagem clara, um gesto autêntico, uma história verdadeira podem gerar mais impacto do que mil reels sincronizados com o trend da semana. É hora de resgatar o poder da pausa, do silêncio estratégico e da empatia criativa.

A atenção é o novo ouro — mas um ouro que não se cava, se conquista.
E como todo ouro, ela pode corroer ou iluminar, dependendo de como é usada.
Que o marketing do futuro seja mais humano, menos invasivo. Que aprenda com a neurociência o valor da pausa e com a psicologia o poder do vínculo. Que compreenda que atenção é tempo — e tempo é vida. No fim das contas, comunicar é cuidar. E talvez, nesse cuidado silencioso e inteligente, esteja o verdadeiro futuro da nossa área.

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O conteúdo e opinião publicados neste artigo são de inteira responsabilidade do autor ou autora.

Erika Buzo Martins

Erika Buzo Martins

Colunista

Coordenadora do Curso de Administração da ESPM-SP e Diretora de Ensino e Pesquisa da Angrad.

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