O Carnaval da autenticidade
O Carnaval é o palco da autenticidade brasileira — mas também o espelho de suas contradições. É o momento em que todos se sentem livres para ser quem quiserem, e justamente por isso, é quando mais se revela o que somos. Máscaras, purpurina, cores e exageros misturam-se num grande espetáculo de identidade. E o marketing, claro, quer desfilar junto.
Nos últimos anos, “autenticidade” virou palavra de ordem. Marcas se autoproclamam verdadeiras, influenciadores defendem o “ser real” e o público diz valorizar quem “é de verdade”. Mas a autenticidade, quando performada, se torna o oposto de si mesma. Ser autêntico não é se expor o tempo todo, nem ser transparente de forma calculada — é estar inteiro, mesmo quando imperfeito.
O Carnaval nos ensina algo valioso: a liberdade de ser múltiplo. E talvez o marketing precise aprender isso também. Nem toda marca precisa ser sempre coerente, desde que seja honesta sobre sua jornada. O consumidor moderno não busca perfeição; busca conexão. Ele entende tropeços, aceita ajustes, mas rejeita falsidade. O público perdoa erros, mas não perdoa disfarces.
Vivemos tempos em que a imagem é medida em curtidas e a identidade em filtros. O que antes era performance artística virou performance de vida. O problema é que, ao tentar mostrar o “eu autêntico”, muitos acabam criando uma nova fantasia — um personagem com aparência de verdade. E as marcas, movidas por métricas de engajamento, fazem o mesmo.
Autenticidade não se constrói em laboratório de branding. Ela nasce do alinhamento entre discurso e prática. Quando o propósito é vivido, a comunicação se torna consequência. É o que acontece com marcas que assumem suas causas com coerência, sem oportunismo, e com pessoas que compartilham o que acreditam, sem medo de não agradar todo mundo. Autenticidade é quando a vulnerabilidade não assusta, mas inspira.
O Carnaval é um lembrete: ser verdadeiro não é ser constante, é ser presente. A autenticidade pode mudar de forma, de cor, de ritmo — e ainda assim continuar genuína. É o direito de se reinventar sem perder a essência. É aceitar que há dias de brilho e dias de bastidor, e que ambos fazem parte do mesmo espetáculo.
Para o marketing, talvez o desafio seja desaprender a performar e reaprender a sentir. Em vez de criar campanhas “autênticas”, é hora de criar conexões reais. O público não quer ver marcas perfeitas, quer sentir pessoas por trás delas. Quer histórias que não soem roteirizadas, quer causas que não pareçam impostas, quer gestos que pareçam humanos.
O Carnaval da autenticidade é o convite para tirarmos as máscaras — inclusive as das marcas. Para lembrar que o brilho mais bonito é o que vem de dentro, e que o verdadeiro desfile acontece quando o discurso e a prática dançam no mesmo compasso. Porque no fim, ser autêntico não é sobre se destacar no bloco, é sobre não se perder na multidão.
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Erika Buzo Martins
Colunista
Coordenadora do Curso de Administração da ESPM-SP e Diretora de Ensino e Pesquisa da Angrad.
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