Branding é Método, Não Magia

fev/2026

Nos últimos anos, a construção de marca ganhou espaço no discurso de empresas, empreendedores e profissionais de diferentes áreas. Termos como propósito, posicionamento e arquétipos passaram a circular com frequência, o que, em um primeiro momento, é positivo. Isso mostra que o mercado começa a entender que marca não é apenas identidade visual ou presença nas redes. Marca é percepção. É reputação. É valor construído ao longo do tempo.

O problema começa quando esse processo, que é estratégico e complexo, passa a ser tratado como algo rápido, intuitivo ou quase místico.

Vivemos um ambiente digital que valoriza velocidade, simplificação e respostas instantâneas. Nesse contexto, cresce a busca por fórmulas prontas, testes rápidos e classificações simplificadas. Verdades mais profundas perdem espaço, a complexidade é evitada e a profundidade se torna escassa. Muitas vezes, o objetivo deixa de ser construir significado e passa a ser apenas gerar impacto imediato, ou, na linguagem do momento, lacrar.

A popularização da inteligência artificial e das ferramentas de criação ampliou essa sensação de autonomia. Com uma IA aberta no navegador e templates prontos no Canva ou edições rápidas no CapCut, nunca foi tão fácil produzir conteúdo. E, com isso, muita gente passou a acreditar que também é simples construir uma marca pessoal ou empresarial. Mas vale a pergunta: produzir conteúdo é o mesmo que construir marca?

Na prática, o que observo com frequência é uma comunicação fragmentada, que muda de tom a cada tendência e que, em vez de construir identidade, reforça inconsistências. Falta conexão entre discurso, posicionamento e prática. E sem consistência, não há marca forte, apenas presença momentânea.

Foi nesse contexto que a banalização dos arquétipos de marca começou a chamar minha atenção.

Arquétipos, em sua origem, não são personagens ou estilos de comunicação. O conceito vem da psicologia analítica de Carl Jung e se refere a padrões universais de comportamento e significado que fazem parte do inconsciente coletivo. No branding, eles funcionam como estruturas simbólicas que orientam a forma como uma marca se posiciona, se expressa e se relaciona com o mundo.

E aqui está uma confusão comum. Incorporar elementos visuais ou narrativos associados a um arquétipo não significa manifestá-lo.

Uma marca pode usar cores vibrantes e uma linguagem descontraída e ainda assim não expressar o arquétipo do Bobo da Corte. Da mesma forma, adotar um tom inspirador em algumas peças não transforma uma marca em Herói. Arquétipo não está na estética ou em ações isoladas. Ele aparece na consistência das decisões, no comportamento ao longo do tempo e na coerência entre discurso e prática.

Quando reduzidos a testes rápidos ou listas de adjetivos, os arquétipos deixam de ser ferramenta estratégica e passam a funcionar como estereótipos. E estereótipos não constroem marca. No máximo, criam uma aparência temporária.

Branding não é sobre parecer algo. É sobre sustentar uma identidade de forma coerente em múltiplos pontos de contato, da comunicação à cultura interna, da publicidade ao relacionamento com clientes e imprensa. É nesse território que marca e reputação se encontram. Porque toda promessa simbólica, quando não é sustentada na prática, rapidamente se transforma em ruído.

Foi a partir dessas reflexões, e também de inquietações que fazem parte do meu momento profissional, que decidi aprofundar o tema. Assim nasceu a ideia de uma jornada pelos arquétipos de marca, que será desenvolvida ao longo dos próximos conteúdos nos meus perfis nas redes sociais.

A proposta é ir além das classificações rápidas e explorar os arquétipos em suas camadas mais profundas, mostrando como eles podem orientar estratégia, narrativa e posicionamento de forma consistente.

Porque, no fim das contas, marcas fortes não nascem de fórmulas. Nascem de escolhas conscientes, sustentadas por estratégia, coerência e tempo. E, quando bem compreendidos, os arquétipos não simplificam a marca. Eles ajudam a torná-la mais inteira.

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O conteúdo e opinião publicados neste artigo são de inteira responsabilidade do autor ou autora.

Ju Monte

Ju Monte

Colunista

Head de Inteligência de Mercado da ATcom

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