O que a Copa nos lembra sobre marcas que querem pertencer
A cada grande competição esportiva acontece algo fascinante: pessoas mudam suas rotinas, reorganizam agendas, vestem cores específicas, atravessam cidades, acordam mais cedo ou dormem mais tarde apenas para acompanhar um jogo.
Do ponto de vista racional, isso nem sempre faz sentido, no entanto comportamento humano raramente é explicado apenas pela lógica. O que vemos durante uma Copa não é apenas o interesse por um esporte, mas a manifestação de algo muito mais profundo: o desejo de pertencimento.
As pessoas querem fazer parte de algo maior do que elas mesmas. Querem compartilhar emoções, histórias, vitórias, derrotas e expectativas. Querem sentir que pertencem a uma comunidade, a um grupo, a uma identidade coletiva, e talvez, esse seja o motivo pelo qual o futebol é tão poderoso. Ele não vende apenas partidas, ele entrega significado – uma lição que muitas marcas ainda não aprenderam.
Durante anos, acreditamos que diferenciação era suficiente. Criamos produtos melhores, campanhas mais criativas e estratégias mais sofisticadas. Tudo isso continua sendo importante, mas não é mais suficiente.
As pessoas não escolhem apenas aquilo que atende suas necessidades, contudo escolhem aquilo que reforça quem elas acreditam ser. Uma marca deixa de ser apenas uma marca quando passa a representar uma identidade, algo que acontece com os clubes, com as seleções e com os grandes movimentos culturais.
As pessoas não estão comprando um produto, elas estão comprando uma narrativa da qual desejam fazer parte e, por outro lado, organizações ainda confundem visibilidade com relevância.
Aparecer é relativamente fácil, investimento em mídia resolve boa parte do problema, mas pertencer é outra história. Pertencer exige coerência, exige consistência, exige tempo.
Nenhuma torcida nasce de uma campanha. Nenhuma comunidade se forma a partir de um slogan. Nenhum vínculo emocional é construído apenas com promoções. É preciso entender que os relacionamentos mais fortes surgem quando existe confiança e essa confiança é resultado de repetição, é a soma de pequenas entregas feitas ao longo do tempo.
O marketing atual vive uma contradição interessante: temos mais dados sobre consumidores do que em qualquer outro momento da história, sabemos onde clicam, o que assistem, o que compram e até quanto tempo permanecem olhando para uma tela, mas conhecer comportamento não significa compreender pessoas.
Compreender pessoas exige algo que nenhuma planilha consegue capturar completamente: emoção. Ela é o que transforma clientes em defensores, usuários em comunidades, marcas em símbolos culturais.
Quando observamos uma grande competição esportiva, percebemos que o valor não está apenas dentro do campo, mas nas histórias compartilhadas, nas conversas, nas memórias. nos rituais, no sentimento coletivo. As marcas mais relevantes do futuro provavelmente serão aquelas que entenderem isso.
As organizações que apenas perguntam ‘como vender mais?, terão mais sucesso se perguntarem ‘como criar mais significado?’. Pense que o “novo” consumidor está cercado por produtos, mas continua procurando pertencimento.
Possivelmente essa seja a maior lição que eventos como a Copa nos oferecem, uma vez que as pessoas podem até admirar empresas por aquilo que elas fazem, porém se conectam, verdadeiramente, por aquilo que elas representam. As marcas que conseguem representar algo relevante deixam de disputar atenção e passam a ocupar um lugar muito mais valioso: a memória, a identidade e o coração das pessoas.
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O conteúdo e opinião publicados neste artigo são de inteira responsabilidade do autor ou autora.
Erika Buzo Martins
Colunista
Doutora em Comportamento do Consumidor | Estratégia, Educação e Negócios | Formação de líderes para um mercado orientado por dados e pessoas | Palestrante
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