Do lado de lá
No mundo atlântico, o Benin é o país mais ligado à nossa história cultural. Cotonou, capital econômica do país, é talvez a cidade mais conectada à Salvador da Bahia. Era imenso o desejo de experimentar aquele porto. O interesse se tornou mais agudo na ida ao Dantopka, um dos maiores mercados da África atlântica. O primeiro lugar a que todo curioso deve ir.
Num dos milhares de mototaxis cheguei a uma vasta encruzilhada. Caótico não quer dizer nada. Adjetivos não podem traduzir a série de cores, poluição, automóveis, multidão.
Fora do eixo central o mercado é mais suave, não menos intenso. Aos poucos comecei a estar. Uma loja de tecidos me atraiu, parecia um oásis, a lojista posou para foto, um momento raro no cotidiano de Dantokpa.
Câmeras geram hostilidade. O direito de imagem sugere negativas ou grana. Pouca grana. A moeda local vale muito pouco, vende-se tudo. Cabeças e mãos carregadas, fardos imensos. Excessos. Xingamentos em língua fon soavam em quase todos os cliques. França, Itália? Ah Brasil! Brasileira! Muito bom, somos irmãos, não é? Somos muito próximos.
A estética parece ser o cerne da vida local. Os salões de beleza estão em todos os lugares. Fiquei atônita diante da maior quantidade de cabelereiras do mundo e da maior oferta de tecidos que já tinha experimentado, meu olho ocidental vibra e pinça detalhes preciosos em modelos e combinações sofisticadas. Mercar leva tempo, senta-se para conversa, barganha e repouso. Percebe-se hostilidade e senso estético apuradíssimo, acolhimento e apreço à imagem.
Nas televisões locais vê-se música, religião e programas de auditório franceses, além de novela mexicana. Os clipes de música tradicional são sucesso popular. Performances teatralizadas em línguas diversas. Sobretudo fon e mina, ioruba é mais restrito. Há também os grupos influenciados por música americana. Cantoras negras em perucas louras, alisadas, a Afro-America é uma referência evidente.
Em busca das sonoridades beninenses percebo a ausência de lojas de discos, mas eles estão por toda parte em tendas ambulantes e a área de eletrônicos do mercado de Dantopka, está completamente dominada por homens. São muitos os aparelhos de som cuidadosamente empilhados. São também presentes nas ruas da área do Porto onde uma pobre Igreja de Notre Dame, em fachada simples listada de branco e vermelho, faz pensar nos descompassos da colonização francesa.
A mistura culinária é uma marca dos maquis, nos quais degusta-se a cozinha local e europeia. Spaguetti, omelete, alokô (banana frita), peixe, coelho, acaçá. Quituteiras ambulantes cozinham petiscos por toda parte. O jeito de corpo lhes permite cozinhar com panelas no chão.
A costa beninense é mar aberto. Em águas selvagens ou poluídas não se desfruta de banho de mar. O uso de roupas amplas e coloridas em cena praieira é comum em toda a África. Come-se, bebe-se, nanora-se, vende-se é um espaço para estar e reúne muita gente nos fins de semana.
Nem metade dos 600 mil habitantes de Cotonou fala francês, mas tudo que é escrito está em francês. O design das placas de lojas é africano. São desenhos coloridos, feitos à mão. Anunciam açougues, salões de beleza, costureiras, serviços digitais e cabines telefônicas.
Cotonou é um choque de imaginação e uma festa para os sentidos, uma cidade barulhenta e agitada com repertórios infinitos, que joga por terra a África mítica que a diáspora idealiza.

Goli Guerreiro
Colunista
Pós-doutora em antropologia, curadora e escritora. Tem 6 livros publicados. Trabalha sobre repertórios culturais contemporâneos em diversos formatos: palestras, oficinas, mostras iconográficas, consultoria e roteiros para audiovisual.
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