A Ressurreição da comunidade
A Páscoa é a festa maior do calendário cristão, mas grande parte dos seus mistérios e símbolos vieram da Páscoa judaica, do Antigo Testamento. O cristianismo herdou e transfigurou tudo, atribuiu novos significados à Pessach (passagem) liderada por Moisés, o líder enzimático que aglutinou a comunidade judaica do jugo egípcio, encarnado na figura do Faraó.
A Páscoa judaica celebrava a passagem desta miserável condição de escravos para a humana condição de homens e mulheres livres. Para rememorar estes fatos arcaicos, os judeus compartilhavam um cordeiro com pães ázimos numa ceia litúrgica, Cordeiro este que Jesus de Nazaré encarnou, protagonista da nova Páscoa. “Eis o Cordeiro de Deus”, o Messias, o novo Moisés cuja traição e morte ocorreram durante as celebrações do Pessach judaico, dando outro sentido à Páscoa e ampliando o significado de escravidão.
A festa da Páscoa põe em movimento os principais arquétipos bíblicos, evoca um fluxo de metáforas e imagens que a moldaram cultura e valores universais. Cristãos ou não, todos somos tocados pela carga poética de cenas pascais como o Lava Pés, a Via Crucis, o beijo de Judas, a Santa Ceia, o Pão e o Vinho. A cena de pusilanimidade do governador romano Poncius Pilatos, lavando as mãos, a eleição de Barrabás, o Bom Samaritano no caminho do Calvário, o véu da Verônica e o canto do galo: tudo irradia poesia compactada e assimilada por quem crê e quem não crê. Toda esta poesia pascal é celebrada nas procissões e nas celebrações. O mais importante é apostar no brado do Aleluia, Jesus ressuscitou!
Tanto a Pessach judaica como a Páscoa cristã destacaram a mediação da liderança dos seus protagonistas, cumprindo o papel de enzima aglutinadora de comunidades à espera de libertação. Moisés e Jesus protagonizam esforços imensos para a ressurreição desta potência situada entre o Estado (Faraó e Pilatos) e a Sociedade (judaica) chamada Comunidade. O Estado aparece em ambos os contextos bíblicos como entidade estruturada e armada para drenar o esforço coletivo por meio de impostos e, aqui entre nós, promover despoticamente o crime. A Sociedade, etérea e espectral, não tem a mesma potência do Estado e pode fazer valer o clamor das pessoas desarticuladas.
É a comunidade que pode deter a morte e sustentar a ressurreição. E a morte chegou em ondas progressivas de precarização de serviços e o declínio da inclusão da vida pública. Há perdas, deterioração e decadência: segurança, educação, cultura e saúde são alvos dos esquemas dos faraônicos como também a devastação do ambiente físico e da ecologia. Tudo virou farsa, em especial a política, reduzida à lobby e deboche.
Páscoa é festa da comunidade viva e pulsante, ela precisa ressuscitar dos mortos, dos sofás, da apatia, retomar a força coletiva e experimentar ações de transformação. É a comunidade que está sendo convocada a sair da inércia e partir para uma nova terra. Entre os edifícios do Estado e da Sociedade, é a Comunidade que precisa aglutinar potência de ressurreição.
A Páscoa evoca um pacto de ressureição da comunidade nas mais diferentes formas de articulação: comunidade como redes de familiares e amigos, de vizinhos, nas igrejas, nos sindicatos, nas associações e outras agremiações. A soma das potencialidades individuais vai além de sua mera superposição, reza a lei da sinergia na Física, o resultado é surpreendentemente superior.
Muitos nos tornamos passivos, reduzidos ao papel de espectadores e consumidores, acumulando compulsões por comida, substâncias químicas, autoimagem, velocidade, jogo, alternando comportamentos de consumo. Enfim, ovelhas clientes obedientes, usuários de serviços, matrículas humanas com senha, número e carimbo. Rebanhos de ovelhas dóceis não formam comunidade.
Enquanto isso, a crise do Estado devasta a riqueza social, a “piscina cheia de ratos” de Cazuza agenciou e corrompeu empresas imundas e destruiu empregos com sua máquina estruturada e armada para drenar o esforço coletivo por meio de impostos e promover o crime. Como nos tempos do faraó.
É preciso constatar a dura realidade de que nem Estado nem Sociedade podem dar conta de nossas utopias e sonhos. E já estamos muito grandinhos para responsabilizá-los por isso. O aparato do Estado, por mais qualificada que seja a gestão de sua burocracia, não vai reconhecer nem respeitar a complexa demanda humana, em todas as suas dimensões.
A rede brasileira criminal de banalização do mal envolve políticos, empresários, pastores, banqueiros, marqueteiros, clones de Judas Iscariotes, com amplo potencial de traição. Venderam a utopia por 30 dinheiros. Beijo de Judas ou mordida de vampiro: farinha pouca, meu pirão primeiro.
Sem apostar na sinergia e na vida em comunidade, como soltar o grito de Aleluia preso na garganta?
Feliz Páscoa!

Carlos Linhares
Colunista
Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
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junte-se ao mercado
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ABMP: Quando falamos em “Conexões Urbanas”, o que esse conceito representa para você e como ele se relaciona com a transformação das cidades?
LC:Para a Eletromidia, o conceito de “Conexões Urbanas” sintetiza nossa razão de ser: aproximar marcas e pessoas nos diferentes ambientes e trajetos que fazem parte da vida nas cidades.
Salvador é um exemplo dessa dinâmica. Sua força cultural e seus espaços de convivência convidam a população a viver a cidade, seja nos deslocamentos para o trabalho e para a faculdade, seja nos momentos de lazer. Cada percurso reúne diferentes necessidades e oportunidades de encontro.
É nesse movimento que a mídia out-of-home ganha relevância. Ao integrar nossos ativos à paisagem e à rotina urbana, criamos oportunidades para as marcas participarem desse cotidiano. Quando essa presença oferece informação, serviços ou experiências que fazem sentido naquele momento, a comunicação também pode transformar a relação de quem circula com o espaço ao seu redor.
ABMP: Como a publicidade e a comunicação podem contribuir para criar conexões mais relevantes entre marcas, pessoas e espaços urbanos?
LC: A veiculação de campanhas publicitárias cria inúmeras possibilidades de conexão entre marcas e pessoas, seja no varejo, comunicando promoções, seja no âmbito institucional, reforçando atributos e construindo reputação.
Mas também tem sido cada vez mais frequente o desenvolvimento de projetos especiais e interativos, que geram experiências memoráveis, serviços e benefícios para quem circula pela cidade.
Isso é o que chamamos de storyliving, que vai além do storytelling. Em vez de apenas contar uma história, a marca convida o público a vivê-la. É a valorização da experiência presencial: proporcionar momentos de participação e imersão no cotidiano da população.
ABMP: As cidades estão cada vez mais conectadas por tecnologia e dados. Como isso muda a forma de comunicar e interagir com o público?
LC: A tecnologia e os dados ampliaram a capacidade de planejar e avaliar a mídia exterior. Além da localização dos painéis, agências e anunciantes passaram a contar com estimativas de audiência e métricas como alcance, frequência e impactos, que ajudam a entender os públicos que circulam por cada ambiente e a selecionar os pontos mais adequados aos objetivos de uma campanha.
A digitalização também trouxe mais flexibilidade para o conteúdo. Nos ativos de DOOH, o Digital Out of Home, é possível trabalhar diferentes peças e adaptar as mensagens a lugares, horários e contextos. Assim, uma campanha não precisa se comunicar da mesma maneira em todos os pontos de contato: pode considerar o que faz sentido em cada etapa do trajeto.
Para o público, essa evolução pode resultar em uma comunicação mais pertinente ao momento vivido. Para as marcas, significa combinar inteligência de mídia e criatividade para decidir não apenas onde estar, mas o que dizer e como participar da rotina das pessoas. Os dados orientam essas escolhas, e a tecnologia amplia as possibilidades de colocá-las em prática.
ABMP: Qual é o papel do espaço urbano como mídia e como plataforma de experiências para as marcas?
LC: O espaço urbano faz parte da rotina das pessoas. Para as marcas, ele oferece a oportunidade de não apenas serem vistas, mas de estabelecer vínculos em diferentes momentos dessa jornada.
O projeto Abrigo Amigo Claro, em parceria com a Claro, é um exemplo prático disso. Disponível em Salvador e em outras nove cidades do país, ele utiliza nossos painéis digitais para transformar a espera no ponto de ônibus, oferecendo companhia e aumentando a sensação de segurança. É uma forma de a marca participar do cotidiano por meio de um serviço que beneficia diretamente a população.
A Eletromidia está presente em 22 estados e próxima de alcançar 100 cidades. Nossas diferentes verticais permitem acompanhar esses trajetos nas ruas, nos transportes, em elevadores, shoppings, aeroportos e nos voos com a Azul Linhas Aéreas. Mais recentemente, anunciamos também a entrada no segmento de rodovias, com início na Região Metropolitana de São Paulo.
É assim que buscamos ressignificar o espaço urbano: como mídia, mas também como plataforma de experiências relevantes para marcas e cidadãos.
ABMP: Como equilibrar inovação, tecnologia e criatividade sem perder a conexão humana na comunicação?
LC: O ponto de partida são as pessoas. Antes de escolher um recurso ou formato, precisamos entender quem está naquele ambiente, o que está vivendo e de que maneira a comunicação pode contribuir para sua rotina.
A Eletromidia investe de forma consistente em inovação, tecnologia e uma cultura orientada por dados. Esses recursos ajudam a identificar oportunidades, planejar campanhas e avaliar resultados. Mas é a criatividade que transforma essa leitura em uma mensagem ou experiência capaz de despertar interesse e fazer sentido para o público.
Esse equilíbrio também passa pela valorização das pessoas e da gentileza nas relações. Na comunicação, significa respeitar o contexto e a disponibilidade de atenção de cada um. Nem sempre a melhor solução será a mais complexa: uma mensagem objetiva, uma informação útil ou um serviço que facilite o cotidiano podem fazer a diferença. A tecnologia deve apoiar essa conexão, e não ser um fim em si mesma.
ABMP: De que maneira a mobilidade urbana e os novos hábitos das pessoas estão influenciando o comportamento do consumidor?
LC: É nos deslocamentos durante a rotina que as pessoas entram em contato com diferentes espaços, serviços e possibilidades de consumo. As cidades têm investido em BRT, VLT, metrô e outros modais de transporte público para melhorar a mobilidade e a experiência dos moradores. Para as marcas, estações e terminais são ambientes propícios para criar conexões e experiências relevantes para quem está em trânsito.
Essa leitura também se aplica aos deslocamentos rodoviários. Recentemente, a Eletromidia anunciou uma joint venture com a Motiva e a EcoRodovias para levar mídia OOH às rodovias, com início na Região Metropolitana de São Paulo. A iniciativa abre novas oportunidades de contato com as pessoas nesses trajetos.
ABMP: O que torna uma experiência urbana realmente memorável e capaz de gerar conexão com as pessoas?
LC: Creio que existem vários fatores, mas contexto, utilidade e interatividade contribuem muito para isso. O contexto começa por entender onde a pessoa está e o que está vivendo naquele momento. Uma ação pode estar conectada a um evento na cidade, a uma comemoração, a um período específico do mês ou a situações comuns da rotina, como a espera pelo transporte. Quando a marca considera esse momento, a comunicação faz mais sentido para quem a recebe.
A utilidade também é importante: oferecer um serviço, uma informação ou um benefício pode fazer diferença na jornada das pessoas. E, quando existe a possibilidade de interação, elas deixam de apenas ver a mensagem e passam a participar da experiência. É essa combinação que ajuda a criar conexões reais e memoráveis no espaço urbano.
ABMP: Como você enxerga o futuro da comunicação nas cidades: mais digital, mais experiencial ou uma combinação dos dois?
LC: Vejo o futuro como uma combinação dos dois. O digital permite adaptar mensagens a diferentes lugares e momentos, atualizar conteúdos e criar oportunidades de interação. Mas esses recursos só geram uma conexão relevante quando respondem ao contexto e às necessidades de quem está naquele ambiente.
Por isso, a experiência deve orientar o uso da tecnologia. Durante um deslocamento, uma mensagem pode ajudar a descobrir um serviço próximo; em uma espera, um projeto pode oferecer companhia ou informação útil. O futuro não está apenas em ter mais telas ou recursos digitais, mas em usar essas possibilidades para tornar a presença das marcas mais pertinente na rotina das pessoas.
ABMP: Quais são os principais desafios para marcas que querem estar presentes na vida urbana de forma relevante, sem serem invasivas?
LC: O principal desafio é entender que estar no caminho das pessoas não significa ter sua atenção garantida. A comunicação precisa respeitar o ambiente e o momento da jornada: quem está de passagem tem uma disponibilidade diferente de quem espera pelo transporte ou circula em um shopping.
Isso exige mensagens claras, adequadas ao tempo de contato e ao contexto de cada espaço. Nem toda presença precisa se transformar em uma experiência interativa. Em alguns casos, uma informação objetiva é suficiente; em outros, um serviço ou projeto especial pode acrescentar valor à rotina.
A relevância vem dessa escolha: participar da vida urbana com uma comunicação que faça sentido para o público, sem exigir mais atenção do que aquele momento permite.
O principal desafio é entender que estar no caminho das pessoas não significa ter sua atenção garantida. A comunicação precisa respeitar o ambiente e o momento da jornada: quem está de passagem tem uma disponibilidade diferente de quem espera pelo transporte ou circula em um shopping.
Isso exige mensagens claras, adequadas ao tempo de contato e ao contexto de cada espaço. Nem toda presença precisa se transformar em uma experiência interativa. Em alguns casos, uma informação objetiva é suficiente; em outros, um serviço ou projeto especial pode acrescentar valor à rotina.
A relevância vem dessa escolha: participar da vida urbana com uma comunicação que faça sentido para o público, sem exigir mais atenção do que aquele momento permite.
