Antropologia e crise de consumo

jun/2017

Práticas sociais de consumo constituem a nossa humanidade, produzem identidade e reforçam nosso sentimento de pertença. O olhar da Antropologia sobre o consumo se distancia de outras abordagens que lançam juízos de valor e tecem duras críticas ao consumismo, apelando para contrastes como desejo e necessidade, bens de necessidade e bens supérfluos. Há ainda o pretensioso título de sociedade de consumo. Qual sociedade não se baseou no consumo de bens materiais e simbólicos?

Para estudiosos da Cultura, os objetos de consumo transcendem sua dimensão funcional e econômica e são carregados de valor simbólico. Véus, colares, automóveis e indumentária sempre comunicam lugar e posição do indivíduo na sociedade, demarcam sua classe, casta, clã, condição social, de gênero, disponibilidade para casar, linhagem, profissão, etc.

Neste sentido, a Pirâmide das Necessidades de Maslow, tão apreciada entre administradores, não passa de uma falácia teórica sem consistência. O consumo humano não obedece às estratificações e aos critérios de prioridade. Mesmo morando mal, em uma favela precária sem saneamento e sem condições básicas, uma cidadã carnavalesca de baixa renda investe o que tem e o que não tem numa fantasia de baiana para desfilar na ala de sua Escola querida, na Sapucaí. Quem pode julgar que se trata de uma escolha supérflua e equivocada?

Sem dúvida, há muita gente adicta às compras, abraçando objetos para preencher lacunas afetivas. Ou pessoas que consomem coisas em detrimento de valores humanos e sem noção da armadilha ecológica a qual o consumo irresponsável poderá nos levar. Mas nossa argumentação presente engloba estas preocupações e sustenta que as práticas de consumo possuem aspectos comunicacionais que vão do direito à cidadania, e um espaço onde se organiza parte da racionalidade econômica, política e psicológica social.

Recordando um pouco a história de nossa “sociedade de consumo”, vemos que ela tomou feições próprias após a Segunda Guerra Mundial e se desenvolveu graças ao Estado de Bem Estar Social. Sua primeira fase se desenvolveu com o aumento populacional e a retomada do poder aquisitivo da classe trabalhadora. Nesta época, o Estado tinha capacidade de dar cobertura às demandas sociais por meio de redes eficazes de saúde, educação e segurança, o que liberava a renda do cidadão para o consumo de produtos que melhorassem o conforto de sua família. Nesta fase, a lógica de consumo se pautava pelo modelo semicoletivo, baseado na aquisição de equipamentos para o lar, para serem compartilhados, em geral, em família.

A indústria ampliou sua linha de produção, a Publicidade & Propaganda entraram em cena junto ao Marketing, e foram se diversificando os comportamentos de consumo nas classes média e baixa. Aos poucos a lógica de consumo deixa de ser em família e até mesmo entre a classe social, e os objetos passam a responder a demandas individuais.

A estrutura familiar é relativizada e o consumo por indivíduo passa a ser protagonista. Se antes bastava um automóvel e um televisor por família, de repente, até os sanitários se multiplicam e edifícios passam a dispor de duas ou três garagens por apartamento pois cada um “precisa” de um carro. Entramos na era do turbocapitalismo e do hiperconsumismo, para usar termos sofisticados de bons pensadores da área.

É hora de revelar nossa provocação neste artigo. E ela vai na direção da crise do consumo pela qual passa nosso país, agora. A crise no Brasil decretou um estado de desconfiança, medo e cautela intensos. Todo mundo pensa muito e hesita diante das prateleiras. A crise de confiança é ao mesmo tempo certeza da estagnação. O medo do devir nos impede de consumir.  Afinal, o que mais se vê são lojas fechadas, recuo nas vendas, placas de aluga-se dependuradas em negócios outrora prósperos, sinais que dimensionam o tamanho desta crise multifacetada e multidimensional.

O caldo em ebulição tem como componentes o mal-estar moral coletivo, o sentimento de indignação perante a impunidade, a falta de confiança na política, a descrença nas lideranças, a perda de esperança no futuro, a dor pela falta de emprego, a diminuição da gentileza e da solidariedade, os semblantes de melancolia, etc., e expressões de agressividade e ódio.

Concluímos com uma provocação sobre as perdas subjetivas do ato de consumir. A crise é intensa e implacável, promoveu uma “castração” de sonhos, mas será possível que os brasileiros em crise vão estagnar a produção simbólica que antes vinha do consumo mais farto? Ou vão dirigir seu olhar para outra prateleira? O que estamos secretamente consumindo nesta fase difícil?

Recordando a dica da Antropologia: as práticas sociais de consumo constituem a humanidade de cada um e promovem nosso sentimento de pertença e identidade. O consumo não vai parar, o mercado vai recriar uma nova constelação de expressões simbólicas e os consumidores vão se revestir dos novos papéis com os quais se reconhecerão na comunidade em crise a qual pertencem.

Para além das marcas, sempre existirão rostos.

Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.

Mais artigos

O que a Copa nos lembra sobre marcas que querem pertencer

A cada grande competição esportiva acontece algo fascinante: pessoas mudam suas rotinas, reorganizam agendas, vestem cores específicas, atravessam cidades, acordam mais cedo ou dormem mais tarde apenas para acompanhar um jogo. Do ponto de vista racional, isso nem...

ler mais

Jogada Ensaiada

Faltam apenas 20 dias para o início da Copa do Mundo. No entanto, quem caminha pelas ruas nota um cenário visivelmente mais acanhado do que em mundiais passados. Onde está aquela empolgação avassaladora de outrora?   Nos últimos anos, a tradicional camisa amarela...

ler mais

O Ritmo dos Dias e a Arte do Não

Ontem mesmo estávamos limpando o glitter do Carnaval, prometendo que o ano finalmente começaria. Piscou, e o cheiro de milho assado e fumaça de fogueira já anunciava o São João. Mais um piscar de olhos e as bandeirinhas mudam de cor, a Copa do Mundo bate à porta e a...

ler mais

junte-se ao mercado