A morte do Teaser

ago/2017

O “teaser” nasceu no século XIX, teve seu auge no século seguinte e morreu de falência múltipla dos órgãos em inicios deste século e hoje permanece insepulto, aguarda talvez um cortejo fúnebre à altura da importância que teve, imagino todo o mercado ostentando estandartes com símbolos medievais, em fila solene e bem-comportada; os jinglistas entoando cânticos gregorianos, enquanto o esquife desce em nobre sepultura, merece um mausoléu das antigas com distintivos em mármore.

O teaser nasceu com o sutil nome de propaganda de expectativa por que era justamente essa a reação do leitor de jornais, única mídia existente na época, ao aferir uma mensagem provocativa, instigante, que na sequência revelaria o verdadeiro objetivo da comunicação, com isso atendendo a curiosidade das pessoas. Aquilo funcionava. Alguns engraçadinhos, criativosos da época, publicavam um espaço em branco com um sutil “aguarde”, ou frase semelhante, para após uma ou duas semanas revelar a inauguração de um estabelecimento de varejo.

No século XX o “teaser” fez a festa. Deu certo na mídia impressa e na mídia exterior, funcionou menos no rádio e na televisão. Na Bahia a partir da década de 1980 o “teaser” passou a ser quase que exclusividade do outdoor e já agonizante no final do século virou uma febre, as faculdades de comunicação esqueceram de avisar aos alunos que aquilo não funcionava mais, com raras exceções, muito raras.

Pois não que o “teaser” morreu e não avisaram a alguns criativos que continuam a jogar fora o dinheiro do cliente que paga duas impressões de outdoor e tem reduzida a exposição de sua publicidade de 15 para 10 dias, os cinco primeiros são do dito “teaser”. As agências não se deram conta que o “teaser” é incompatível com a mídia de massa e em especial com a multimídia. Quanto mais plataformas de mídia existirem, menos chance do “teaser” dar certo. O problema é o link, o cidadão adivinhar que aquilo combina com aquilo e é a sequência de aquilo, na selva midiática de seu cotidiano.

Funciona na frente do computador e funcionária no outdoor com uma estratégia que contemple um grande investimento. Dez placas ou quinze, como de hábito, não resolvem. O “teaser” morreu porque o foco de atenção do consumidor de mídia é muito amplo e por isso não atinge o objetivo a que se propõe.

Me convidem para o enterro. Deixem o Angelus por minha conta, prometo cantar a todo pulmão.

Nelson Cadena

Nelson Cadena

Colunista

Escritor, jornalista e publicitário.

Mais artigos

O seu relatório de mídia conta toda a verdade?

Discurso bonito vs resultado real O mercado programático cresceu rápido. Rápido demais para que as regras acompanhassem o ritmo. E isso criou um problema que afeta diretamente quem investe em mídia: é possível gastar uma verba significativa em publicidade digital e...

ler mais

L.O.V.E, a Matriz

É padrão. Nas agências os briefings são estruturados mais ou menos da mesma forma; dentre os tradicionais tópicos como “fato principal, objetivos, desafios…” quero destacar hoje um especial: o TOM da campanha (racional ou emocional). Eu entendo que essa orientação...

ler mais

O que a Copa nos lembra sobre marcas que querem pertencer

A cada grande competição esportiva acontece algo fascinante: pessoas mudam suas rotinas, reorganizam agendas, vestem cores específicas, atravessam cidades, acordam mais cedo ou dormem mais tarde apenas para acompanhar um jogo. Do ponto de vista racional, isso nem...

ler mais

junte-se ao mercado