Alto astral e bom humor, apesar dos pesares
A cabeça da gente contém um caldeirão de conexões, são muitas informações conflitantes e efervescentes onde se processa o humor. Sua manifestação externa se dará sobre a forma de anedotas, piadas, risadas, manobras mentais inteligentes cuja função é devolver leveza e perspectiva para a percepção do mundo. O alerta é sempre para não nos levarmos a sério demais. Sua função é diminuir a sensação esmagadora do peso da realidade. Sim, podem surgir anedotas em plena tragédia. E passarmos a tratar os fatos drásticos da existência com aquela percepção de Millôr Fernandes, Dercy Gonçalves, Henfil ou José “Macaco” Simão.
O humor pode ser tanto instrumento de crítica como de alienação, uma estratégia comprovadamente certeira e sedutora de comunicação e aproximação interpessoal como também pode afastar e desunir grupos de pessoas, em sua versão ácida e sarcástica. A seu ver, está faltando humor, leveza, gratuidade e jogo de cintura diante da dura gravidade da vida?
O Brasil anda asfixiado e sem perspectivas. Há medo e violência e nos sentimos reféns dos vampiros fiscais implacáveis onipresentes, tributando e taxando em todos os lados – municipal, estadual e federal -, sugando sangue e renda de quem trabalha e devolvendo deboche e sarcasmo. Dar risada e demonstrar bom humor de repente ficou constrangedor. No Brasil do Baixo Astral a moda é afivelar na cara um ar enfezado e viralizar melancolia. Corta essa.
O humor é uma manobra inteligente cuja função é desautorizar e desmoralizar a autoridade. E a cultura brasileira sempre foi pródiga neste tipo de alquimistas.
Vocês querem bacalhaaaaau? Bradava o adorável Chacrinha, mestre da esculhambação, que atravessou o período da ditadura como um velho guerreiro na arte de desmascarar a hipocrisia e fazer como Odorico Paraguaçu, de O Bem Amado, e as espevitadas irmãs Cajazeiras, Doroteia, Dulcineia e Judiceia, personagens de Dias Gomes: desconstruir a boçalidade e a prepotência dos que se pretendiam levar a sério na eterna Sucupira Brasil.
Salvem os grandes mestres do humor brasileiro como Chico Anysio, pai de Alberto Roberto, o vampiro Bento Carneiro, o fantástico Professor Raimundo, o pai de santo Painho e Salomé, salve, Jô Soares e seu panteão, Grande Otelo, Bussunda, Casseta, Porta dos Fundos, Terça Insana, os chargistas, as drags, os palhaços, os roteiristas, salve a Grande Família e seus 485 episódios onde pudemos rir do sincretismo de Lineu + Agostinho Carrara, misto exato do rosto do país, salve Marília “Darlene” Pera, salvem todos os que se utilizam do humor para desmascarar a autoridade e desmoralizar a pose de quem sobe no pedestal de ridícula onipotência.
O genial Monteiro Lobato precisou criar Emília para vocalizar uma infância sem censura e engraçada. Percebeu, naquela época, que só uma boneca poderia encarnar a torrente de asneiras no Brasil do sítio do Pica Pau Amarelo. Só Emília podia errar, pintar e bordar e não levar nada a sério. O Visconde de Sabugosa, irritado com suas sandices, certa vez pergunta quem ela era. E escuta a bem-humorada resposta – “Eu sou a Independência ou Morte”. Ressoem as gargalhadas!
No Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, Chicó e João Grilo se utilizam do bizarro enterro da cachorra para mobilizar estruturas pesadas de uma sociedade feudal e moribunda. Com ginga e ironia, dobram o coronel do latifúndio, enrolam comerciantes, cangaceiro, líderes da igreja e até o capeta. E acham compaixão do coração de Jesus cuja Mãe se compadece e os traz de volta ao sertão. É a graça divina. É a face do humor como força propulsora e criadora de mudança.
O lado sombrio do humor existe. Nutre-se de generalizações e é cooptado pelo poder. Uma profusão de clichês e estereótipos sexistas, racistas e preconceituosos imperam em programas humorísticos e no imaginário das piadas. Aos poucos, caiu a ficha e o Zorra Total virou Zorra, produzindo graça sem precisar atingir homossexuais, mulheres, negros e repetir velhos clichês.
Como o humor engajado e mesclado com jornalismo tipo CQC ou Pânico é desconcertante, puxa com vigor o tapete de figuras públicas in loco, no congresso e nos palácios. Atrai a ira dos poderosos que querem crucificar os palhaços-repórteres e desperta o fantasma da censura. Há quem perceba abusos e advogue por limites na expressão do humor. Uma piada de mau gosto, como a de Rafinha Bastos, acarretou sua demissão do CQC. Ações judiciais se multiplicam e, em Paris, o ódio ao humor explodiu a redação do tabloide Charlie Hebdo, deixando 12 mortos.
Qual a diferença moral entre a sátira e o sarcasmo? A primeira teria uma utilidade social: denunciar a mentira e revelar que o rei está nu, como no conto de H. C. Andersen. O sarcasmo seria, entretanto, uma traição ao bom humor.
Sobre a ironia Rainer Maria Rilke, em trecho de sua “Cartas ao um jovem poeta”, advertia sobre os riscos de dosagem no seu emprego. Excelente recurso, mas viciante e perigoso. Exige habilidade de quem pratica. Facilmente o autor pode perder a direção do âmago das coisas, da gravidade do que se está descrevendo. E em lugar de desmoralizar a autoridade, função da ironia, o autor se torna inebriado com a própria acidez e ainda mais autoritário do que aquele ou aquilo que critica. O feitiço do sarcasmo se volta contra o feiticeiro.
Vamos abrir um espaço maior para o humor e a sátira dentro de nós. Pode favorecer uma vida física e psíquica mais leve. Sim, o humor pode ser um aliado da realidade.

Carlos Linhares
Colunista
Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
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