Existe vida depois da Internet?

set/2017

Espanta aos observadores do comportamento humano a velocidade da disseminação dos aparatos tecnológicos e sua crescente compatibilidade com os usuários. A conectividade mais acessível tornou o ambiente virtual o espaço mais importante para o fluxo dos processos. A  vida humana acontece nas redes e a cultura on-line flui nas nuvens: sejam nos relacionamentos pessoais, nas salas de chat,  na vida social e no lazer, nos trâmites comerciais, financeiros e jurídicos, na formação profissional com o EAD, na aquisição de produtos e serviços como o Uber e hotéis, sem falar da  vida amorosa com os sites de namoro e de fantasias sexuais, no marketing, etc. Bem vindos à Antropologia dos Mundos Virtuais.

Aos poucos nos fundimos aos smartphones, aos Ipads e laps e passamos a teclar palavras novas como Google, Face, Instagram, Tweet, email, Snapchat, blogs e verbos como tuitar, compartilhar, postar e deletar.

Além da compatibilidade dos corpos com as telas, a cultura on-line também gerou a preocupante dependência por visibilidade. Aparecer, virou febre e a demanda por vitrine, compulsão. Sem senso crítico, cenas triviais passam a ser celebradas. A postagem de imagens banais, sem motivo para comemoração, revela a necessidade de destaque e visibilidade. Está aberta a temporada dos selfies e do seu prolongamento, um bastão, cuja função é dar mais perspectiva e fundo ao retrato protagonismo do “Narciso que acha feio o que não é espelho”.

Quem chegou no momento presente formatado pela cultura anterior à Internet trouxe na mochila a aprendizagem de antigas tecnologias. Quem veio da escola analógica tem o direito de estar perplexo. Foi Michel Foucault, o pensador do poder, que interpretou o quanto aqueles dispositivos da velha “tecnologia-escola”, do livro e do lápis, como a prática da escrita e da leitura silenciosa e no isolamento, promoveram resultados em termo de cultivo da introspecção. E de reflexão. Este modo de subjetivação produziu o homem moderno e “individualista”, senhor de um mundo interior próprio, com o qual travava diálogo interno e íntimo, amparado por livros, romances, saraus literários e algum cultivo de erudição.

Havia a crença de que era preciso desenvolver valores e atitudes como discrição, recato, modéstia e senso de pudor. Era um tempo no qual se cultuava a preservação do mundo íntimo e sensível. Valores como afetação e vulgaridade devastariam a morada interior daquele “self”, típico da transição dos séculos XIX a XX.

Os modos de subjetivação foram totalmente alterados em nossa Era da Dispersão. O que mais se destaca no comportamento dos usuários nas redes é, além da ausência de sinal de introspecção, a demanda febril por visibilidade que desautorizou o antigo pudoris, do latim, a vergonha de chamar atenção sobre si. Parece que foi decretado o fim da intimidade em nome da visibilidade dos “selfies”. A demanda por se sobressair e cultivar mais seguidores nas redes expulsa a compostura e entroniza a superexposição. Este escancaramento da privacidade, em muitos casos, dá frutos como prática comercial. Entra em cena a mercantilização da intimidade. Valores e virtudes transmitidos há séculos, de repente, são lançados no acervo de um museu esquecido.

A fragmentação de fontes e o excesso de informação nos leva a fazer várias coisas ao mesmo tempo, sem dar para manter o foco em nada, adverte Nicholas Carr, pesquisador dos efeitos da Internet no nosso cérebro. O atropelamento da sensibilidade e a imposição da velocidade e do bombardeamento de informações “já estão debilitando nossa capacidade de concentração e de reflexão”, afirma este escritor, recentemente indicado ao prêmio Pulitzer. Menos pessimista, o sociólogo Manuel Castells, autor de The Internet Galaxy, rebate: “Se a internet tem algum impacto nas interações sociais, ele é positivo. Para a maioria das pessoas, ela é uma extensão da vida em todos os seus aspectos”. O debate é inflamado.

Sem habilidades aprendidas para desenvolver a introspecção, passamos a existir compulsivamente do lado de fora, publicizando imagens do self numa espécie de “curadoria de si” onde se dissimula um semblante de felicidade, que já não convence ninguém. A “vida editada” dissimula as razões de se mostrar e aparecer nas prateleiras.

A demanda por visibilidade tem transformado cenas de foro íntimo – como uma gestação ou um mero almoço – em marketing pessoal. Likes, curtidas e compartilhamentos viraram inquestionáveis métricas de sucesso e reconhecimento. Afinal, foram desativados os velhos “modos de subjetivação” e como já não há mais o self próprio e pessoal, capaz de instigar reflexão, senso crítico e, sobretudo, gerar autorização de dentro para fora, resta esperar o reconhecimento e a autorização do lado de fora, dos Facefriends ou de algum influenciador digital da moda.  Sem investimento no self, só resta mendigar curtidas nos “selfies”.

Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.

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junte-se ao mercado

set/2017

"Acho que a primeira grande contribuição da Viamídia é mostrar que todo sonho é possível. Ela é a prova viva disso. Três jovens estudantes de publicidade, lá em 1996, sem dinheiro, sem conexões no mercado e começando do zero, montaram uma empresa com apenas dois computadores e uma mesa improvisada com uma porta e dois cavaletes. Hoje, esse negócio se transformou em uma grande agência, que emprega quase 100 pessoas e é referência no Nordeste."                                                                                                                                                                                       

 

ABMP: Quando falamos em “Conexões Urbanas”, o que esse conceito representa para você e como ele se relaciona com a transformação das cidades?

LC:Para a Eletromidia, o conceito de “Conexões Urbanas” sintetiza nossa razão de ser: aproximar marcas e pessoas nos diferentes ambientes e trajetos que fazem parte da vida nas cidades.

Salvador é um exemplo dessa dinâmica. Sua força cultural e seus espaços de convivência convidam a população a viver a cidade, seja nos deslocamentos para o trabalho e para a faculdade, seja nos momentos de lazer. Cada percurso reúne diferentes necessidades e oportunidades de encontro.

É nesse movimento que a mídia out-of-home ganha relevância. Ao integrar nossos ativos à paisagem e à rotina urbana, criamos oportunidades para as marcas participarem desse cotidiano. Quando essa presença oferece informação, serviços ou experiências que fazem sentido naquele momento, a comunicação também pode transformar a relação de quem circula com o espaço ao seu redor.

ABMP: Como a publicidade e a comunicação podem contribuir para criar conexões mais relevantes entre marcas, pessoas e espaços urbanos?

LC: A veiculação de campanhas publicitárias cria inúmeras possibilidades de conexão entre marcas e pessoas, seja no varejo, comunicando promoções, seja no âmbito institucional, reforçando atributos e construindo reputação.

Mas também tem sido cada vez mais frequente o desenvolvimento de projetos especiais e interativos, que geram experiências memoráveis, serviços e benefícios para quem circula pela cidade.

Isso é o que chamamos de storyliving, que vai além do storytelling. Em vez de apenas contar uma história, a marca convida o público a vivê-la. É a valorização da experiência presencial: proporcionar momentos de participação e imersão no cotidiano da população.

ABMP: As cidades estão cada vez mais conectadas por tecnologia e dados. Como isso muda a forma de comunicar e interagir com o público?

LC: A tecnologia e os dados ampliaram a capacidade de planejar e avaliar a mídia exterior. Além da localização dos painéis, agências e anunciantes passaram a contar com estimativas de audiência e métricas como alcance, frequência e impactos, que ajudam a entender os públicos que circulam por cada ambiente e a selecionar os pontos mais adequados aos objetivos de uma campanha.

A digitalização também trouxe mais flexibilidade para o conteúdo. Nos ativos de DOOH, o Digital Out of Home, é possível trabalhar diferentes peças e adaptar as mensagens a lugares, horários e contextos. Assim, uma campanha não precisa se comunicar da mesma maneira em todos os pontos de contato: pode considerar o que faz sentido em cada etapa do trajeto.

Para o público, essa evolução pode resultar em uma comunicação mais pertinente ao momento vivido. Para as marcas, significa combinar inteligência de mídia e criatividade para decidir não apenas onde estar, mas o que dizer e como participar da rotina das pessoas. Os dados orientam essas escolhas, e a tecnologia amplia as possibilidades de colocá-las em prática.

ABMP: Qual é o papel do espaço urbano como mídia e como plataforma de experiências para as marcas?

LC: O espaço urbano faz parte da rotina das pessoas. Para as marcas, ele oferece a oportunidade de não apenas serem vistas, mas de estabelecer vínculos em diferentes momentos dessa jornada.

O projeto Abrigo Amigo Claro, em parceria com a Claro, é um exemplo prático disso. Disponível em Salvador e em outras nove cidades do país, ele utiliza nossos painéis digitais para transformar a espera no ponto de ônibus, oferecendo companhia e aumentando a sensação de segurança. É uma forma de a marca participar do cotidiano por meio de um serviço que beneficia diretamente a população.

A Eletromidia está presente em 22 estados e próxima de alcançar 100 cidades. Nossas diferentes verticais permitem acompanhar esses trajetos nas ruas, nos transportes, em elevadores, shoppings, aeroportos e nos voos com a Azul Linhas Aéreas. Mais recentemente, anunciamos também a entrada no segmento de rodovias, com início na Região Metropolitana de São Paulo.

É assim que buscamos ressignificar o espaço urbano: como mídia, mas também como plataforma de experiências relevantes para marcas e cidadãos.

 

ABMP: Como equilibrar inovação, tecnologia e criatividade sem perder a conexão humana na comunicação?

LC: O ponto de partida são as pessoas. Antes de escolher um recurso ou formato, precisamos entender quem está naquele ambiente, o que está vivendo e de que maneira a comunicação pode contribuir para sua rotina.

A Eletromidia investe de forma consistente em inovação, tecnologia e uma cultura orientada por dados. Esses recursos ajudam a identificar oportunidades, planejar campanhas e avaliar resultados. Mas é a criatividade que transforma essa leitura em uma mensagem ou experiência capaz de despertar interesse e fazer sentido para o público.

Esse equilíbrio também passa pela valorização das pessoas e da gentileza nas relações. Na comunicação, significa respeitar o contexto e a disponibilidade de atenção de cada um. Nem sempre a melhor solução será a mais complexa: uma mensagem objetiva, uma informação útil ou um serviço que facilite o cotidiano podem fazer a diferença. A tecnologia deve apoiar essa conexão, e não ser um fim em si mesma.

ABMP: De que maneira a mobilidade urbana e os novos hábitos das pessoas estão influenciando o comportamento do consumidor?

LC: É nos deslocamentos durante a rotina que as pessoas entram em contato com diferentes espaços, serviços e possibilidades de consumo. As cidades têm investido em BRT, VLT, metrô e outros modais de transporte público para melhorar a mobilidade e a experiência dos moradores. Para as marcas, estações e terminais são ambientes propícios para criar conexões e experiências relevantes para quem está em trânsito.

Essa leitura também se aplica aos deslocamentos rodoviários. Recentemente, a Eletromidia anunciou uma joint venture com a Motiva e a EcoRodovias para levar mídia OOH às rodovias, com início na Região Metropolitana de São Paulo. A iniciativa abre novas oportunidades de contato com as pessoas nesses trajetos.

ABMP: O que torna uma experiência urbana realmente memorável e capaz de gerar conexão com as pessoas?

LC: Creio que existem vários fatores, mas contexto, utilidade e interatividade contribuem muito para isso. O contexto começa por entender onde a pessoa está e o que está vivendo naquele momento. Uma ação pode estar conectada a um evento na cidade, a uma comemoração, a um período específico do mês ou a situações comuns da rotina, como a espera pelo transporte. Quando a marca considera esse momento, a comunicação faz mais sentido para quem a recebe.

A utilidade também é importante: oferecer um serviço, uma informação ou um benefício pode fazer diferença na jornada das pessoas. E, quando existe a possibilidade de interação, elas deixam de apenas ver a mensagem e passam a participar da experiência. É essa combinação que ajuda a criar conexões reais e memoráveis no espaço urbano.

ABMP: Como você enxerga o futuro da comunicação nas cidades: mais digital, mais experiencial ou uma combinação dos dois?

LC: Vejo o futuro como uma combinação dos dois. O digital permite adaptar mensagens a diferentes lugares e momentos, atualizar conteúdos e criar oportunidades de interação. Mas esses recursos só geram uma conexão relevante quando respondem ao contexto e às necessidades de quem está naquele ambiente.

Por isso, a experiência deve orientar o uso da tecnologia. Durante um deslocamento, uma mensagem pode ajudar a descobrir um serviço próximo; em uma espera, um projeto pode oferecer companhia ou informação útil. O futuro não está apenas em ter mais telas ou recursos digitais, mas em usar essas possibilidades para tornar a presença das marcas mais pertinente na rotina das pessoas.

 

ABMP: Quais são os principais desafios para marcas que querem estar presentes na vida urbana de forma relevante, sem serem invasivas?

LC: O principal desafio é entender que estar no caminho das pessoas não significa ter sua atenção garantida. A comunicação precisa respeitar o ambiente e o momento da jornada: quem está de passagem tem uma disponibilidade diferente de quem espera pelo transporte ou circula em um shopping.

Isso exige mensagens claras, adequadas ao tempo de contato e ao contexto de cada espaço. Nem toda presença precisa se transformar em uma experiência interativa. Em alguns casos, uma informação objetiva é suficiente; em outros, um serviço ou projeto especial pode acrescentar valor à rotina.

A relevância vem dessa escolha: participar da vida urbana com uma comunicação que faça sentido para o público, sem exigir mais atenção do que aquele momento permite.

 

O principal desafio é entender que estar no caminho das pessoas não significa ter sua atenção garantida. A comunicação precisa respeitar o ambiente e o momento da jornada: quem está de passagem tem uma disponibilidade diferente de quem espera pelo transporte ou circula em um shopping.

 

Isso exige mensagens claras, adequadas ao tempo de contato e ao contexto de cada espaço. Nem toda presença precisa se transformar em uma experiência interativa. Em alguns casos, uma informação objetiva é suficiente; em outros, um serviço ou projeto especial pode acrescentar valor à rotina.

 

A relevância vem dessa escolha: participar da vida urbana com uma comunicação que faça sentido para o público, sem exigir mais atenção do que aquele momento permite.