Os afetos secretos do Natal
Qual dos Natais que está ganhando mais espaço na preferência das pessoas?
O Natal-cultural, com ceia em família, a árvore e pisca-pisca na sala, os amigos-secretos, festas de firma, partilha de presentes? Ou será o Natal-fim-do-ano-fiscal, com fechamento do balancete e espera do novo ciclo? Ou o Natal-Economia, com o mercado de consumo aditivado com as compras e maior circulação de moeda? Ou o Natal-nostalgia, com o apelo emocional de filmes e musicais, provocando recordações infância e saudade de quem partiu? Todos estes natais estão em alta, só quem perdeu espaço foi o Natal-raiz, o religioso e original, e o significado espiritual da data.
Em um anus horribilis como 2020, com tantas perdas e lutos, minha dica é que seria de extrema relevância reconquistar a dimensão religiosa da data. Falo de religare, o verbo matriz de religião, significa reconectar, reestabelecer vínculos e refazer redes, ação valiosa em tempos de indiferença e apatia. O Natal-religioso, mesmo desfigurado, ainda traz vestígios do sagrado e pode nos encorajar na retomada de valores humanos essenciais.
Entretanto, a força do Natal-espiritual só pode ser acionada com um retorno aos textos do Evangelho sobre os eventos em torno do nascimento de Jesus. Com a ruminatio, ou ruminação, técnica desenvolvida pelos monges de São Bento desde a baixa Idade Média, se consegue mastigar e remoer os textos, extraindo novas revelações.
Textos sagrados não tratam de fatos históricos, são construções teológicas, seu sentido depende de exegese criteriosa. E a Noite Feliz esconde a alternância dos afetos secretos. A alegria do nascimento do Deus-Amor na criança iluminada e o contraste com o representante do ódio na figura do rei Herodes, um tirano tomado pelo medo e pela cobiça, que tenta blefar, até com os reis magos.
Os legendários magos, forasteiros do Oriente, tinham fama de serem instruídos em astrologia ou na ciência da navegação e no cálculo do tempo por meio das configurações estelares. Pertenceriam a uma casta sacerdotal da Média e da Pérsia e se dedicavam ao estudo da sabedoria. Possuíam o dom do discernimento da verdade e arte de decifrar os sonhos.
No Evangelho de Mateus ficamos sabendo que “Herodes os chamou secretamente e lhes perguntou sobre a época exata em que o astro lhes tinha aparecido. E, enviando-os a Belém, disse: “Ide e informai-vos bem a respeito do menino. Quando o tiverdes encontrado, comunicai-me, para que eu também vá adorá-lo”.” Partiram pelo deserto seguindo a mesma “estrela, que tinham visto no Oriente, e que os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou.”
Entregam três presentes ou três atributos simbólicos: o ouro, porque reconhecem que o menino é o Rei dos Judeus. O incenso, exclusivo do sagrado, porque reconhecem o divino na criança. E a mirra, uma erva amarga e curativa, muito usada como anestésico para o tratamento das feridas de torturados e sofredores, antecipação do doloroso futuro da criança e das consequências de seu embate mortal com os futuros representantes do ódio e da mentira, décadas depois.
Mateus registra ainda: “Avisados em sonhos de não tornarem a Herodes, voltaram para sua terra por outro caminho.” Afinal, quem reconheceu a luz da estrela, como eles, não iriam identificar o blefe do representante da mentira e do ódio? A agenda oculta de Herodes era promover um massacre de meninos recém-nascidos, uma ameaça ao seu trono e ao seu delírio de poder. Tudo muito atual.
O Natal-espiritual, como qualquer narrativa densa, se tornou pesado e indigesto. A sensibilidade parece não ver valor em profundidade e complexidade. Será que isso se deve ao fato de nossos corações e mentes terem saído hackeados pelas tecnologias da informação e seus sistemas de controle camuflados nos gadgets ? Nossa privacidade tem sofrido infiltrações de mecanismos sutis de manipulação, os implacáveis algoritmos passaram a pressionar nossas decisões. Será que esses processos estão por trás do desbotamento das cores e das utopias?
Quando circulo em livrarias, por exemplo, constato as consequências brutais deste hackeamento da sensibilidade na estante dos livros mais vendidos. Em suas capas cintilam títulos que clamam pela indiferença e desprezo à solidariedade e debocham da compaixão e da empatia, o afeto maior do Natal. Os títulos são vulgares e agressivos, panfletários e grotescos: desligue-se, a arte de ligar o f*da-se, seja f*da, não tô nem aí…
Quem será?
Ouvi por aí que um quarto rei mago sobreviveu como um highlander e seria um lídimo representante dos três reis. Por onde passa, atrai olhares de admiradores crentes e, sobretudo, de não crentes. Segue à risca o radical da palavra catolicus, isto é, universal, demonstrando estar aberto aos diferentes, aos navegadores dos 7 mares, aos imigrantes e aos moradores de rua.
Completou 84 anos. Puro disfarce, pois é jovem, vigoroso e traz a marca da fé dos magos: a disposição positiva para ir em frente, rumo ao novo e ao futuro. Quem o vê de perto jura que ele ainda monta em camelos.
O velho mago é criador de palavras e reinventou conjugações inéditas para o verbo religare. Religar é reconectar corações anestesiados, fazer laços, sintonizar grupos e criar redes para a preservação da Casa Comum. Vocaliza sonhos que incluem a todos e todas nós, numa roda de esperança e potência. E jamais volta para dar satisfação aos representantes do ódio.
Se a fé dos magos consiste numa disposição positiva para ir adiante, ao futuro e ao desconhecido, a esperança é bem parecida: basta acrescentar a palavra juntos. Adivinhou de quem se trata?
Onde foi parar nossa disposição positiva para o desconhecido e para o futuro? Quando vamos subir de novo nos camelos e cruzar desertos? Como reaver a coragem de perseguir a luz de uma estrela?

Carlos Linhares
Colunista
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