A simplicidade e a sabedoria do óbvio
“Não acredito que estejamos em crise. Não precisamos do externo para nos fortalecer, tudo está dentro de nós. Todos somos encantados. Estamos deixando o encantamento de lado, a degradação vem daí”.
O pensamento acima, ou provocação, é de Pai Francisco de Oxum, mestre espiritual que participou de evento promovido pela Youpper Insights, em 2019, quando a agência completou três anos de atuação.
No dia 21 de maio deste ano, ele, que foi um dos maiores entusiastas e defensores das tradições africanas no Brasil, partiu para outro plano.
Muito mais do que um babalorixá, João Francisco de Lima Filho era um sábio. Alguém que aprendeu com os altos e baixos da vida, com as conquistas e as perdas, que a generosidade e a humildade são dois dos melhores predicados que alguém pode ter nesse mundo.
Nas inúmeras conversas que tive com ele durante o nosso período de convivência, um assunto recorrente era o poder da espiritualidade em nossas vidas, seja no âmbito pessoal ou profissional. E quando falávamos de espiritualidade, não era sobre religiões – algo que as pessoas ainda hoje confundem muito.
Espiritualidade tem a ver com o nosso equilíbrio físico, mental e emocional e, principalmente, como alcançamos esse equilíbrio e nos mantemos constantes mesmo em situações que nos desafiam.
Aliás, o que mais tivemos nesses anos de pandemia foram situações que nos desafiaram de todas as formas. E Pai Francisco de Oxum sempre tinha uma palavra reconfortante para dizer, não algo filosófico – pois, muitas vezes, trazemos dentro de nós que algo transformador precisa ser mirabolante, altamente criativo e nunca visto ou dito por ninguém. Para quem crê nisso como uma verdade absoluta, sinto dizer que, vez ou outra, precisamos ouvir o óbvio para que algo faça sentido. Quantas e quantas coisas não são do nosso conhecimento, mas quando escutamos o mesmo saindo da boca de outra pessoa parece que uma chave vira na mente e, como num passe de mágica, algo passa a fazer todo o sentido?
Pai Francisco tinha de tudo um pouco: reflexões profundas, criativas e inéditas, mas também a simplicidade, a humildade e a sabedoria do óbvio.
Quantos dilemas do nosso cotidiano poderiam ser simplificados se parássemos para refletir sobre essa frase: “não precisamos do externo para nos fortalecer, tudo está dentro de nós”. Isso parece óbvio, não? Mas porque é tão difícil fazer valer em nossas vidas?
Talvez porque olhar para dentro de si seja uma viagem que não estamos preparados. Para entender que tudo está dentro de nós, é preciso, em primeiro lugar, descobrir quem somos. E certamente esse processo não será decorado apenas com flores, pôneis e algodão doce.
Para sermos pessoas melhores para o mundo, é preciso passar por um processo de compreensão de quem se é, do se pode oferecer, de qual o nosso verdadeiro papel nesse mundo e, principalmente, qual a nossa responsabilidade com a gente mesmo. Outro pensamento óbvio e que escutamos pelos quatro cantos, mas me diga se não é real: “para auxiliar o próximo preciso estar bem comigo mesmo”.
Mas o que seria esse estar bem? Quais valores, bens, pessoas, ideias, ações você considera essenciais em sua vida cotidiana?
Era em torno disso e de outros pensamentos que giravam as “provocações” de Pai Francisco. Sentirei falta. Mas, com ele, aprendi a fazer minhas próprias provocações e entender que o óbvio pode me levar além.
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Diego Oliveira
Colunista
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