Alto astral e bom humor, apesar dos pesares

ago/2017

A cabeça da gente contém um caldeirão de conexões, são muitas informações conflitantes e efervescentes onde se processa o humor. Sua manifestação externa se dará sobre a forma de anedotas, piadas, risadas, manobras mentais   inteligentes cuja função é devolver leveza e perspectiva para a percepção do mundo. O alerta é sempre para não nos levarmos a sério demais. Sua função é diminuir a sensação esmagadora do peso da realidade. Sim, podem surgir anedotas em plena tragédia.  E passarmos a tratar os fatos drásticos da existência com aquela percepção de Millôr Fernandes, Dercy Gonçalves, Henfil ou José “Macaco” Simão.

O humor pode ser tanto instrumento de crítica como de alienação, uma estratégia comprovadamente certeira e sedutora de comunicação e aproximação interpessoal como também pode afastar e desunir grupos de pessoas, em sua versão ácida e sarcástica. A seu ver, está faltando humor, leveza, gratuidade e jogo de cintura diante da dura gravidade da vida?

O Brasil anda asfixiado e sem perspectivas. Há medo e violência e nos sentimos reféns dos vampiros fiscais implacáveis onipresentes, tributando e taxando em todos os lados – municipal, estadual e federal -, sugando sangue e renda de quem trabalha e devolvendo deboche e sarcasmo. Dar risada e demonstrar bom humor de repente ficou constrangedor. No Brasil do Baixo Astral a moda é afivelar na cara um ar enfezado e viralizar melancolia. Corta essa.

O humor é uma manobra inteligente cuja função é desautorizar e desmoralizar a autoridade. E a cultura brasileira sempre foi pródiga neste tipo de alquimistas.

Vocês querem bacalhaaaaau? Bradava o adorável Chacrinha, mestre da esculhambação, que atravessou o período da ditadura como um velho guerreiro na arte de desmascarar a hipocrisia e fazer como Odorico Paraguaçu, de O Bem Amado, e as espevitadas irmãs Cajazeiras, Doroteia, Dulcineia e Judiceia, personagens de Dias Gomes: desconstruir a boçalidade e a prepotência dos que se pretendiam levar a sério na eterna Sucupira Brasil.

Salvem os grandes mestres do humor brasileiro como Chico Anysio, pai de Alberto Roberto, o vampiro Bento Carneiro, o fantástico Professor Raimundo, o pai de santo Painho e Salomé, salve, Jô Soares e seu panteão, Grande Otelo, Bussunda, Casseta,  Porta dos Fundos, Terça Insana, os chargistas, as drags, os palhaços, os roteiristas, salve a Grande Família e seus 485 episódios onde pudemos rir do sincretismo de Lineu + Agostinho Carrara, misto exato do rosto do país, salve Marília “Darlene” Pera, salvem todos os que se utilizam do humor para desmascarar a autoridade e desmoralizar a pose de quem sobe no pedestal de ridícula onipotência.

O genial Monteiro Lobato precisou criar Emília para vocalizar uma infância sem censura e engraçada. Percebeu, naquela época, que só uma boneca poderia encarnar a torrente de asneiras no Brasil do sítio do Pica Pau Amarelo. Só Emília podia errar, pintar e bordar e não levar nada a sério. O Visconde de Sabugosa, irritado com suas sandices, certa vez pergunta quem ela era. E escuta a bem-humorada resposta – “Eu sou a Independência ou Morte”. Ressoem as gargalhadas!

No Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, Chicó e João Grilo se utilizam do bizarro enterro da cachorra para mobilizar estruturas pesadas de uma sociedade feudal e moribunda. Com ginga e ironia,  dobram o coronel do latifúndio, enrolam comerciantes,  cangaceiro, líderes da igreja e até o capeta. E acham compaixão do coração de Jesus cuja Mãe se compadece e os traz de volta ao sertão. É a graça divina. É a face do humor como força propulsora e criadora de mudança.

O lado sombrio do humor existe. Nutre-se de generalizações e é cooptado pelo poder. Uma profusão de clichês e estereótipos sexistas, racistas e preconceituosos imperam em programas humorísticos e no imaginário das piadas. Aos poucos, caiu a ficha e o Zorra Total virou Zorra, produzindo graça sem precisar atingir homossexuais, mulheres, negros e repetir velhos clichês.

Como o humor engajado e mesclado com jornalismo tipo CQC ou Pânico é desconcertante, puxa com vigor o tapete de figuras públicas in loco, no congresso e nos palácios. Atrai a ira dos poderosos que querem crucificar os palhaços-repórteres e desperta o fantasma da censura. Há quem perceba abusos e advogue por limites na expressão do humor. Uma piada de mau gosto, como a de Rafinha Bastos, acarretou sua demissão do CQC. Ações judiciais se multiplicam e, em Paris, o ódio ao humor explodiu a redação do tabloide Charlie Hebdo, deixando 12 mortos.

Qual a diferença moral entre a sátira e o sarcasmo? A primeira teria uma utilidade social: denunciar a mentira e revelar que o rei está nu, como no conto de H. C. Andersen. O sarcasmo seria, entretanto, uma traição ao bom humor.

Sobre a ironia Rainer Maria Rilke, em trecho de sua “Cartas ao um jovem poeta”, advertia sobre os riscos de dosagem no seu emprego. Excelente recurso, mas viciante e perigoso. Exige habilidade de quem pratica. Facilmente o autor pode perder a direção do âmago das coisas, da gravidade do que se está descrevendo. E em lugar de desmoralizar a autoridade, função da ironia, o autor se torna inebriado com a própria acidez e ainda mais autoritário do que aquele ou aquilo que critica. O feitiço do sarcasmo se volta contra o feiticeiro.

Vamos abrir um espaço maior para o humor e a sátira dentro de nós. Pode favorecer uma vida física e psíquica mais leve. Sim, o humor pode ser um aliado da realidade.

Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.

Mais artigos

Está na moda ser publicitário de novo. E você sabe porquê?

Você sabe como os influenciadores ganham dinheiro? E quem paga a assinatura da Netflix pela metade do preço? E aquele post sensacional do prédio novo? E o vídeo do mais novo lançamento da Apple? E a ação de marketing do novo carro da Tesla? Pois é meus amigos e minhas...

ler mais

Axé para quem é de Axé! Axé, Anitta!

A perda de seguidores após uma revelação religiosa pode ser encarada como um verdadeiro livramento divino. Aqueles que se afastam de nós nesse momento estão apenas mostrando que não estavam verdadeiramente alinhados com nossos valores e crenças mais profundas. É...

ler mais

IA na Publicidade: Estímulo ou Ameaça à Criatividade? 

O mundo da publicidade vive uma revolução com o avanço da Inteligência Artificial (IA), especialmente no campo da IA generativa (GenAI), que traz uma disrupção para a forma como o trabalho criativo e analítico é feito. Isso gera desejo e medo nos profissionais da...

ler mais

Seja bem-vinda Madonna, e volte mais vezes.

Sou educado, mas não me julgue, pois não assisti ao show ou me empolguei com a artista no Brasil. Motivo – não gosto muito desse tipo de evento miraculoso, que envolve mais encenação do que recursos e talentos em si. Todavia, isso não invalida a minha noção de que a...

ler mais

WEB SUMMIT: o que o summit dos summits resolve pro Brasil?

Para saber agora mesmo se você faz parte da bolha dos bem-sucedidos é simples: abra o LinkedIn e veja se no seu feed alguma das últimas cinco publicações é sobre o Web Summit.O summit dos summits aconteceu entre os dias 16 e 18 de maio, no Rio de Janeiro. Nos palcos,...

ler mais

Não era amor. Era pix. A relação por interesse.

Em um mundo cada vez mais movido por interesses e conveniências, é comum nos depararmos com relacionamentos que se baseiam em trocas e benefícios mútuos, em detrimento de sentimentos genuínos e conexões emocionais reais. O que antes era conhecido como amor, agora...

ler mais

junte-se ao mercado