Anos 70 na Bahia. E eu fazendo o que por aqui?
Falar dos anos 70 na Bahia, tema do livro coordenado pelo querido amigo Sérgio Siqueira e o escritor Afonso Costa, lançado este mês, não é conversa para menores e já vou aqui me desculpando por isso #SQN. Imagine você leitor se a obra fosse lançada naqueles idos onde uma mulher pelada na capa de uma revista masculina (Ele) era o suficiente para a censura mandar recolher todos os exemplares em bancas.
Pense ai o que ocorreria com o livro em questão onde o devaneio de mais de 200 autores com as mais íntimas revelações se perde entre a utopia e a poesia. Lembranças em torno de uma década marcada pela contestação, uma revolução de costumes que se deu através do ativismo político, da contracultura, ou, da simples loucura, deixa eu pirar que assim é melhor. Sem rasgar dinheiro, porque dinheiro não existia.
Sorte nossa que não estamos mais nos anos 70 e o livro pode ser lido sem culpa, embora eu faça questão de dizer de novo: não é conversa para menores. Mas se não existe mais a censura de farda e boné, temos que lidar com a burrice dos robôs do Facebook, tão ignorantes que não conhecem e não sabem apreciar a importância da bunda de Ney Matogrosso em Arembepe, nem os peitos de fora de Janis Joplin, no Rio Vermelho, motivos para tirar do ar os posts sobre o blog “Anos 70 na Bahia” que deu origem ao livro. Censura lá, censura cá, deixa isso que não nos compete.
E lá vou eu caindo do céu numa tarde ensolarada do dia 7 de setembro de 1973 na Bahia de Todos os Santos e Todos os Pecados, então com maior afinidade para a primeira, vivi em estado de graça e pureza absoluta até a minha reintegração na sociedade de consumo, já na década de 80 quando assumi a Bahia de Todos os Pecados dos quais não consigo me livrar por mais que me esforce. E não quero sua ajuda, já vou avisando. Como ia dizendo cai do céu nesta terra linda e maravilhosa sem imaginar que daqui mesmo um dia retornaria ao céu, entre trombetas e clarins de anjos, como nos afrescos de Michelangelo, espero que não tão cedo.
Na minha santa vivência dos anos 70 as lembranças se confundem e hoje transcorridos tantos anos de barulho, desde quando deixei as sandálias para usar sapatos e me vesti como gente e aparei as melenas como gente, não distingo mais o contexto quando um amigo, ou amiga, do passado, num desses reencontros da vida, diz ter me conhecido na Ilha, ou, em Arembepe. Se é homem penso logo e tenho a impressão de que eu peguei a mulher dele, ou, então ele pegou a minha; se é mulher acho que já transei com ela e se não me recordo dos detalhes é porque os devaneios do chá de cogumelos, ou, do chá de Datura não me permitiam, naqueles idos, ter um faro assim tão aguçado. Deixo o amigo, ou, amiga falarem e ficou catando as palavras, uma por uma, para ver se reencontro o contexto.
Mas, dureza mesmo, mais dramático do que decifrar o contexto é se olhar no espelho todos os dias e não ver mais o hippie de 20 anos com a áurea que a muitos encantava, com seu olhar sereno e a expectativa de reinventar a vida a partir das coisas simples, reencarnar ainda vivo como se isso fosse possível. Não o vejo mais no espelho, tenho saudades dele. Sinto apenas a sua cumplicidade comigo e nestes dias em que os Anos 70 voltam a mídia, num registro com a coautoria de 200 autores, torço para que o espelho me revele de uma vez por todas quem eu sou, quem sou eu. Enquanto chega minha hora de retornar ao céu.

Nelson Cadena
Colunista
Escritor, jornalista e publicitário.
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