“Dia das Mães” é arte de baiano.
Maio sugere para o mercado publicitário o Mês das Mães e, nem tanto, o Mês das Noivas que tem uma dinâmica de divulgação própria, com canais muito específicos de relacionamento. Nenhuma agência de propaganda se importa com noivas.
O Mês das Mães, ao contrário, tornou-se a mais importante data promocional do varejo, fora o Natal. E não apenas do varejo, hoje outros segmentos anunciantes tentam pongar na data que mexe com o sentimento coletivo, uma cultura já assimilada de expressar o nosso amor filial, presenteando mães, avôs e bisavós.
E no clima, o almoço em família que faz a felicidade dos proprietários de restaurantes e a agonia dos clientes com as filas intermináveis e insuportáveis, tudo vale para agradar a mãe. Os donos dos ditos estabelecimentos mal sabem que nessa confusão as suas queridíssimas mães são as mais lembradas.
O Dia das Mães é invenção de baiano. Não estou mentindo e nem se trata de uma brincadeira. É invenção de baiano, sim. Explico em seguida.
Em 1949 o baiano João Dória, pai do atual prefeito de São Paulo, viajou aos Estados Unidos, então como diretor da Standard Propaganda, e impressionado com a adesão do comércio nova-iorquino à data, trouxe na bagagem a sugestão de implementar entre nós as técnicas de promoção de vendas que aferira no exterior com resultados extraordinários.
Assim nasceu, por artes de um baiano, o Dia dos Mães no Brasil.
Em 1957 outro baiano, residente em Salvador, Otávio Oliveira de Carvalho, admirador de Dória e da Standard, resolveu pôr em prática o que lera na revista Propaganda e Negócios-PN sobre o assunto. Carvalho recém tinha fundado uma agência de propaganda com o nome de Publivendas, hoje ainda atuante no mercado, a Morya que todos conhecemos e admiramos.
Então, Otávio criou um concurso de vitrines para o Dia das Mães e com isso movimentou o comércio e ao mesmo tempo se aproximou de pequenos varejistas, alguns deles seriam mais tarde seus clientes. O irmão mais novo, Fernando Carvalho, encarregou-se de fazer a cobrança da cota estipulada, de porta em porta. Deu certo.
E assim nasceu o Dia das Mães ente nós, ainda uma data tímida, sem muita expressão, mas que logo mais se tornaria a mais importante do varejo, fora o Natal, na medida em que a propaganda fez a sua parte, estimulando, naquele tempo, a compra de artigos para o lar para presentear as nossas Rainhas do Lar.
O machismo era cultural, muito mais do que hoje, de modo que as mães sentiam-se homenageadas e muito felizes ao receber um ferro de passar, ou, um conjunto de panelas, um aspirador de pó, de presente. Que horror! Naquele tempo empoderamento era um mal falado poeira no tapete, ou, atrás da porta.

Nelson Cadena
Colunista
Escritor, jornalista e publicitário.
Mais artigos
O preço das promessas e o valor do equilíbrio
Há um momento na vida em que a gente percebe que não dá mais pra se deixar seduzir por promessas. Promessas de reconhecimento, de sucesso, de amor, de pertencimento. Elas vêm embrulhadas em discursos bonitos, em convites empolgados, em projetos que parecem...
Papo reto sobre neuromarketing
Vivemos em um mundo supersaturado de informações e produtos. Conhecer as respostas cerebrais permite criar estratégias de comunicação mais inteligentes e que realmente ressoam no consumidor, destacando-se em meio ao ruído. A lealdade atinge nível mínimo (3%) e os...
Atenção: o novo ouro do marketing (e o novo caos da mente)
Você já percebeu que a nossa atenção está desaparecendo em câmera lenta?A cada scroll, um pedaço do nosso foco se dissolve em meio a uma avalanche de estímulos. Vivemos na era da hiperconectividade e, também na era da hiperdistração. E o mais curioso é que, enquanto...
WOW Moments: o poder do encantamento na experiência
Em um mundo cada vez mais saturado de informações, produtos e serviços, conquistar a atenção das pessoas é apenas o primeiro passo. O verdadeiro desafio está em gerar impacto, em criar lembranças que ultrapassem a lógica da satisfação funcional e toquem a emoção. É...
A nova batalha do voto: por que a percepção do “rumo certo” transcende a aprovação do líder
O Brasil se aproxima de 2026 com um cenário político marcado por uma tensão estratégica entre percepção e aprovação. De um lado, o presidente Lula mantém uma base sólida de apoio pessoal, resultado de seu capital simbólico, histórico político e ações recentes que...
Brasil acelerado, Portugal paciente (?): Duas formas de viver o digital
Mudar de país é também mudar de perspectiva. Quando cheguei a Portugal, descobri que aquilo que parecia óbvio para mim, vindo do mercado brasileiro de comunicação, não era tão evidente por aqui. O digital, que no Brasil é quase um requisito de sobrevivência para...
junte-se ao mercado
