Entrevista: Cláudio Carvalho – CEO da Morya Comunicação
“Chegar aos 70 anos significa, antes de tudo, estar muito feliz e orgulhoso da nossa história. Mas significa também estar totalmente focado para a frente.“

ABMP: Como a antiga Publivendas se transformou na Morya e quais foram os principais marcos dessa trajetória de 70 anos?
CC: Exatamente isso: a resposta está, de certa forma, na própria pergunta. Houve uma transformação no modo de fazer da agência. A Publivendas se tornou uma agência mais flexível, mais criativa e mais preparada para os novos tempos, sem perder a nossa essência de credibilidade e o foco nos resultados para os nossos clientes. E, acompanhando essa transformação, veio também a mudança do nome, projetando a agência para o futuro.
Quando completamos 25 anos, a Publivendas fez uma campanha cujo conceito dizia: “Mudando sempre para continuar sendo sempre a mesma.” Acho que é exatamente por aí.
São 70 anos de muitos marcos e muitas histórias para contar. Quando Tio Otávio fundou a Publivendas, ele percorria a Avenida Sete e a Rua Chile vendendo anúncios. Naquela época, alguns comerciantes chegavam a pendurar cartazes na entrada das lojas dizendo: “Não damos esmolas e não fazemos reclames.” Foi praticamente um desbravamento de mercado.
Depois veio Tia Gilda e, na sequência, meu pai, Fernando Carvalho, que foi nosso grande líder durante toda a vida e que hoje representa o nosso DNA.
Ao longo dessa trajetória, a agência foi se profissionalizando e chegou a ser a 23ª maior agência do Brasil e a maior fora do eixo Rio-São Paulo.
Tivemos contas muito importantes e marcantes na nossa história. A Rede Paes Mendonça, por exemplo, passou por seis donos e foi nossa cliente durante 40 anos. Atendemos contas públicas em diferentes momentos da nossa história e fizemos campanhas memoráveis, como a campanha dos 70 anos de A Tarde e a Poupança dos Tranquilões com o elenco dos Trapalhões para o Baneb.
Também trabalhamos com empresas como a Copene hoje Braskem, com o mercado imobiliário e com telefonia celular, inicialmente para a Maxitel e depois para a TIM. Nesse momento, fizemos parte da 4×4, uma empresa voltada para o atendimento de uma parte da conta nacional.
Tivemos ainda trabalhos importantes para produtos e marcas como a Obrigado, que ganhou o Brasil com uma campanha baseada no conceito “Água de coco de verdade”. Também criamos o movimento “Leia o rótulo e compare”, entre muitos outros trabalhos que marcaram a nossa trajetória.
Na nossa trajetória, a coragem sempre foi uma marca. Tivemos vários movimentos de atuação em outros estados e mercados. Estivemos em Recife, em João Pessoa, na Paraíba, e durante muito tempo tivemos uma unidade em Belo Horizonte, para onde fomos a convite da Maxitel.
Também tivemos atuação no Rio de Janeiro, por meio da 4×4, e em São Paulo, onde trabalhamos durante um bom tempo no atendimento ao Walmart. Tivemos ainda uma unidade em Porto Alegre, que foi muito bem-sucedida e acabou sendo importante também em um processo de reorganização societária mais adiante.
Mais recentemente, em 2024, também abrimos uma frente de atuação no Ceará.
Essa coragem de estar presente em outros estados, abrir novas frentes, explorar novos mercados e criar unidades próprias sempre fez parte da nossa história. Também tivemos movimentos importantes de fusão no mercado. Um dos mais emblemáticos aconteceu aqui na Bahia, entre 1988 e 1989, quando fizemos uma fusão muito importante com a agência local Engenhonovo.
Outro aspecto muito importante da nossa história é o nosso DNA associativista, que sempre foi uma marca da Publivendas e hoje também faz parte da Morya. Esse DNA vem muito do meu pai, Fernando Carvalho. Ele foi o primeiro presidente e fundador do SINAPRO na Bahia e também o primeiro presidente e fundador da ABAP na Bahia. Eu também tive a oportunidade de presidir a ABAP em duas oportunidades e, atualmente, sou conselheiro do SINAPRO na Bahia. E Paula, minha filha, atualmente é diretora da ABAP BA.
As premiações também sempre estiveram muito presentes na nossa trajetória. Fomos Agência do Ano em cinco oportunidades. Eu fui Publicitário do Ano duas vezes, e meu pai, Fernando Carvalho, também recebeu esse reconhecimento.
Tivemos ainda o Prêmio Profissionais do Ano, da Rede Globo, tanto na categoria nacional quanto na regional. Conquistamos prêmios internacionais com trabalhos e relatórios de atividade para a Copene, em Londres e em Nova York.
Mais recentemente, tivemos premiações que mostram a vitalidade e a capacidade de inovação da empresa, como os reconhecimentos no Prêmio Lusófonos, em Portugal, inclusive com um Grand Prix na categoria de Inteligência Artificial.
Outro marco foi a mudança do nome de Publivendas para Morya, em 2004. Foi uma mudança que projetou o negócio para a frente e representou uma nova etapa da nossa história.
Em 2011, tivemos outro movimento muito importante: a associação com o Grupo ABC, de Nizan Guanaes, Guga Valente e fundos de investimento. E é importante dizer que não foi um simples acordo operacional. O Grupo ABC comprou 51% da Morya. Foi um marco no mercado nacional, um dos primeiros movimentos mais robustos de aquisição de participação em uma agência regional.
Operamos junto com o Grupo ABC até 2018, 2019. Em 2016, o ABC foi vendido para o Grupo Omnicom, uma das maiores holdings de agências e serviços de publicidade do mundo. Durante aquele período, convivemos diretamente com uma estrutura global e com os executivos do Grupo Omnicom.
Em 2019, eu recomprei as ações e minha família voltou a controlar 100% da agência. Foi um período incrível de retomada, o início de um novo ciclo, muito importante e marcante para nós.
Hoje, operamos com uma carteira de clientes bastante diversificada e temos cerca de 100 moryanos e moryanas na nossa operação. E tudo isso continua sendo conduzido com aquilo que considero a nossa essência: o DNA Fernando Carvalho.
Então, quando olho para esses 70 anos, vejo uma história marcada não apenas pela longevidade, mas pela capacidade de se movimentar, assumir riscos, abrir caminhos e se reinventar. A Morya mudou muitas vezes para continuar sendo essencialmente a mesma: uma agência com credibilidade, coragem, criatividade, foco em resultados e compromisso com os seus clientes e com o mercado.
ABMP: Quais valores permaneceram os mesmos ao longo de sete décadas?
CC: Como falei na pergunta anterior, quando completamos 25 anos, fizemos uma campanha que dizia: “Mudando sempre para continuar sendo sempre a mesma.” Acho que essa frase traduz muito bem a nossa história.
Os valores que vêm do DNA Fernando Carvalho permanecem absolutamente presentes: a credibilidade, o foco nos resultados para os clientes e a capacidade de construir relações de longo prazo.
Hoje, trabalhamos com o que chamamos de nossos três Cs: Consistência, Consciência e Criatividade. Eles são fruto desse DNA e também da evolução da agência ao longo do tempo.
Consciência significa liderar nossas atitudes. É ter clareza de que cada escolha, cada comportamento e cada entrega tem uma consequência.
Criatividade, para nós, é quando unimos duas coisas: de um lado, a coragem para inovar; do outro, o conhecimento. Porque criatividade não é apenas ter uma boa ideia. É ter coragem para propor algo novo, mas também conhecimento para fazer essa ideia funcionar.
E consistência é manter um padrão de entrega e de postura, independentemente das adversidades externas que possam surgir. É continuar fazendo bem feito, mantendo os nossos princípios e a nossa qualidade.
Gosto muito de uma expressão pernambucana que resume bem essa forma de pensar: “farol baixo, farol alto”.
Com o farol baixo, você consegue enxergar o caminho imediato e vai desviando dos buracos. Mas, com o farol alto, você tem clareza de onde quer chegar.
Acho que é assim que a Morya trabalha: com atenção ao caminho, com consistência nas entregas, mas sempre mantendo o farol alto, sabendo onde quer chegar.
No fundo, é isso que permaneceu ao longo dessas sete décadas: a nossa essência. Mudamos os formatos, as ferramentas, os mercados e a maneira de fazer publicidade. Mas a credibilidade, o compromisso com os resultados, a coragem para inovar e a responsabilidade com o que fazemos continuam sendo os mesmos.
ABMP: Qual campanha ou projeto mais representa a essência da Morya?
CC: Em 70 anos, são muitas campanhas e projetos memoráveis. Desde o primeiro concurso de vitrines, há sete décadas — uma ação que hoje chamaríamos de live marketing — até campanhas que ficaram na memória do público.
Tivemos, por exemplo, a campanha dos 70 anos do jornal A Tarde, com José Wilker, na época do filme Dona Flor e Seus Dois Maridos, com a música “Leia A Tarde, leia, leia A Tarde”. Tivemos a Poupança dos Tranquilões, do Baneb, primeiro com o elenco completo dos Trapalhões e, depois, com a Turma dos Tranquilões, com a Turma da Mônica, de Maurício de Sousa.
Tivemos campanhas para o Paes Mendonça, como Aniversariante Liquidante, e para o Bompreço, com campanhas que chegaram a fazer parte do domínio popular como “Ali, pertinho do Bompreço”. Enfim, são muitas ações e campanhas incríveis.
Mas, se eu tivesse que destacar projetos que representam especialmente a essência da Morya, escolheria dois.
O primeiro foi o BH 360, em Belo Horizonte.
Na época, nós estávamos realizando o Festival de Verão em Salvador. A líder do cluster de entretenimento e turismo de Belo Horizonte nos procurou porque, em janeiro, a cidade ficava mais vazia, e ela queria criar um festival de verão lá.
Nós voltamos para casa e demos dois passos para trás para olhar a floresta toda. E aí entra um aspecto importante da essência da Morya: a consciência, a atitude de liderança diante do problema e a disposição de estudar antes de simplesmente executar.
Analisamos a situação e concluímos que um Festival de Verão, nos moldes de Salvador, não era necessariamente a solução mais adequada para Belo Horizonte. Então fomos buscar a verdade daquela cidade.
Descobrimos que Belo Horizonte tinha uma vocação muito forte para esportes radicais e de aventura, com um calendário já existente e diversas associações atuantes em atividades como trilhas, balonismo, skate e outras modalidades.
A partir daí, criamos o BH 360, consolidando e dando visibilidade a esse calendário de esportes e aventura. Conseguimos o apoio da mídia e o projeto foi um grande sucesso.
Na sequência, veio uma campanha de autoestima de Belo Horizonte. E é interessante que, cerca de 20 anos depois, ainda encontramos pessoas usando a camisa “Eu amo BH radicalmente”.
Acho que essa estratégia representa muito a essência da Morya: estudar de forma consistente, enxergar o melhor caminho, construir a partir da verdade do cliente e, a partir daí, criar algo que faça sentido para a comunidade. Quando o caminho é verdadeiro, o gol fica muito mais fácil.
O segundo exemplo é muito recente: a plataforma Fala Filho, criada para o Ministério Público da Bahia.
O problema que chegou até nós era: precisamos criar uma solução para enfrentar a violência contra crianças e adolescentes no ambiente digital.
Mais uma vez, começamos estudando o problema de forma colaborativa com o cliente. E entendemos que havia uma situação muito importante: muitas vezes, os pais imaginam que, quando a criança ou o adolescente chega em casa e entra no quarto, está seguro.
Mas não necessariamente. O celular começa a agir naquele momento e a violência também pode acontecer no ambiente digital.
Identificamos, então, um grande gap de comunicação entre pais, responsáveis e filhos e filhas. A partir daí, criamos a plataforma digital Fala Filho, que oferece caminhos para que pais e responsáveis possam construir um diálogo com seus filhos sobre uma questão tão delicada quanto a violência contra crianças e adolescentes no ambiente digital.
A plataforma foi criada pela Morya, acompanhada de toda uma campanha publicitária, com o conceito de que “o cuidado não pode ficar só no off”.
É uma campanha que representa muito bem a nossa essência: entender profundamente o problema, trabalhar de forma colaborativa, buscar uma solução verdadeira e usar a criatividade para transformar uma questão complexa em algo que possa gerar impacto real.
E é também um projeto que mostra a nossa capacidade de continuar inovando. A campanha foi muito premiada e recebeu recentemente um reconhecimento internacional, incluindo um Grand Prix de Inteligência Artificial.
Então, se eu tivesse que resumir a essência da Morya eu diria que é estudar, entender, ter consciência, buscar a verdade e, a partir daí, usar a criatividade e a coragem para construir soluções que realmente façam sentido.
ABMP: Como a agência acompanhou as transformações da publicidade, do analógico à era da inteligência artificial?
CC: Sempre com os nossos valores como guia, especialmente o nosso DNA Fernando Carvalho e os nossos três Cs: Consciência, Consistência e Criatividade.
Todas as transformações do mercado e as evoluções tecnológicas sempre foram encaradas por nós como uma oportunidade, quase como um presente, porque representam desenvolvimento.
Meu pai dizia uma coisa muito interessante: “O que puxa a agência é cliente bom.” O cliente bom é aquele que traz desafios, que nos provoca e que nos obriga a evoluir. E, ao mesmo tempo, o próprio mercado impõe transformações.
Foi assim na passagem do analógico para o digital e está sendo assim agora com a inteligência artificial. Nós sempre enfrentamos essas mudanças com coragem. Acho que essa é uma marca importante da nossa trajetória.
É interessante pensar que quem começou vendendo anúncios na Avenida Sete, há 70 anos, também participou do primeiro concurso de vitrines e fez um dos primeiros comerciais ao vivo. Ou seja, a nossa história sempre esteve ligada à inovação e à disposição de experimentar novas formas de fazer comunicação.
Hoje, a Morya se posiciona como um ecossistema multidisciplinar, com criatividade e consistência no centro. Temos, por exemplo, um hub de conteúdo que atua na gestão de redes sociais, na curadoria de influenciadores e na produção de conteúdo, com uma estrutura que vem entregando aos nossos clientes a intensidade e a qualidade que eles precisam.
A inteligência artificial também está se espalhando pela agência de uma maneira muito planejada. Hoje temos ferramentas de inteligência artificial sendo utilizadas em diferentes áreas da operação, desde a criação de vídeos e imagens até ferramentas que aumentam a produtividade no dia a dia da agência.
Tudo isso, evidentemente, dentro de critérios de responsabilidade e compliance.
A inteligência artificial não me assusta. Pelo contrário: estamos avançando fortemente nesse tema. Eu diria que, dentro das nossas possibilidades e da nossa realidade, estamos liderando esse movimento dentro da nossa equipe e da nossa operação.
Mas acho que o mais importante é que tecnologia, por si só, não resolve tudo. A tecnologia precisa estar a serviço de uma estratégia, de uma boa ideia e de uma necessidade real do cliente.
E essa talvez seja a grande lição dos nossos 70 anos: as ferramentas mudam. O mercado muda. O comportamento das pessoas muda. Mas a coragem para enfrentar as transformações, a consciência para entender o que realmente faz sentido e a criatividade para construir novas soluções continuam sendo fundamentais.
Quem teve coragem de sair vendendo anúncios pela Avenida Sete há 70 anos, de fazer o primeiro concurso de vitrines e de experimentar novas formas de comunicação certamente pode olhar para a inteligência com coragem para avançar.
ABMP: O que mudou na relação entre agências e clientes nesses 70 anos?
CC: Conceitualmente, eu diria que não mudou tanto.
O cliente de 70 anos atrás, de 50 anos atrás e o cliente de hoje continuam buscando, fundamentalmente, uma relação de confiança com a sua agência.
Lembro-me de um anúncio que fizemos há mais de 30 anos, ainda na época da Publivendas. Era a imagem de um par de alianças e o texto dizia algo como: “Antes de entregar seus segredos, suas coisas mais íntimas a alguém, esteja certo de fazer isso com alguém de confiança.” E a assinatura era: “Publivendas, uma agência em que você pode confiar.”
Acho que essa ideia continua muito atual.
O cliente continua buscando confiança, compromisso com resultados, transparência, qualidade na entrega, inovação e uma atitude ativa e propositiva por parte da agência.
Isso não mudou.
O que mudou foram as possibilidades e a velocidade da relação. O mercado se transformou, a tecnologia ampliou enormemente as ferramentas disponíveis e hoje os clientes esperam muito mais agilidade e velocidade nas respostas e nas entregas.
Mas existe um desafio importante: essa velocidade precisa vir acompanhada de qualidade.
Então, se eu tivesse que resumir, diria que a relação entre agência e cliente mudou na forma, mas não na essência. Hoje temos mais canais, mais dados, mais tecnologia e mais possibilidades de atuação. Porém, no fundo, o cliente continua querendo a mesma coisa: uma agência em que possa confiar, que entenda seus desafios, que seja transparente, que tenha compromisso com os resultados e que esteja ao seu lado de forma ativa e propositiva.
A tecnologia acelerou a relação. Mas a confiança continua sendo a base.
ABMP: Qual foi o maior desafio enfrentado pela Morya e como ele foi superado?
CC: Numa trajetória de 70 anos, nem tudo são flores. Tivemos desafios importantes ao longo do caminho. Mas eu destacaria um momento especialmente forte e marcante para a nossa história: o falecimento do meu pai, Fernando Carvalho, em 3 de janeiro de 2016.
Foi um momento muito difícil, evidentemente, pela minha relação de filho. Mas foi também um desafio extraordinário para a agência. Meu pai não era apenas o meu pai. Ele era o nosso grande líder, o nosso farol e, de certa forma, a própria expressão do DNA da agência.
Então, naquele momento, surgiu uma questão muito forte: como manter vivo o DNA Fernando Carvalho?
O desafio era preservar os valores, a cultura e os princípios que ele construiu ao longo de toda a sua trajetória, fazendo com que eles continuassem vivos e relevantes para uma nova geração.
Desde então, temos trabalhado muito fortemente na nossa cultura. Cultura o dia inteiro, com toda a nossa equipe. Falamos sobre esses valores, sobre a forma de trabalhar, sobre a importância da credibilidade, do compromisso com os clientes, da coragem e da responsabilidade. O objetivo é manter vivo esse DNA, não como uma fotografia do passado, mas como algo que continua evoluindo.
Esse momento também foi um dos fatores que me levaram, posteriormente, à reorganização societária da agência, entre 2018 e 2019. Foi um processo longo, no qual recomprei a participação societária que não estava nas minhas mãos e nas mãos da família, retomando o controle de 100% da Morya.
Foi o início de um novo ciclo. E, olhando hoje, a prática tem demonstrado que foi uma decisão acertada. Tivemos uma evolução importante na maturidade da operação, mantivemos relações sólidas com nossos clientes e avançamos também na conquista de novos negócios.
Ao mesmo tempo, essa reorganização tinha também um significado familiar muito importante para mim. Eu quis dar aos meus filhos a mesma oportunidade que tive com meu pai.
Hoje tenho uma filha trabalhando comigo, Paula. Minha outra filha, Ana Vitória, já esteve conosco e poderá voltar em algum momento. E meu filho, Pedro, também tem as portas abertas para estar conosco no futuro.
Então, esse processo representou não apenas uma reorganização empresarial, mas também a continuidade de uma história familiar.
Outro desafio importante foi a perda de uma conta que era central para a nossa história: a conta que começou com a Rede Paes Mendonça e que, ao longo do tempo, passou pelas mãos de seis diferentes controladores. Entre eles, o Bompreço, de João Carlos Paes Mendonça, depois os holandeses e, posteriormente, o Walmart.
Em 2014, deixamos de trabalhar para o Walmart, que era o último controlador da rede com quem havíamos nos relacionado.
Foi um momento difícil, mas também foi um momento de renovação e reinvenção da agência. A partir dali, tivemos que repensar o nosso modo de fazer, buscar novos caminhos e definir com mais clareza o nosso cliente ideal, dentro de uma estratégia de crescimento e posicionamento no mercado.
Em vez de olhar apenas para a perda, usamos aquele momento como uma oportunidade para nos reinventar.
Então, se eu tivesse que resumir o maior desafio da Morya, eu diria que foi aprender a atravessar momentos de profunda transformação sem perder a nossa essência.
A morte do meu pai nos obrigou a lidar com a ausência física do nosso maior líder. A perda de uma conta histórica nos obrigou a nos reinventar. E a reorganização societária nos permitiu construir um novo ciclo.
Em todos esses momentos, a resposta foi a mesma: preservar os valores fundamentais, mas nunca parar de evoluir.
É isso que temos procurado fazer até hoje: manter vivo o DNA Fernando Carvalho, não como algo parado no tempo, mas como uma cultura viva, que se manifesta diariamente na forma como trabalhamos, nos relacionamos com os clientes e construímos o futuro da Morya.
ABMP: NQue momentos marcaram a história da agência na Bahia e no mercado nacional?
CC: A Bahia é o nosso berço. Foi aqui que nascemos e construímos toda a nossa história. Então, são muitos os momentos marcantes.
Começaria pela própria fundação da Publivendas, há 70 anos, num mercado que ainda estava se estruturando. Meu tio Otávio foi um verdadeiro desbravador, saindo pela Avenida Sete e pela Rua Chile para vender anúncios. A agência nasceu nesse ambiente de pioneirismo e de construção de um mercado.
Depois, tivemos a profissionalização da operação, a mudança do nome de Publivendas para Morya e também movimentos importantes de fusão e transformação que mexeram com o mercado publicitário baiano.
Também considero muito marcante toda a nossa participação no associativismo. Meu pai foi fundador e primeiro presidente do SINAPRO na Bahia e também fundador e primeiro presidente da ABAP na Bahia. Eu tive a oportunidade de presidir a ABAP em duas ocasiões e hoje sou conselheiro do SINAPRO e Paula, minha filha, diretora da ABAP BA.
Essa participação foi uma forma de contribuir não apenas para a nossa agência, mas para a organização e o desenvolvimento de todo o mercado publicitário baiano.
No mercado nacional, sem dúvida, o momento mais impactante foi a associação com o Grupo ABC, em 2011. O Grupo ABC adquiriu 51% da Morya, num movimento que foi historicamente muito importante e que representou um dos primeiros movimentos mais robustos de aquisição de participação em uma agência regional.
Mas eu também destacaria todas as nossas iniciativas de expansão para outros mercados.
Há décadas, tivemos a coragem de abrir frentes em diferentes estados. Atuamos em Recife, João Pessoa, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Também tivemos, mais recentemente, a abertura da nossa unidade no Ceará, iniciada em 2024.
Meu pai também participou, décadas atrás, de uma iniciativa chamada União Brasileira de Agências, que reunia agências espalhadas por diferentes regiões do Brasil.
Então, existe uma linha que conecta todos esses momentos: a coragem.
A coragem de abrir uma agência quando o mercado ainda estava começando. A coragem de fazer uma fusão, de se associar, de entrar em novos mercados e de construir novas frentes de atuação.
Meu pai tinha muito essa característica. Eu também tenho. Diante de uma situação, a nossa tendência sempre foi dizer: vamos avançar, vamos enfrentar o desafio, vamos buscar uma solução.
Gosto de uma máxima do futebol que diz: “Quem pede recebe; quem se desloca tem preferência.”
Acho que essa frase traduz muito a nossa história. Procuramos sempre nos deslocar, sair da posição confortável e dar um passo adiante. Porque, quando você se movimenta, aumenta a possibilidade de encontrar uma solução melhor e de sair do outro lado do rio em uma posição mais forte.
Então, quando olho para os momentos que marcaram a história da Morya, vejo uma combinação de pioneirismo, participação na construção do mercado, expansão e coragem para se movimentar.
Na Bahia, construímos nossas raízes. No mercado nacional, tivemos a coragem de levar essa experiência para outros lugares. E, ao longo de 70 anos, essa capacidade de avançar, se adaptar e abrir novos caminhos continua sendo uma das marcas mais importantes da nossa história.
ABMP: Como a Morya investe na formação de novos talentos e na renovação do mercado?
CC: Nós temos um programa de estágio muito robusto e histórico, que já revelou muitos profissionais para a própria Morya e para o mercado.
Eu, inclusive, já fui estagiário da agência. Então, tenho uma relação muito especial com esse programa.
Ao longo dos anos, muitas pessoas começaram suas trajetórias conosco. Algumas permaneceram na agência, outras seguiram novos caminhos, mas muitas delas continuam contribuindo para o mercado publicitário. E acho que esse é um dos papéis importantes de uma agência: formar pessoas e ajudar a desenvolver profissionais, independentemente de elas permanecerem ou não na organização.
Mas a formação não termina no estágio.
Nós investimos continuamente na atualização e no desenvolvimento da nossa equipe. Neste ano em que comemoramos 70 anos, por exemplo, enviamos um profissional nosso para o SXSW, em Austin, no Texas, que é um dos maiores festivais de inovação do mundo.
Também tivemos profissionais participando do Web Summit, um dos grandes eventos internacionais de inovação e tecnologia, que teve uma edição no Brasil.
Estamos sempre buscando estar presentes em festivais, eventos e espaços que possam trazer novas referências e renovar o conhecimento da nossa equipe.
E temos uma prática que considero muito importante: quando um profissional participa de um evento como esses, ele não volta apenas com uma experiência individual. Ele volta também com o compromisso de compartilhar o conhecimento com o restante da equipe.
Ou seja, o aprendizado precisa circular.
Isso faz parte da nossa cultura e da maturidade da nossa operação. Temos trabalhado continuamente na construção de uma cultura de desenvolvimento, utilizando diferentes instrumentos para formar, atualizar e preparar a nossa equipe para os desafios do mercado.
Acredito que investir em talentos não é apenas oferecer treinamento. É criar um ambiente em que as pessoas possam aprender, experimentar, compartilhar conhecimento e assumir responsabilidades.
E essa é uma preocupação que temos há muito tempo. O nosso programa de estágio é um exemplo disso, mas também é importante que profissionais experientes continuem aprendendo e que os mais jovens tenham espaço para trazer novas visões.
A renovação do mercado acontece justamente quando essas duas coisas se encontram: a experiência acumulada ao longo de 70 anos e a energia, a curiosidade e as novas referências das gerações que estão chegando.
Sempre tivemos muita gente boa conosco e continuamos tendo muita gente boa, a Morya é feita das nossas pessoas e do engajamento com nossos objetivos e com nossa cultura.
ABMP: O que significa chegar aos 70 anos sendo uma agência relevante e inovadora?
CC: Chegar aos 70 anos significa, antes de tudo, estar muito feliz e orgulhoso da nossa história. Mas significa também estar totalmente focado para a frente.
A nossa história é uma base importante, mas não pode ser um ponto de chegada. O nosso olhar está voltado para o futuro, sempre inspirado pelo nosso DNA e pelos nossos três Cs — Consciência, Consistência e Criatividade —, mas com coragem para continuar avançando e sendo cada vez mais relevantes para os nossos clientes e para as nossas pessoas.
Temos alguns pilares de gestão que orientam a nossa caminhada.
O primeiro, que para nós é inegociável, é a satisfação do cliente. É uma jornada e uma conquista diária. A pergunta não é: “O que dá para fazer para o nosso cliente ficar satisfeito?”
A pergunta é: “O que precisa ser feito para o nosso cliente ficar satisfeito?”
Esse é o nosso farol.
Ao mesmo tempo, precisamos construir uma empresa sustentável para a nossa equipe. Queremos que a Morya seja uma boa casa, um lugar onde as pessoas possam trabalhar, se desenvolver e se realizar.
Também precisamos garantir a saúde financeira do negócio. E, finalmente, queremos que tudo isso tenha impacto e relevância na comunidade em que atuamos.
Então, existe um equilíbrio entre esses pilares: cliente satisfeito, uma equipe realizada e sustentável, saúde financeira do negócio e impacto positivo na comunidade. É esse equilíbrio que torna a gestão uma jornada desafiadora, mas também muito gratificante.
Para manter essa direção, temos instrumentos de cultura que fazem parte do nosso dia a dia.
No início de cada ano, realizamos o Barco Morya, um momento em que reunimos presencialmente toda a nossa equipe para falar sobre para onde estamos indo. Apresentamos os caminhos, os projetos e aquilo que a agência está pensando para o futuro, buscando criar uma identidade entre a equipe e os objetivos da Morya.
Temos também a nossa reunião semanal de pauta. Embora exista uma pauta estruturada por cliente e uma metodologia de trabalho, o pano de fundo é muito importante: trabalhar a postura e o nosso modo de fazer.
É um momento em que reunimos a equipe, parte presencialmente e parte à distância, para falar não apenas sobre o que precisa ser feito, mas sobre como fazemos as coisas na Morya.
Ao longo do ano, também temos outros momentos que fortalecem esse ambiente de engajamento e pertencimento. Temos o nosso brinde de aniversário, que neste ano dos 70 anos foi especialmente marcante, nossas confraternizações, o nosso Caruru da Gratidão, em outubro, e a confraternização de final de ano.
Tudo isso faz parte da construção de uma cultura.
Então, chegar aos 70 anos sendo relevante e inovadora significa ter a maturidade para reconhecer tudo o que foi construído, mas também a coragem para continuar avançando.
Significa entender que a longevidade só tem valor quando vem acompanhada de relevância. E que a inovação só faz sentido quando está conectada às necessidades dos clientes, das pessoas e da comunidade.
O nosso desafio é continuar navegando. O barco já tem 70 anos de história, mas o mais importante é saber para onde ele está indo.
ABMP: Que conselho a Morya daria para quem está começando hoje na publicidade?
CC: Eu não colocaria isso exatamente como um conselho, mas como um depoimento a partir da nossa trajetória e da nossa história.
Eu sou, pessoalmente, um entusiasmado com a nossa atividade. E, quando olho para o meu dia a dia, tenho a sensação de que talvez seja hoje ainda mais entusiasmado com a publicidade do que quando comecei.
Eu não nasci publicitário. É verdade que nasci em um ambiente que naturalmente me aproximava da atividade, por causa da agência e de meu pai. Mas eu aprendi a gostar da publicidade. Aprendi a me realizar nela.
E acho que esse é um ponto muito importante para quem está começando: encontrar prazer e realização naquilo que faz.
Existe aquela ideia de que são 10% inspiração e 90% transpiração. E eu acredito muito nisso. É preciso estudar muito, trabalhar muito, ter persistência, resiliência e coragem.
Essas características foram muito importantes na nossa trajetória e continuam sendo fundamentais para qualquer pessoa que queira construir uma carreira.
Lembro-me de uma campanha que fizemos para a própria Morya, há cerca de 20 anos. A campanha mostrava pessoas como Oscar Niemeyer e Dona Canô, já em idades avançadas, e trazia uma frase muito simples e poderosa:
“É nisso que dá fazer o que gosta.”
Acho que essa frase resume muito do que eu penso.
Quando você consegue construir prazer e realização na sua atividade, as coisas tendem a caminhar melhor. Mas isso não significa que basta gostar do que faz.
É preciso unir o gosto pelo que se faz ao trabalho duro necessário para transformar esse entusiasmo em resultado.
Então, para quem está começando hoje na publicidade, eu diria: estude, trabalhe, seja persistente, tenha resiliência e coragem. Mas procure também encontrar aquilo que realmente desperta o seu entusiasmo.
Porque, quando você consegue unir o prazer de fazer o que gosta à disciplina e ao trabalho necessários para construir uma carreira, fica muito mais fácil desenvolver projetos, realizar sonhos e construir uma trajetória consistente.
Eu sou um exemplo disso. Entrei na publicidade por circunstância, mas permaneci porque aprendi a gostar dela. E, depois de tantos anos, continuo entusiasmado com o que faço.
ABMP: Quais são os próximos desafios e sonhos para a agência nos próximos anos?
CC: Nós temos utilizado, no início de cada ano, um instrumento que chamamos de Barco Morya, que representa justamente essa ideia de olhar para a frente e perguntar: para onde o nosso barco vai?
Neste ano, colocamos para a nossa equipe um desafio muito claro: a Morya é uma agência de publicidade que caminha para se tornar um ecossistema multidisciplinar, com criatividade e consistência no centro.
O que isso significa?
Significa que as entregas e os produtos que oferecemos aos nossos clientes vão muito além de um anúncio. Existe uma estratégia por trás, uma visão de construção de marca e diferentes instrumentos que podem ser combinados para construir soluções mais completas.
Já temos algumas dessas frentes estruturadas.
Temos o Hub de Conteúdo da Morya, com uma atuação muito forte no ambiente digital, na gestão de redes sociais e na curadoria de influenciadores.
Também estamos dando passos importantes no live marketing. E não apenas no live marketing como execução de eventos, mas principalmente como compreensão e formulação de estratégias. Queremos incorporar cada vez mais essa visão às estratégias que propomos para os nossos clientes.
Outro projeto que me entusiasma muito é a Morya Academy. Nós temos uma quantidade enorme de conhecimento, informação, histórias e experiências acumuladas ao longo de 70 anos, além de todo o conhecimento que está dentro da nossa equipe. Estamos construindo uma metodologia para organizar esse conhecimento e deixá-lo disponível para as pessoas da Morya e, eventualmente, também para o mercado. Acho muito importante que uma empresa de 70 anos consiga transformar sua experiência em conhecimento compartilhável.
Então, temos desafios claros pela frente: continuar desenvolvendo esse ecossistema multidisciplinar, ampliar nossas capacidades, incorporar novas tecnologias, fortalecer o digital, avançar no live marketing e organizar e compartilhar cada vez mais o conhecimento que temos.
Mas tudo isso precisa estar apoiado nos pilares que orientam a nossa gestão.
Queremos clientes satisfeitos. Queremos uma equipe sustentável, saudável e realizada. Queremos uma agência financeiramente saudável. E queremos que o nosso trabalho tenha impacto e relevância na comunidade em que atuamos.
O grande desafio é equilibrar esses pilares.
Porque não adianta crescer sem cuidar das pessoas. Não adianta ter uma equipe feliz sem ter saúde financeira. Não adianta ter uma empresa saudável se não entregarmos valor real aos nossos clientes. E tudo isso precisa acontecer com relevância para a comunidade.
Então, os nossos sonhos para os próximos anos são grandes, mas estão muito conectados à nossa essência.
Queremos continuar sendo uma empresa relevante, inovadora, criativa e consistente. Queremos continuar formando pessoas, construindo marcas, desenvolvendo novos produtos e soluções e, principalmente, mantendo vivo o nosso DNA.
A Morya tem 70 anos de história, mas continua navegando.
E o mais importante agora é continuar olhando para o farol, com consciência, consistência, criatividade e coragem para seguir em frente.
Entrevista: Grupo Engenho (Marcio Viana, Laura Passos e Carla Brayner)
" Preservar o lado humano da comunicação é uma premissa primordial para o Grupo Engenho. Afinal, tudo gira em torno do ser humano. Acreditamos que a criatividade está intrinsecamente ligada à diversidade. O pensar diferente do colega ao lado nos provoca, nos tira da...
Entrevista: Cláudio André de Souza – Professor da Unilab e sócio do Instituto de Pesquisa e Análise Política (IPAP)
" A diferença entre comunicação eficaz e ruído começa, quase sempre, na qualidade da escuta prévia que permite organizar uma camada de decisão preditiva." ...
Entrevista: Gabriel Carvalho – Fundador do Portal São João na Bahia
" Nos últimos anos, os festejos ganharam uma proporção gigantesca, com um crescimento exponencial em número de contratações, público presente e na economia. Em todo o Estado, a festa já gera mais de R$ 2 bilhões e gera muitos postos de trabalho e renda." ...
Entrevista: Rui Carvalho – Sócio diretor da RCM Propaganda
" O melhor argumento sempre foi mostrar com riqueza de detalhes para o cliente um trabalho de planejamento, aonde contempla todas as ameaças e oportunidades antes e depois da execução de uma campanha." ...
Entrevista: Lícia Fábio – Empresária do Ramo de Eventos
"O nosso trade de entretenimento tem se posicionado num aprendizado necessário, por onde corre a nossa cultura, estudando, lendo, buscando nossas raízes e acompanhando o mundo, desde a IA até a poesia de Castro Alves." ...
Entrevista: Paulo Coelho – Presidente do Sinapro Bahia
"É gratificante perceber que o mercado enxerga no Sinapro-Bahia uma entidade viva, relevante, capaz de promover o diálogo e fortalecer as relações entre agências, clientes e parceiros. Essa energia que veio do Enapro nos inspira a começar o trabalho com disposição...
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