Era dos haters
O termo hater, de origem inglesa, quer dizer os que odeiam ou odiadores, remete ao mundo da internet e é usado para classificar os truculentos cyber bullying, os ataques agressivos nas mídias sociais. O hater ataca sua vítima por meio de declarações hostis e por causa de seus pontos de vista contrários. De nada adianta argumentar: o militante do ódio despreza a razão, o processamento lógico das ideias, a argumentação. Seus pareceres já vêm prontos e ele parte para o ataque cheio de certezas, crenças e emoções.
Identificado seu alvo, o passo seguinte é a rotulação. Entra em campo um velho mecanismo psicológico de generalização: o sujeito alvejado passa a ser tratado como todas as pessoas do universo que defendem tais pontos de vista e são, portanto, potenciais ameaças ao seu grupo de referência e, alternativa 1, ou aceitam a catequese e se convertem ou, alternativa 2, são desmascarados e destruídos. Quanto mais odeiam e atacam os de fora de sua patota, mais sucumbem a uma ilusão de homogeneidade e coesão entre os integrantes de seu grupo de crença, recorda a Psicologia Social. Os haters de repente passam a compartilhar da certeza de que, por terem todos os mesmos alvos, são unidos e coesos.
Os ataques podem ficar mais graves, os haters podem vir a ameaçar publicar notícias desabonadoras sobre a vítima, ainda mais se esta tem presença na mídia, expor sua imagem em situações comprometedoras, lançar calúnias e prejudicar sua reputação e gerar perda de prestígio social.
A mídia na era global escancarou o amplo espaço das ágoras digitais onde se multiplicam os velhos ódios dos haters e onde se praticam tais ataques movidos pelos sentimentos tóxicos misturados com crenças e fanatismos.
Cidadãos romanos, há dois mil anos, costumavam distinguir fanos de templum. Templum era um lugar de culto coletivo e práticas religiosas oficiais, onde se celebravam ritos e liturgias, que respeitavam as etapas do cerimonial. Ao contrário, nos cultos em fanos se cultivava os excessos e se disseminava o desprezo à razão. Suas celebrações eram movidas pelo consumo de substâncias estimulantes e se apostava no prazer da catarse psicológica. Nos rituais profanos os devotos se excediam e eram arrebatados pelos efeitos do vinho e outras substâncias – e perdiam a razão. O problema era quando os fiéis de fanos – os fanáticos – perturbavam os rituais dos templos com sua ação de profanação. Ridicularizar a ordem e a estrutura dos ritos sagrados dos templos, impor sua crença nos locais onde os outros celebram seus rituais nos remetem aos haters de hoje e ao desprezo ao diálogo e à razão.
Os haters, enquanto fundamentalistas e radicais, reproduzem a velha prática do proselitismo religioso com seu empenho de tentar converter uma ou várias pessoas em prol de sua causa, ideologia, crença religiosa ou Messias de plantão. Há sites e grupos ideológicos que atraem e seduzem novos prosélitos ou seguidores para sua ideologia, religião, doutrina, filosofia ou grupo dissidente de uma associação científica sem apelar para as técnicas de persuasão antiéticas e agressivas. Mas não é assim que se dissemina no universo dos haters. O que mais se constata na web são formas de catequese e proselitismo que usam da mentira acompanhada de um corrosivo kit de discriminação.
O fanatismo dos haters encontrou um terreno profícuo no ambiente das mídias digitais. Seu alvo predileto é a profanação do diálogo, do debate, da conversa, das discussões, da possibilidade de existência de comunicação na divergência. Intolerância é sua impressão digital.
Invadem as postagens com uma inexplicável missão religiosa de catequese e conversão. Derrubar a crença alheia, demonstrar que seu deus, doutrina, crença, cultura, valores, etc., são manifestações absolutas da verdade verdadeira – e que tudo o mais vá para o inferno.
O hater fanático deixa um rastro fácil de reconhecer. Sua limitação intelectual e um espectro estreito de ideias que se resumem em ou isto ou aquilo. E não contextualizam nada. E, principalmente, é um cego leal ao núcleo do fundamento de uma crença que o obriga a abominar a qualquer interpretação. Em nome do fundamento, os fanáticos e radicais não aceitam matizes e interpretação. Profanam a arte do diálogo e da argumentação, nada escutam do outro e não levam a alteridade em consideração.
O hater fundamentalista, militante do ódio de plantão, é fiel ao texto sagrado da cartilha de seu partido e grupo e somente reverencia presunçosamente a palavra do seu Messias. Cultua o pé da letra, paralisa o sentido da palavra e não permite que ela possa saltar, transcender e dançar. Em síntese, qualquer hermenêutica o atordoa. Pelo amor ao pé da letra hostiliza suas vítimas na web com uma mente similar aos dos outros que explodem bombas nas praças, derrubam aviões, massacram hospitais e executam lideranças políticas com tiros no coração.

Carlos Linhares
Colunista
Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
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