Hipnocracia: entre o espetáculo e a manipulação algorítmica
O livro Hipnocracia: Trump, Musk e a nova arquitetura da realidade, lançado na Itália em janeiro de 2025, provocou um tremendo abalo na cena intelectual europeia. A obra, atribuída a um intelectual de Hong Kong de nome Jianwei Xun — posteriormente revelado como uma criação colaborativa entre o ensaísta italiano Andrea Colamedici e duas diferentes plataformas de inteligência artificial— apresenta uma crítica contundente ao modo como o poder contemporâneo se exerce não pela repressão direta, mas pela indução de estados emocionais e perceptivos manipulados digitalmente.
O conceito de “hipnocracia” pode ser entendido por sua raiz grega: “cracia” (governo) e “hipno” (sono), juntas sugerem um regime que governa por meio da distração, da saturação informacional e da anestesia crítica. Um poder sobre cidadãos hipnotizados e uma forma de controle que atua diretamente sobre a consciência coletiva, modulando-a por meio de narrativas virais, memes, deepfakes e promessas espetaculares e vertiginosas. Uma “ditadura digital” que nos permite modular diretamente os estados de consciência”, nas palavras da pesquisadora Cecilia Danesi.
O subtítulo do livro aponta dois protagonistas centrais: Donald Trump e Elon Musk. Mas poderia muito bem ser Bukele, Milei ou Bolsonaro. Trump e Musk são descritos como “sumos sacerdotes” da hipnocracia, não por sua liderança ou capacidade gerencial, mas pela extraordinária habilidade na gestão de narrativas e na captura da atenção pública com promessas grandiosas e estapafúrdias — como o retorno da antiga indústria de ponta aos EUA, o fim das guerras com passes de mágica, a transformação de Gaza em balneário ou viagens de turismo interplanetário. Os arquitetos hipnocráticos operam uma realidade simulada, onde o espetáculo substitui o debate racional e a autoridade é concedida pela massa hipnotizada. Dispensa-se tranquilamente qualquer competência em Gestão Pública.
Segundo Jianwei Xun, essa nova arquitetura não se constrói com tijolos, mas com algoritmos. A realidade é moldada por plataformas digitais que sobrecarregam os sentidos e confundem os limites entre o real e o simulado. A hipnocracia não censura — ela seduz, distrai e fragmenta. Lembrando o Bauman da modernidade líquida, o poder na Hipnocracia se torna “gasoso”, invisível, infiltrando-se em todos os aspectos da vida cotidiana.
O livro ocupou o centro dos debates nos melhores círculos acadêmicos e filosóficos de prestígio da Europa. Em apenas seis meses, ganhou três edições e foi citado em artigos científicos até por pesquisadores do renomado Instituto HEC de Paris. No entanto, uma reviravolta inesperada e perturbadora mudou radicalmente o rumo da discussão.
Após uma investigação minuciosa, a jornalista Sabina Minardi, da revista L’Espresso, revelou que Jianwei Xun — suposto filósofo de Hong Kong e autor do livro Hipnocracia — nunca existiu, era uma identidade era fictícia e que o verdadeiro autor era Andrea Colamedici que escreveu a obra em parceria com sistemas de IA generativa.
A descoberta gerou um tremendo desconforto no meio intelectual, mas também funcionou como um desvelamento: a própria farsa fazia parte do conteúdo do livro. Colamedici, ensaísta italiano e professor de Inteligência Artificial e Prompt Thinking no Instituto Europeu de Design e em universidades italianas, assumiu publicamente a autoria do projeto, que descreveu como um “experimento filosófico e performance narrativa”.
A criação de Jianwei Xun não foi um desvio ético acidental, mas parte integrante de uma estratégia intelectual deliberada. A performance foi urdida em sintonia com as teses do livro, concebida como uma demonstração prática dos mecanismos de manipulação digital que o próprio texto denuncia. Ao simular uma autoridade inexistente, Colamedici encarnou a crítica à autenticidade construída por algoritmos e à credulidade da sociedade diante de narrativas bem embaladas.
De falcatrua literária o episódio passou a ser tratado como performance artística, e atraiu ainda mais atenção para seu conteúdo. A intenção do autor era provocar uma reflexão radical sobre os limites da autoria, da autoridade simbólica e da credibilidade intelectual. Parece que conseguiu.
A revelação não invalidou a obra — ao contrário, transformou-a em performance filosófica e provocação intelectual. A ausência de um autor real escancarou nossa fome por autoridade simbólica e por ideias embaladas em nomes exóticos. Ironicamente, o sobrenome Xun significa “velocidade das respostas” em chinês — uma crítica sutil à aceleração cognitiva promovida pela IA.
Outra revelação foi o método de elaboração do ensaio e o passo a passo do seu processo de criação. O autor utilizou o ChatGPT e Claude — sistemas de IA desenvolvidos por OpenAI e Anthropic, respectivamente— em confronto dialético, posicionando-se como um “Sócrates digital”. Ele provocava, discordava, inquiria e explorava os atritos entre as respostas das duas inteligências, criando o que chamou de diálogo maiêutico algorítmico.
O resultado foi uma obra híbrida, coassinada por três inteligências — duas artificiais e uma humana — um desafio para os limites da autoria tradicional. “Que importa que tenham sido escritos por IA? Ou, melhor dizendo, em co-criação minha com a IA? Será que estamos diante de um novo caminho para se fazer filosofia?”, questionou o autor.
Sua tese central é que vivemos sob um regime hipnocrático, em que o controle social não se dá pela repressão, mas pela superabundância de narrativas: likes, notificações, vídeos curtos, emojis, sons, slogans e imagens espetaculares compõem um fluxo incessante de estímulos que induzem a consciência coletiva a um estado de transe informacional. Nesse cenário, o objetivo não é apenas distrair — é moldar o pensamento.
Colamedici descreve esse processo como uma forma de colonização cognitiva, na qual algoritmos e inteligências artificiais definem o que parece autêntico. Surge, então, uma “autenticidade de segunda ordem”: uma percepção de verdade construída por sistemas que operam segundo lógicas estatísticas, interesses comerciais e padrões de engajamento.
Há uma clara convergência entre a Hipnocracia de Colamedici e a Psicopolítica de Byung-Chul Han. Ambos denunciam um poder que não se impõe pela força, mas pela sedução. Han afirma que o neoliberalismo transforma o indivíduo em empreendedor de si mesmo, explorando-se voluntariamente sob o disfarce da liberdade. Colamedici amplia essa crítica ao mostrar como a IA intensifica esse processo, oferecendo uma liberdade simulada, onde o sujeito acredita estar pensando por conta própria, mas está apenas reproduzindo padrões algorítmicos.
Hipnocracia é simultaneamente teoria e prática — um fármacon, que para os antigos filósofos continha veneno e remédio ao mesmo tempo. Ao simular uma fraude autoral, o livro revela os próprios mecanismos que denuncia. A obra não apenas discute a manipulação digital — ela a encena, expondo os limites da credibilidade intelectual e da autoridade simbólica.
Andrea Colamedici defende uma aliança estratégica com a IA. Ao modo do Instituto Butantã, ele propõe extrair cura do veneno. Não se trata de rejeita a IA, mas de usá-la com cautela e intencionalidade filosófica. A IA deve ser ferramenta para pensar — não para confirmar certezas, mas para provocar fricções, explorar pontos cegos e antecipar linhas de fuga para a hipnose ideológica promovida pelos engenheiros do caos.
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XUN, Jianwei. Hipnocracia: Trump, Musk e a nova arquitetura da realidade. Barcelona. Editorial Rosamerón. 2014
HAN, Byung-Chul. Psicopolítica – o neoliberalismo e as novas técnicas de poder Belo Horizonte: Editora Ayiné, 2014
DANESI, Cecília. El Imperio De Los Algoritmos: IA inclusiva, ética y al servicio de la humanidade. Buenos Aires: Galerna, 2022. Libro Digital.
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Carlos Linhares
Colunista
Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
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