IA generativa e o viés de gênero

jul/2025

Primeiro, eu consultei o Gemini Deep Research para buscar os dados necessários e me ajudar a embasar os argumentos desta coluna. Depois de escrito todo o texto, usei o Claude para fazer uma revisão gramatical. Ao primeiro olhar, a minha atitude poderia representar uma contradição uma vez que busco expor a baixa adesão das mulheres às tecnologias relacionadas à Inteligência Artificial Generativa e seus desdobramentos preocupantes para o futuro do trabalho e a equidade de gênero. Estou, entretanto, entendendo que faço parte dos 35,68% de mulheres que, segundo pesquisa da Semrush, utilizam as ferramentas de inteligência artificial cotidianamente, contra 64,32% de homens.

Essa realidade ganha contornos ainda mais preocupantes quando analisamos o estudo, a meta-análise da Harvard Business School (HBS), Berkeley e Stanford, que indica que, globalmente, apenas 27,2% de mulheres fizeram download do ChatGPT para dispositivos mobile. O ChatGPT, ferramenta desenvolvida pela OpenAI, é a líder do segmento, mas os números são similares em plataformas como Gemini do Google, e um pouco mais dramáticos entre os usuários do Claude, da Anthropic.

Nossa cultura Early Adopter e o dinamismo da indústria da propaganda talvez façam você duvidar dos números. Nossa bolha, e eu me incluo totalmente, pode não se ver representada mesmo diante de evidências tão contundentes. A realidade dos outros setores, entretanto, expõe a fragilidade das mulheres no quesito Inteligência Artificial, questões que se relacionam tanto às demandas objetivas e imediatistas de reskilling, quanto às de longo prazo, como a consolidação das conquistas pela equidade de gênero.

Sem atualização de competências, as mulheres terão dificuldades para atender as novas e cada dia mais ágeis demandas das empresas. Dependendo do contexto, poderão encontrar dificuldades para obter melhores remunerações e, em casos mais extremos, dificuldades de ascensão e recolocação profissional. O novo cenário macroeconômico tende a tornar obsoleta a análise do Fórum Econômico Mundial que projeta em 123 anos o tempo necessário para se alcançar a paridade de gênero global.

Essa aparente restrição das mulheres em aderir aos recursos ligados à Inteligência Artificial Generativa (IAGen) não surge do nada. Está relacionada a um modelo de educação que coloca as meninas, desde muito cedo, à margem das disciplinas de exatas e também da tecnologia. As mulheres representam apenas 28% dos profissionais que atuam em STEM (Science, Technology, Engineering, and Mathematics), segundo o Fórum Econômico Mundial. Elas também demonstram ter mais receios sobre privacidade e segurança de dados; segundo a Deloitte, são mais propensas a perceber o uso da IA como antiético especialmente em contextos acadêmicos ou profissionais.

Em um mundo tão complexo, muito ágil e repleto de desinformação, não há como dizer que essas preocupações e zelo são atitudes exageradas. O problema é que, com baixa adesão, os modelos que estão sendo colocados para uso passam a ser treinados majoritariamente por homens, e isso sim é um fator demasiadamente preocupante. Uma vez que os projetos não foram submetidos ao olhar feminino, que as ferramentas não recebem inputs e comandos das mulheres e que a tendência é que esse aparato molde a vida dos próximos anos, temo que a resposta seja ainda mais desigualdade provocada por um viés algorítmico de gênero.
Diante desse cenário, fica evidente que não se trata apenas de uma questão de preferência tecnológica, mas de um problema estrutural e sistêmico que demanda ação imediata. Ainda que saibamos que uma solução eficiente necessite de políticas públicas e articulações diversas em âmbito global, sinto necessidade de pensar e contribuir com a minha pequena parte. As agências de propaganda, por sua posição privilegiada na construção de narrativas e influência social, têm uma oportunidade única de liderar campanhas que desmistifiquem o uso da inteligência artificial entre as mulheres. Mais do que criar peças publicitárias sobre o tema, o setor pode multiplicar iniciativas educativas que abordem tanto as potencialidades quanto os cuidados necessários no uso dessas ferramentas, a exemplo do que vem fazendo a ABMP com seus cursos e eventos. É necessário, entretanto, pensar em ações direcionadas para a questão de gênero com conteúdos que facilitem a apropriação da linguagem e das ferramentas e explorem os benefícios da IA Generativa no dia a dia de forma mais ampla. Talvez seja um forte argumento demonstrar que elas podem não apenas organizar melhor as suas carreiras e processos profissionais, como também desenvolver assistentes que atenuem sua dupla jornada.

Afinal, em um futuro moldado pela inteligência artificial, nossa responsabilidade como comunicadores vai além de vender produtos, precisamos construir pontes para um mundo mais inclusivo e tecnologicamente democrático. E isso começa com reconhecer que temos um problema urgente entre as mãos.

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Alessandra Calheira

Alessandra Calheira

Colunista

Fundadora da Career Organizer.
Mestre em Comunicação e Culturas Contemporâneas, Especialista em Empregabilidade, Professora e Palestrante.

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